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Ataque israelense no Líbano mata mãe e filho brasileiros

Uma criança brasileira de 11 anos, a mãe brasileira e o pai libanês morrem em um bombardeio israelense no sul do Líbano, neste domingo (26/4). Outro filho do casal, também brasileiro, está hospitalizado. O ataque ocorre durante um cessar-fogo oficialmente em vigor entre Israel e Hezbollah.

Família é atingida dentro de casa em zona de fronteira

A família está em casa, no distrito de Bint Jeil, no sul do Líbano, quando o bombardeio atinge a região. A área fica próxima à fronteira com Israel e sofre ataques constantes desde o início da guerra, em março. O Ministério das Relações Exteriores confirma, nesta segunda-feira (27/4), as mortes e informa que o sobrevivente recebe atendimento em um hospital libanês.

O governo brasileiro descreve o episódio como mais uma violação grave do cessar-fogo anunciado em 16 de abril. O acordo deveria reduzir a intensidade dos combates até maio, mas não resiste por duas semanas. Desde então, ataques israelenses no território libanês já matam ao menos 40 civis, incluindo mulheres, crianças, uma jornalista e dois militares franceses que atuam na Força Interina das Nações Unidas no Líbano (Unifil).

A nota do Itamaraty ressalta que a família está dentro da residência no momento do ataque. “O governo brasileiro tomou conhecimento, com consternação e pesar, das mortes, em 26/4, de criança brasileira, de 11 anos, de sua mãe, também brasileira, e de seu pai libanês, vítimas de ataque das Forças de Defesa de Israel”, afirma o texto. O documento confirma ainda que “outro filho do casal, igualmente brasileiro, encontra-se hospitalizado”.

As imagens que chegam de Bint Jeil e de distritos vizinhos mostram colunas de fumaça sobre casas de alvenaria e estruturas civis demolidas. Vilas agrícolas da região, como Kfar Tibnit, Choukine e Taybeh, são alvos recorrentes de bombardeios nos últimos dias, mesmo sob o frágil cessar-fogo. Moradores deixam plantações, oficinas e pequenos comércios para trás em uma fuga apressada em direção ao norte do país.

Pressão diplomática do Brasil e escalada na guerra

O comunicado do Itamaraty endurece o tom contra os dois lados do conflito. “Ao expressar sinceras condolências aos familiares das vítimas, o Brasil reitera sua mais veemente condenação a todos os ataques perpetrados durante a vigência do cessar-fogo, tanto por parte das forças israelenses quanto do Hezbollah”, diz a chancelaria. A mensagem busca afastar a percepção de alinhamento automático com qualquer dos atores armados.

O governo também condena a destruição sistemática de casas e outras estruturas civis no sul do Líbano. Segundo a nota, demolições e bombardeios recentes alimentam o deslocamento forçado de mais de 1 milhão de libaneses. Autoridades locais e agências humanitárias falam em comunidades inteiras esvaziadas, com famílias vivendo em escolas, garagens e prédios públicos adaptados às pressas.

Desde o início da ofensiva de Israel no Líbano, em março, mais de 2.500 civis morrem em ataques aéreos e de artilharia, de acordo com números compilados por organismos internacionais. Na semana anterior à morte dos brasileiros, um bombardeio mata a jornalista Amal Khalil e outras quatro pessoas. Em paralelo, a rede Al Jazeera contabiliza ao menos 40 civis mortos apenas após o anúncio do cessar-fogo em abril, o que expõe a fragilidade dos entendimentos políticos.

O Líbano entra de forma mais direta na guerra em 2 de março, quando o Hezbollah passa a atacar alvos israelenses em resposta ao assassinato de um líder iraniano. Israel reage com investidas aéreas ao longo de praticamente todo o território libanês e com uma ofensiva terrestre no sul. A linha azul, demarcação reconhecida pela ONU depois da guerra de 2006, volta a ser cenário de deslocamentos de tropas e de troca de foguetes.

No Brasil, o caso reacende o debate sobre a proteção de cidadãos em zonas de conflito e a capacidade do Estado de acompanhar brasileiros em áreas de risco. A comunidade libanesa e descendente, uma das maiores do mundo, acompanha com apreensão a escalada no país de origem. Famílias relatam dificuldade em convencer parentes a deixar localidades ameaçadas, seja por laços afetivos, seja por limitação financeira.

Resolução da ONU em xeque e incerteza para civis

O Itamaraty usa o episódio para reforçar o apelo ao cumprimento integral da Resolução 1701, aprovada em 2006 pelo Conselho de Segurança da ONU. O texto estabelece os termos do cessar-fogo que encerra a guerra entre Israel e Hezbollah naquele ano. Entre os pontos centrais está a retirada completa das tropas israelenses do território libanês e a presença reforçada da Unifil na faixa de fronteira.

Quase vinte anos depois, a resolução segue no papel, mas perde aderência na prática. A atual ofensiva israelense, somada ao avanço do Hezbollah no sul, enfraquece o pacto e coloca a missão da ONU sob pressão. Dois integrantes franceses da Unifil já morrem em bombardeios recentes, o que alimenta a discussão, em capitais europeias, sobre o risco crescente para contingentes estrangeiros.

A embaixada do Brasil em Beirute mantém contato com parentes das vítimas brasileiras e oferece apoio consular ao filho sobrevivente. O processo passa por questões delicadas, como a eventual repatriação de corpos, a emissão de documentos de viagem e o suporte psicológico à família. Diplomatas brasileiros também conversam com autoridades libanesas e com a ONU para acompanhar a investigação sobre as circunstâncias do ataque em Bint Jeil.

No campo político, a morte da criança brasileira e de sua mãe adiciona pressão sobre o governo israelense em fóruns internacionais, especialmente no Conselho de Segurança. Países que buscam uma trégua mais estável citam o episódio como evidência de que o cessar-fogo atual não protege civis. Organizações de direitos humanos pedem apurações independentes sobre eventuais violações do direito internacional humanitário.

O desfecho imediato depende da capacidade de Israel e Hezbollah de reduzir o ritmo das hostilidades e de aceitar mecanismos de monitoramento mais rígidos da ONU. Sem uma negociação que estabilize o sul do Líbano, o risco é de que casos como o da família brasileira se repitam, com novas vítimas presas entre foguetes, bombardeios e uma paz que, por enquanto, existe apenas nos documentos oficiais.

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