Crise bancária pode levar ao impeachment de Santiago Peña no Paraguai; entenda o caso
Colapso do Ueno Bank bloqueou contas, provocou prisões e derrubou o chefe do Banco Central; Santiago Peña é acusado pela oposição de conflito de interesses.

O Congresso do Paraguai iniciou, nesta quinta-feira (5), a discussão de um pedido de impeachment contra o presidente Santiago Peña, após o colapso do Ueno Bank, um dos maiores bancos digitais do país. A crise deixou milhares de pessoas sem acesso ao próprio dinheiro, provocou protestos e levou à renúncia do presidente do Banco Central paraguaio. A oposição acusa o chefe do Executivo de envolvimento em possíveis irregularidades relacionadas à instituição financeira.
O pedido foi apresentado por 35 deputados e também envolve o vice-presidente Pedro Alliana. Os parlamentares questionam a relação de Peña com o grupo empresarial que controlava o banco, do qual ele foi acionista até março de 2025. Entre as acusações estão conflito de interesses, suposta manipulação regulatória e possível utilização irregular de recursos previdenciários. As alegações ainda dependem de investigação e análise pelas autoridades competentes.
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O Ueno Bank possuía aproximadamente 3 milhões de clientes e administrava cerca de US$ 850 milhões em depósitos públicos, incluindo recursos do sistema previdenciário. A suspensão das operações bancárias afetou trabalhadores, aposentados e empresas que dependiam da instituição para movimentar dinheiro.
Crise do Ueno Bank derruba chefe do BC e trava saques no Paraguai
O que aconteceu com o Ueno Bank?
A crise começou após o Banco Central do Paraguai identificar problemas graves na situação financeira do Ueno Bank, controlado pelo Grupo Vázquez. A instituição apresentava um índice de solvência inferior à metade do mínimo exigido pela regulamentação bancária.
A solvência representa a capacidade de um banco de manter capital suficiente para absorver prejuízos e cumprir suas obrigações financeiras. Quando esse indicador cai abaixo dos limites estabelecidos, aumentam os riscos para os clientes e para a continuidade das operações.
As autoridades também investigam empréstimos concedidos a empresas ligadas ao próprio grupo controlador do banco, operação que pode representar conflito de interesses e concentração excessiva de riscos.
Na terça-feira (3), o Banco Central iniciou o processo de resolução da instituição, suspendendo saques, transferências e outras movimentações financeiras.
A decisão provocou filas em agências bancárias e manifestações de correntistas preocupados com a possibilidade de perder suas economias.
Qual é a relação do presidente Santiago Peña com o banco?
Santiago Peña, que assumiu a Presidência do Paraguai em 2023, foi acionista do grupo proprietário do Ueno Bank até março de 2025.
Essa ligação passou a ser questionada após a descoberta dos problemas financeiros da instituição, especialmente porque parte dos depósitos era composta por recursos públicos.
A oposição sustenta que o governo pode ter favorecido o banco por meio de decisões regulatórias e da concentração de recursos estatais na instituição.
Os deputados também levantaram suspeitas sobre possíveis irregularidades na fiscalização exercida pelo Banco Central e sobre a destinação de dinheiro vinculado ao sistema previdenciário.
As acusações, no entanto, não representam comprovação de participação do presidente nas irregularidades investigadas.
Peña afirmou que os responsáveis pelos problemas identificados no banco deverão responder perante a Justiça, independentemente dos cargos ocupados.
“Peço veementemente a todos os setores políticos que coloquem o interesse dos poupadores acima de qualquer outro interesse.”
Crise derrubou presidente do Banco Central e provocou prisões
O escândalo já provocou consequências no sistema financeiro paraguaio.
O presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, deixou o cargo após um pedido de renúncia feito por Santiago Peña. Carvallo também havia ocupado uma posição de direção no Ueno Bank antes de assumir o comando da autoridade monetária.
Parlamentares questionavam a atuação do Banco Central na fiscalização da instituição e a capacidade dos órgãos reguladores de identificar antecipadamente os problemas financeiros.
As investigações também avançaram sobre os dirigentes do banco.
O Ministério Público apresentou acusações contra 27 pessoas relacionadas à instituição e determinou a prisão de oito executivos, incluindo integrantes da alta administração.
A Justiça ordenou o bloqueio de bens dos investigados enquanto as autoridades apuram possíveis crimes financeiros e irregularidades na gestão dos recursos.
O que acontece com o dinheiro dos 3 milhões de clientes?
Uma das maiores preocupações da população paraguaia é a recuperação dos valores depositados no Ueno Bank.
A instituição concentrava as contas de aproximadamente 3 milhões de pessoas, número equivalente a uma parcela expressiva da população do país.
Entre os clientes afetados estão trabalhadores que utilizavam o banco para receber salários, aposentados e pequenos empresários que dependiam dos serviços digitais para realizar pagamentos.
O Paraguai possui um Fundo de Garantia de Depósitos destinado a proteger os correntistas em situações de crise bancária.
A cobertura legal chega a aproximadamente 228,3 milhões de guaranis por depositante, valor equivalente a cerca de US$ 38 mil.
Esse limite, porém, não significa que todos os clientes poderão recuperar imediatamente seus recursos.
Para acelerar a devolução do dinheiro, Santiago Peña promulgou uma lei que permite antecipar pagamentos aos correntistas afetados, conforme as condições previstas no mecanismo de garantia.
A recuperação de depósitos acima dos valores protegidos dependerá da situação patrimonial do banco e dos procedimentos conduzidos pelas autoridades.
Como funciona o impeachment no Paraguai?
O processo de impeachment paraguaio exige a participação das duas casas do Congresso Nacional.
A Câmara dos Deputados é responsável por analisar a acusação e decidir se existem condições para encaminhar o processo ao Senado.
Para que o pedido avance, são necessários pelo menos 53 votos favoráveis entre os 80 deputados, número correspondente a dois terços da composição da Casa.
Se a acusação for aprovada, o julgamento será realizado pelo Senado, onde a destituição dependerá do apoio de pelo menos 30 dos 45 parlamentares.
A apresentação do pedido não representa o afastamento automático de Santiago Peña, que permanece no exercício da Presidência.
A crise também provocou divergências dentro do Partido Colorado, legenda do presidente, tornando a posição dos parlamentares governistas decisiva para o andamento da votação.
O Paraguai já enfrentou um processo semelhante em 2012, quando o então presidente Fernando Lugo foi destituído após um julgamento político realizado em menos de dois dias.
Crise bancária também preocupa o Brasil
Os efeitos da intervenção no Ueno Bank ultrapassam a disputa política em Assunção.
A suspensão das operações financeiras preocupa comerciantes de Ciudad del Este, cidade paraguaia que mantém forte relação econômica com Foz do Iguaçu, no Paraná.
Empresas e trabalhadores que dependem de transferências, pagamentos eletrônicos e movimentações bancárias podem enfrentar dificuldades enquanto os serviços permanecerem interrompidos.
O bloqueio de recursos também pode atingir fornecedores brasileiros que mantêm relações comerciais com empresas paraguaias.
Apesar da preocupação, ainda não há confirmação de prejuízos generalizados ao comércio brasileiro decorrentes da intervenção.
A Associação de Bancos do Paraguai informou que outras instituições financeiras estão recebendo clientes que buscam transferir suas contas e afirmou que o sistema bancário nacional continua funcionando normalmente.
Próximos passos
O Congresso paraguaio deverá decidir se o pedido de impeachment reúne os votos necessários para avançar ao Senado. A análise ocorre em meio à pressão de correntistas, investigações criminais e questionamentos sobre a atuação dos órgãos de fiscalização.
Paralelamente, as autoridades financeiras trabalham para organizar a devolução dos depósitos garantidos e identificar o tamanho das perdas provocadas pela crise no Ueno Bank.
O governo sustenta que os problemas estão concentrados na instituição e não representam uma crise generalizada do sistema bancário.
O futuro político de Santiago Peña dependerá das decisões do Congresso, enquanto os desdobramentos judiciais deverão esclarecer as responsabilidades pelas irregularidades investigadas.


