Atriz de ‘Fleabag’ compra apartamento em Londres para oferecer moradia gratuita a escritores
Phoebe Waller-Bridge disponibilizou imóvel sem cobrança de aluguel para novos talentos de origem menos privilegiada; iniciativa busca reduzir as barreiras financeiras no teatro britânico.
A atriz e roteirista Phoebe Waller-Bridge, criadora e protagonista da premiada série “Fleabag”, comprou um apartamento em Londres para oferecer moradia gratuita a escritores que estão começando suas carreiras. A iniciativa busca ajudar profissionais de origem menos privilegiada a conquistar espaço no mercado artístico britânico, onde o alto custo de vida pode impedir novos talentos de aproveitar oportunidades de trabalho.
Aos 41 anos, a artista decidiu apoiar o Writers’ Block, projeto que oferece hospedagem gratuita ou a preços reduzidos para dramaturgos em início de carreira. No imóvel adquirido por Phoebe, os beneficiados não precisarão pagar aluguel e ficarão responsáveis apenas pelas contas domésticas. A atriz também fez uma contribuição financeira à iniciativa, cujo valor não foi divulgado. O apartamento já está reservado para receber escritores até 2030.
Leia também: Turista posta foto no Facebook e acaba revelando pegadas de dinossauro de 120 milhões de anos

O gesto chama atenção porque enfrenta uma das principais dificuldades de quem tenta construir uma carreira no teatro: conseguir permanecer em Londres sem comprometer praticamente toda a renda com moradia. A capital britânica concentra oportunidades importantes de trabalho, mas os custos com aluguel e hospedagem podem afastar profissionais que não possuem apoio financeiro familiar.
Como funciona o apartamento gratuito oferecido pela criadora de Fleabag?
O apartamento adquirido por Phoebe Waller-Bridge foi comprado especificamente para ajudar escritores iniciantes e integra o Writers’ Block, uma iniciativa criada para reduzir as desigualdades de acesso ao mercado teatral britânico.
A proposta é permitir que dramaturgos de origem menos privilegiada tenham um lugar para morar enquanto participam de reuniões, ensaios, apresentações e outras atividades necessárias ao desenvolvimento de suas carreiras.

No imóvel de Phoebe, não haverá cobrança de aluguel. Os moradores precisarão arcar apenas com despesas domésticas, como energia e demais serviços utilizados durante a estadia.
A iniciativa também possui uma rede de outras acomodações disponibilizadas por proprietários interessados em apoiar artistas.
Nesses imóveis, os valores são limitados a 30 libras por noite ou 500 libras por mês, aproximadamente R$ 210 e R$ 3,5 mil, respectivamente, considerando uma conversão aproximada.
O apartamento da atriz é uma exceção dentro do programa, justamente por oferecer a moradia sem cobrança de aluguel.
A duração das estadias varia de acordo com a disponibilidade dos imóveis e as necessidades profissionais dos escritores.
O projeto ainda não divulgou todos os critérios específicos de seleção para o apartamento adquirido por Phoebe Waller-Bridge.
Projeto já conseguiu moradia para 12 escritores
O Writers’ Block foi criado por Sofie Mason e Diana Jervis-Read, profissionais ligadas ao setor teatral britânico, em parceria com o Omnibus Theatre, localizado no bairro de Clapham, em Londres.
A iniciativa nasceu a partir da experiência das organizadoras com o Adopt a Playwright Award, programa criado em 2008 para apoiar dramaturgos de origem menos privilegiada.
Ao longo dos anos, o projeto anterior ajudou 55 escritores, oferecendo recursos e oportunidades para o desenvolvimento de suas carreiras.
Entretanto, as organizadoras identificaram um problema: parte significativa do dinheiro recebido pelos artistas acabava sendo utilizada para pagar aluguel e hospedagem em Londres.

Na prática, isso significava que recursos destinados à criação de peças e ao desenvolvimento profissional eram consumidos pelas despesas básicas de sobrevivência.
Foi a partir dessa realidade que surgiu a ideia de conectar escritores a proprietários dispostos a oferecer quartos e imóveis por valores mais acessíveis.
Durante a fase piloto, 15 imóveis passaram a integrar a rede do Writers’ Block, permitindo que 12 escritores encontrassem hospedagem na capital britânica.
O projeto também busca ampliar a participação de proprietários que tenham quartos disponíveis e desejem contribuir para o desenvolvimento de novos talentos.
Apenas 16% dos profissionais da indústria criativa vêm da classe trabalhadora
A iniciativa apoiada por Phoebe Waller-Bridge também coloca em evidência um problema mais amplo: a desigualdade social no acesso às profissões artísticas.
Segundo uma pesquisa citada pelos organizadores, realizada pelo Sutton Trust e pelo Creative Industries Policy and Evidence Centre, apenas 16% dos profissionais das indústrias criativas britânicas vêm de famílias da classe trabalhadora.
O dado revela a baixa participação de pessoas de origem socioeconômica menos favorecida em um setor que depende de oportunidades, formação, contatos profissionais e disponibilidade financeira.
Para jovens escritores, o problema pode começar antes mesmo de conseguirem apresentar o primeiro roteiro a uma produtora ou companhia teatral.
Sem recursos para morar em Londres, muitos acabam impossibilitados de comparecer a reuniões, participar de ensaios ou estabelecer contatos com profissionais influentes da indústria.
A proposta do Writers’ Block é justamente reduzir essa barreira financeira, permitindo que novos talentos tenham condições de permanecer na cidade durante períodos importantes de suas carreiras.
O projeto também oferece alternativas para que escritores possam dedicar mais tempo à criação, sem precisar direcionar praticamente todos os seus esforços ao pagamento de despesas com moradia.
Criador de Adolescência também apoia a iniciativa
Phoebe Waller-Bridge não é a única personalidade conhecida do entretenimento britânico que decidiu apoiar o Writers’ Block.
O roteirista Jack Thorne, um dos criadores da série “Adolescência”, também contribui financeiramente para o projeto.
Responsável por trabalhos como “Enola Holmes”, “Extraordinário” e a peça “Harry Potter e a Criança Amaldiçoada”, Thorne compartilhou uma experiência pessoal para explicar por que considera a iniciativa importante.
Quando estava começando sua carreira, o roteirista contou com a ajuda do irmão, que permitiu que ele morasse em sua casa, na região de Croydon, durante cinco anos.
Segundo Thorne, essa oportunidade foi importante para que pudesse continuar desenvolvendo seu trabalho.
O escritor destacou que a necessidade de garantir um lugar para morar pode tornar praticamente impossível a dedicação à escrita, principalmente para profissionais que não possuem recursos financeiros ou apoio familiar.
Entre os outros apoiadores estão James Graham, Sally Wainwright, Peter Morgan e Martin McDonagh, companheiro de Phoebe Waller-Bridge.
McDonagh é conhecido por dirigir filmes como “Os Banshees de Inisherin” e “Três Anúncios para um Crime”.
Já Peter Morgan ganhou destaque como criador de “The Crown”, enquanto Sally Wainwright é responsável por produções como “Happy Valley”.
A participação desses nomes amplia a visibilidade do projeto e reforça a discussão sobre a necessidade de criar oportunidades para profissionais de diferentes origens sociais.
Quem é Phoebe Waller-Bridge, criadora da série Fleabag?
Nascida em Londres, em 1985, Phoebe Waller-Bridge conquistou reconhecimento internacional ao criar, escrever e protagonizar “Fleabag”, série britânica lançada em 2016.
A produção acompanha uma mulher que enfrenta conflitos familiares, relacionamentos complicados, luto e dificuldades emocionais, utilizando humor ácido e conversas diretamente com o público.
A maneira como a personagem rompe a chamada quarta parede, olhando para a câmera e compartilhando seus pensamentos com os espectadores, tornou-se uma das principais características da obra.
Com apenas duas temporadas, “Fleabag” se consolidou como uma das comédias mais reconhecidas da televisão contemporânea.
Em 2019, a série conquistou importantes prêmios no Emmy, incluindo Melhor Série de Comédia, Melhor Atriz em Série de Comédia e Melhor Roteiro de Comédia.
O reconhecimento também aparece em levantamentos recentes sobre as produções mais influentes da televisão.
Conforme mostrou o NC News em reportagem sobre uma votação realizada com 516 profissionais da indústria televisiva, “Fleabag” foi escolhida como a quinta melhor série do século 21, ficando atrás de “Breaking Bad”, “The Wire”, “Mad Men” e “Succession”.
A série também foi destacada em uma reportagem do NC News sobre as dez produções que ajudaram a transformar a televisão neste século.
Além de seu trabalho como criadora e protagonista, Phoebe participou do desenvolvimento da primeira temporada de “Killing Eve”, outra produção que recebeu reconhecimento internacional.
No cinema, atuou em “Indiana Jones e a Relíquia do Destino”, lançado em 2023, e colaborou com o roteiro do filme “007 – Sem Tempo para Morrer”.
Fleabag também revelou Andrew Scott para um público ainda maior
O sucesso da série também ampliou o reconhecimento internacional de outros integrantes do elenco, como o ator irlandês Andrew Scott, que interpretou o personagem conhecido pelos fãs como Padre Gato.
Sua participação na segunda temporada se tornou um dos elementos mais comentados da produção, especialmente pela relação desenvolvida com a protagonista.
Scott continuou expandindo sua carreira em diferentes projetos e atualmente aparece nas discussões sobre a temporada de premiações do cinema.
Em outubro, o NC News mostrou que Andrew Scott poderá disputar duas indicações ao Oscar 2027, após uma mudança no regulamento da Academia.
A possibilidade envolve suas atuações nos filmes “Pressão” e “Elsinore”, embora as indicações ainda não estejam confirmadas.
O reconhecimento de “Fleabag” e de seus profissionais ajuda a explicar a importância de Phoebe Waller-Bridge no mercado audiovisual e o alcance de sua participação em iniciativas destinadas a novos artistas.
Moradia gratuita pode abrir portas para uma nova geração de escritores
Com o apoio de Phoebe Waller-Bridge e de outros profissionais da indústria, o Writers’ Block pretende ampliar o acesso de novos dramaturgos às oportunidades oferecidas pelo mercado teatral de Londres.
A proposta não se limita à oferta de um lugar para dormir. Ao reduzir os custos de hospedagem, o projeto busca permitir que escritores tenham mais tempo e recursos para desenvolver histórias, participar de reuniões e construir contatos profissionais.
O apartamento disponibilizado pela criadora de “Fleabag” representa uma contribuição importante porque oferece uma alternativa de moradia sem cobrança de aluguel.
Além disso, o projeto poderá ampliar sua rede de participantes por meio da colaboração de outros proprietários interessados em disponibilizar quartos ou imóveis a preços reduzidos.
A iniciativa já beneficiou 12 escritores por meio da rede de hospedagens e conta com 15 imóveis cadastrados, números que demonstram os primeiros resultados da proposta.
A expectativa dos organizadores é que o programa continue crescendo e ajude a diminuir as barreiras econômicas que afastam novos talentos do teatro britânico.
Com o apartamento reservado até 2030, Phoebe Waller-Bridge pretende oferecer a futuros escritores uma oportunidade que muitos artistas não tiveram no início de suas carreiras: tempo e estabilidade para desenvolver suas próprias histórias.


