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Ataques de Israel no sul do Líbano já matam mais de 2,6 mil após trégua

Ataques israelenses no sul do Líbano deixam mais de 2.600 mortos até esta sexta-feira (3), segundo o Ministério da Saúde libanês, apesar do cessar-fogo iniciado em 17 de abril. O Hezbollah reage e contesta a permanência das tropas israelenses ao sul do rio Litani, área que deveria estar livre de combatentes pelo acordo anterior entre as partes.

Trégua sob fogo cruzado

O cessar-fogo entra em vigor à meia-noite de 17 de abril com um país já profundamente ferido. Naquele momento, 2.294 pessoas haviam sido mortas em ataques israelenses em território libanês, segundo a pasta da Saúde. A promessa de uma pausa é rapidamente esvaziada pela continuidade dos bombardeios no sul, onde Israel mantém tropas e mira posições que afirma pertencerem ao Hezbollah.

Em pouco mais de duas semanas, o ministério contabiliza pelo menos 385 novas mortes atribuídas aos ataques de Israel, elevando o total para mais de 2.600. As cifras incluem civis e combatentes, mas o governo libanês não detalha quantos são mulheres e crianças. Hospitais em cidades próximas à fronteira relatam, sob anonimato, dificuldade para manter estoques de remédios e combustível para geradores diante da sequência de ofensivas.

Enquanto isso, o Exército israelense faz alertas de desocupação para várias cidades do sul do Líbano, inclusive algumas ao norte do rio Litani. As mensagens, enviadas por alto-falantes, panfletos e aplicativos de celular, pedem que moradores abandonem suas casas e sigam para áreas consideradas mais seguras. Famílias deixam vilarejos em carros carregados de colchões, documentos e o que conseguem levar em poucas horas.

O comando militar de Israel afirma, em comunicados, que continua atingindo “alvos do Hezbollah” e que age para “proteger a população israelense” de ataques vindos do Líbano. O grupo libanês responde com disparos de foguetes e ataques contra posições israelenses ao longo da fronteira, insistindo que não aceita a presença permanente de tropas de Israel em solo libanês durante a trégua.

Rio Litani volta ao centro do conflito

O rio Litani, que corre a poucos quilômetros da fronteira norte de Israel, volta a ser o desenho físico de uma disputa antiga. Pelo acordo que encerra uma rodada anterior de confrontos, o Hezbollah se compromete a retirar seus combatentes para o norte do rio, abrindo uma espécie de faixa-tampão ao longo da fronteira. A região deveria ser patrulhada por forças regulares libanesas e por capacetes azuis da ONU.

Na prática, a presença do grupo xiita ao sul do Litani nunca desaparece por completo, e Israel mantém a desconfiança permanente sobre a movimentação de armas e combatentes na área. No cessar-fogo atual, tropas israelenses ficam dentro do sul do Líbano e não se limitam às posições do próprio território. O Hezbollah denuncia que, nessas condições, a trégua serve apenas para consolidar uma ocupação de fato.

Autoridades libanesas acusam Israel de violar o espírito e a letra do cessar-fogo ao seguir com bombardeios diários em localidades agrícolas e vilarejos densamente povoados. O Ministério da Saúde repete que o número de mortos cresce “a cada dia de ataques” e descreve uma pressão constante sobre hospitais públicos, que funcionam com equipes reduzidas. “As infraestruturas civis estão pagando o preço de uma guerra sem linha de frente clara”, afirma um funcionário da pasta, sob condição de anonimato, à imprensa local.

Do lado israelense, porta-vozes militares sustentam que as operações são “cirúrgicas” e que o alvo é exclusivamente militar, formado por depósitos de armas, centros de comando e unidades de lançamento de foguetes. Não há, porém, confirmação independente desses alvos. Organizações internacionais de direitos humanos pedem acesso às áreas mais atingidas para avaliar a extensão dos danos a civis.

Escalada ameaça estabilidade regional

O saldo humano da disputa entre Israel e Hezbollah aprofunda uma crise humanitária que já se arrasta há décadas no sul do Líbano. Mais de 2.600 mortos em poucos meses significam famílias desfeitas, deslocamentos internos e o colapso de serviços básicos em algumas localidades. A continuidade dos ataques durante a trégua torna frágil qualquer iniciativa de negociação política, mesmo com pressões de potências estrangeiras por uma solução duradoura.

A fronteira norte de Israel se mantém em alerta máximo. Sirenes de ataque aéreo soam com frequência em comunidades israelenses vizinhas, e escolas funcionam com restrições ou aulas remotas. No lado libanês, agricultores abandonam plantações e pequenos comércios fecham as portas, sem perspectiva de retomada em curto prazo. O conflito, centrado em disputas territoriais e na segurança de fronteira, espalha efeitos econômicos em uma região que já enfrenta inflação alta e moeda desvalorizada.

Diplomatas em Beirute e em Tel Aviv admitem, em conversas reservadas, que a margem de manobra diminui a cada novo ataque. Quanto maior o número de mortos, mais difícil se torna convencer as partes a aceitar concessões territoriais ou militares. O risco é de que um incidente de maior impacto, como um ataque com alto número de vítimas civis de um lado ou do outro, empurre o conflito para uma guerra aberta, com envolvimento mais direto de atores regionais.

O Hezbollah, apoiado pelo Irã, tenta mostrar que mantém capacidade de resposta mesmo sob pressão aérea constante. Israel, por sua vez, busca reforçar a narrativa de que não aceitará a presença de uma força armada hostil em sua fronteira norte. A soma desses objetivos deixa pouco espaço para recuos públicos, ainda que, nos bastidores, emissários internacionais circulem entre capitais em busca de um novo arranjo de segurança para a área do Litani.

Pressão por nova negociação e incerteza adiante

As próximas semanas tendem a definir se o cessar-fogo de 17 de abril sobrevive como referência política ou se entra para a lista de tréguas formais ignoradas no terreno. Observadores internacionais falam em uma “janela curta” até meados de maio para que um novo entendimento seja costurado, com garantias sobre a retirada de combatentes do Hezbollah ao norte do Litani e a redefinição da presença militar israelense no sul do Líbano.

Enquanto não há acordo, moradores do sul vivem entre malas prontas e abrigos improvisados. Cada sirene ou sobrevoo de drones reaviva o temor de um ataque mais intenso, que possa romper as limitações atuais do confronto. A dúvida que permanece é se Israel e Hezbollah ainda veem vantagem em conter a escalada ou se o cálculo político e militar já empurra os dois lados para uma nova fase da guerra, com consequências imprevisíveis para todo o Oriente Médio.

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