Após recusa da PF, dono do Banco Master busca delação na PGR
O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, tenta em 2026 fechar um acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República após ver sua proposta rejeitada pela Polícia Federal. Ele busca benefícios penais em troca de informações sobre fraudes bancárias bilionárias que levaram à liquidação da instituição.
Negociação em meio a fraudes e prisão
O futuro de Vorcaro, preso preventivamente desde o início de março após breve período em prisão domiciliar, passa agora pelo que conseguir oferecer à PGR. O banqueiro tenta provar que tem dados inéditos sobre o esquema que derrubou o Banco Master, liquidado em novembro sob suspeita de fraudes que somam bilhões de reais em prejuízos e risco ao sistema financeiro.
A recusa da Polícia Federal, porém, lança sombra sobre essa estratégia. Investigadores avaliaram que o pacote de informações apresentado pela defesa não acrescenta, de forma relevante, ao que as apurações já reuniram desde o fim de 2025. Criminalistas ouvidos por veículos como a BBC News Brasil enxergam nesse veto um sinal de que a PF considera a colaboração pouco útil, seja pela falta de fatos novos, seja pela fragilidade das provas ou pelo volume de recursos que o banqueiro se dispõe a devolver.
O Master entra em liquidação extrajudicial em novembro, após sucessivas operações da PF e do Banco Central mirarem operações de crédito suspeitas, triangulações financeiras e uso de offshores. No mesmo período, Vorcaro é preso pela primeira vez. Meses depois, volta à cadeia em regime de prisão preventiva, quando as investigações apontam risco de interferência na coleta de provas.
Em paralelo, a PF apreende celulares, computadores e documentos em endereços ligados ao banqueiro e a seus aliados, entre eles o cunhado, Fabiano Zettel, apontado como operador financeiro do grupo. Os peritos extraem mensagens e planilhas que revelam a dimensão da engrenagem, com contatos de autoridades, políticos e executivos, ainda sob análise formal dos investigadores.
O que está em jogo para Justiça, política e mercado
A colaboração de Vorcaro interessa não apenas pelo potencial de recuperar parte do dinheiro perdido, mas pelo alcance político do caso. Conteúdos vazados de materiais apreendidos indicam trocas de mensagens com o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e com o senador Ciro Nogueira (PP-PI). Ambos negam qualquer envolvimento ilegal ou favorecimento ao banqueiro.
Os arquivos também mostram negociações com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, para viabilizar recursos para um filme em homenagem ao ex-presidente Jair Bolsonaro. O parlamentar admite que o Banco Master financia a obra, mas afirma que a operação é regular e sustenta que não oferece contrapartidas políticas ou econômicas.
As suspeitas de fraudes bilionárias e a liquidação do Master pressionam a confiança de investidores médios e grandes empresas no sistema bancário nacional. Mesmo em um ambiente regulado, o colapso de uma instituição relevante alimenta a percepção de que mecanismos de controle falham em detectar cedo esquemas sofisticados de desvio e lavagem. O caso reabre o debate sobre a capacidade de supervisão do Banco Central e sobre o grau de transparência de operações estruturadas em crédito corporativo.
Na esfera penal, a tentativa de delação expõe fricções entre órgãos de investigação. A criminalista Camila Bouza lembra que a colaboração premiada só faz sentido quando traz elementos concretos para desmontar a organização. “A delação é um meio de obtenção de provas. Tem que trazer informações que, corroboradas com outros elementos, vão te levar a desmontar a quadrilha ou trazer mais pessoas para o banco dos réus”, afirma. “Provavelmente, o que ele trouxe, a Polícia Federal, que já está com uma quantidade imensa de informações, entendeu que não vale a pena dar benefícios a ele.”
A avaliação da devolução de valores é ponto central. Segundo o jornal Folha de S.Paulo, investigadores se mostram insatisfeitos com o montante que Vorcaro se dispõe a entregar. O professor da USP Vinicius Vasconcellos, autor do livro “Colaboração Premiada no Processo Penal”, explica que acordos desse tipo, em casos de grande corrupção e fraudes financeiras, costumam envolver cifras altas, justamente porque o dinheiro bloqueado pela Justiça ou pela cooperação internacional demora anos para retornar aos cofres públicos.
Delação unilateral, STF e uma disputa de bastidor
Se a PGR também rejeitar o acordo, resta ao banqueiro uma saída mais arriscada: a chamada delação unilateral. Nesse modelo, o acusado decide colaborar por conta própria, sem contrato formal, entregando documentos, indicando contas no exterior, relatando a participação de outros suspeitos e apontando rotas de retorno de capital. Ele aposta que, no fim do processo, o juiz leve esse esforço em conta ao calcular a pena.
Vasconcellos lembra que o Supremo Tribunal Federal já admite, em diversos julgados, que benefícios sejam concedidos mesmo sem acordo assinado. “Teoricamente, o que o STF já disse várias vezes é que, mesmo sem acordo formalizado, o juiz pode dar o benefício no momento da sentença. Só que é muito arriscado porque ele não tem segurança quanto aos benefícios que vai ganhar”, afirma. “Então, o que tem de saída é investir em um acordo com a PGR mesmo ou assumir uma situação de risco muito grande.”
Por ora, Vorcaro é alvo de inquérito policial. O Ministério Público ainda não oferece denúncia à Justiça, e o caso não se torna ação penal. Eventual acordo firmado com a PGR precisa ser homologado pelo STF para ter validade. O relator, ministro André Mendonça, acompanha de perto as tratativas e será responsável por chancelar ou recusar os termos negociados.
A possibilidade de a PGR aceitar condições semelhantes às rejeitadas pela PF preocupa parte da comunidade jurídica. “Me preocupa muito essa questão de a Procuradoria aceitar um acordo, em termos ali muito parecidos ao rejeitado pela PF, que não vão auxiliar em nada a investigação. Se a PGR aceitar, como é que vai ficar a relação institucional entre a Polícia Federal e a Procuradoria?”, questiona Bouza.
O desenlace da negociação pode redefinir o alcance da investigação sobre as fraudes do Banco Master e o padrão de colaboração em casos de grande repercussão econômica. Se a PGR enxergar valor no que Vorcaro oferece, o acordo tende a destravar novas linhas de apuração, envolver mais executivos e pressionar autoridades citadas nos materiais já apreendidos. Se as portas se fecharem, o banqueiro terá de decidir se se lança sozinho na delação unilateral ou se enfrenta o processo integralmente, sem garantias de redução de pena.
Enquanto a PGR avalia o material, o mercado financeiro, o meio político e o próprio sistema de Justiça aguardam uma definição que pode servir de baliza para futuras delações em casos de fraudes bilionárias. A pergunta que permanece aberta é se, neste caso, a promessa de colaboração será suficiente para compensar o estrago provocado pelo colapso do Banco Master.
