Ultimas

Adolescente de 15 anos é internado após mistura de álcool e remédios em escola de Fortaleza

Um adolescente de 15 anos é internado em estado grave na UTI após beber uma mistura de gin com medicamentos no Colégio Antares, no bairro Papicu, em Fortaleza, nesta quinta-feira, 21 de maio de 2026. A bebida caseira, preparada dentro da escola, segue a lógica do chamado “Purple Drunk”, combinação de álcool com remédios de efeito sedativo que circula como desafio em redes sociais.

Mistura preparada em sala e evolução rápida do quadro

O estudante ingere um líquido à base de gin e diferentes comprimidos diluídos ainda no turno de aula. Colegas percebem que algo está errado poucos minutos depois, quando ele começa a apresentar desorientação, vômitos, tremores e mudanças bruscas de comportamento. Funcionários acionam socorro médico e a Polícia Militar do Ceará.

O adolescente chega ao hospital com quadro considerado grave e é encaminhado diretamente para a Unidade de Terapia Intensiva. Segundo o clínico geral Bruno Cavalcante, responsável pelo primeiro atendimento, o que chama mais atenção é a velocidade da deterioração.

“O que mais impressiona é a velocidade. Em menos de uma hora após a ingestão, o paciente já está desorientado, com fala arrastada e incapaz de sustentar o próprio raciocínio. Isso não é alguém que apenas bebeu demais. É um sistema nervoso central sendo atacado por várias frentes ao mesmo tempo”, afirma.

O médico explica que a mistura envolve álcool e medicamentos anti-histamínicos, usados em geral para tratar alergias. Um dos princípios ativos mais citados em receitas de “Purple Drunk” é a prometazina, presente em remédios vendidos com receita, mas com circulação comum em casas e farmácias.

“O álcool já é um depressor do sistema nervoso central. A prometazina também é. Quando você combina os dois, o efeito não é uma soma, é uma multiplicação”, resume. Em adolescentes de 14, 15 ou 16 anos, sem qualquer tolerância a essas substâncias, a chance de intoxicação severa é alta, mesmo com poucas doses.

Desafio de redes, banalização de remédios e alerta às famílias

O caso coloca o Colégio Antares e outras escolas particulares de Fortaleza diante de um problema que não aparece nos livros de orientação tradicionais. Entre alunos, o “Purple Drunk” circula como brincadeira ou prova de coragem, muitas vezes com receitas compartilhadas em grupos de WhatsApp, Instagram e TikTok.

Para o médico, a sensação de segurança vem do fato de os ingredientes estarem ao alcance de qualquer família. “O jovem pode não perceber que está se expondo a uma droga. Ele sente que está tomando ‘remédio de alergia’. E remédio de alergia está na farmácia, está na bolsa da mãe, está no armário de casa”, diz.

Ele afirma que o perigo maior é a banalização dos comprimidos. “Dose, contexto e combinação mudam tudo. Um medicamento prescrito por um médico é uma coisa. Vários comprimidos misturados com álcool dentro de um adolescente de 15 anos é outra completamente diferente.”

Profissionais que acompanham o caso avaliam que o episódio expõe uma fissura na forma como famílias e escolas conversam sobre drogas e risco. Campanhas de prevenção ainda focam em maconha, cocaína e bebidas alcoólicas tradicionais, enquanto substâncias de uso médico se tornam alvo de experimentação entre adolescentes conectados 24 horas por dia.

“As escolas ainda trabalham com o repertório de prevenção do século passado. Enquanto isso, adolescentes estão combinando remédios de farmácia com gin e compartilhando receitas no WhatsApp”, afirma Cavalcante. Ele defende que protocolos de segurança sejam atualizados para incluir o controle de entrada de bebidas e o monitoramento de medicamentos em mochilas e armários.

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará informa que equipes da Polícia Militar são acionadas para atender à ocorrência na unidade do Antares, no Papicu. Pessoas que estavam no local são levadas à Delegacia da Criança e do Adolescente, que passa a acompanhar o caso. A escola diz que identifica a situação, chama as famílias envolvidas, garante o atendimento médico do aluno e registra boletim de ocorrência, além de se comprometer a colaborar com a investigação.

Riscos de morte, investigações e mudança de protocolo

O adolescente apresenta evolução positiva após o atendimento e permanece sob observação intensiva. O quadro, porém, é um lembrete de que a combinação de álcool e remédios pode matar em poucas horas. Segundo Cavalcante, sinais como sonolência extrema, dificuldade para acordar, respiração lenta ou irregular, vômitos persistentes e coloração azulada nos lábios e dedos indicam risco real de morte.

“O sinal mais traiçoeiro é a sonolência progressiva que parece ‘só estar dormindo’. Muitos casos fatais acontecem porque alguém acha que o jovem está apenas de ressaca e não vai verificar”, alerta. Ele recomenda que pais fiquem atentos ao sumiço repentino de comprimidos em casa, ao interesse exagerado por remédios e a episódios em que o adolescente parece muito mais alterado do que a quantidade de álcool consumida justificaria.

“Quando o adolescente chega em casa ‘bêbado’ sem ter bebido muito, ou sem cheiro forte de álcool, alguma coisa além do álcool pode estar envolvida”, afirma. Nesses casos, a orientação é procurar atendimento médico imediato e informar com clareza o que pode ter sido ingerido, mesmo que isso envolva admitir uso de remédios de prescrição controlada.

As forças de segurança tratam o episódio como ponto de partida para mapear a disseminação do “Purple Drunk” em escolas de Fortaleza e da Região Metropolitana. A Delegacia da Criança e do Adolescente busca identificar quem leva os remédios, como a bebida circula entre estudantes e se há adultos envolvidos na compra ou repasse das substâncias.

Autoridades sanitárias defendem que o caso funcione como gatilho para políticas públicas de prevenção mais específicas. Isso inclui campanhas voltadas a alunos do ensino fundamental e médio, treinamento de professores para reconhecer sinais precoces de intoxicação e orientações formais a pais sobre armazenamento seguro de remédios em casa.

A direção do Antares estuda reforçar ações educativas já neste semestre, com palestras, rodas de conversa e revisão de regras internas sobre o porte de bebidas e medicamentos no ambiente escolar. Outras escolas privadas de Fortaleza começam a discutir medidas semelhantes de forma reservada.

O episódio no Papicu transforma um desafio que parecia restrito às telas em urgência concreta para salas de aula, consultórios e lares. A velocidade da intoxicação do jovem mostra que a fronteira entre uma “brincadeira” de internet e uma internação em UTI pode caber em menos de 60 minutos. A resposta de famílias, escolas e autoridades nos próximos meses indica se o “Purple Drunk” será contido como alerta isolado ou se vai se consolidar como mais um capítulo da crise de uso indevido de substâncias entre adolescentes.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *