Meta supera R$ 500 milhões em faturamento com publicidade política nas eleições de 2026
Dona do Facebook e Instagram amplia receita com anúncios políticos no Brasil; levantamentos mostram crescimento dos gastos digitais e diferenças entre os valores registrados pelas plataformas e pela Justiça Eleitoral

A Meta, empresa responsável pelo Facebook e Instagram, ultrapassou a marca de R$ 500 milhões em faturamento com publicidade política durante o período eleitoral de 2026 no Brasil, segundo levantamento divulgado pela coluna Capital, do jornal O Globo. O resultado evidencia o peso das redes sociais nas campanhas eleitorais e o crescimento dos investimentos de candidatos e partidos em anúncios digitais.
Os valores movimentados pela empresa incluem publicidade voltada a temas políticos e eleitorais, mas é importante distinguir os gastos registrados na Biblioteca de Anúncios da Meta daqueles declarados oficialmente pelas candidaturas. Um levantamento publicado pela revista Veja em 30 de outubro, com base nas prestações de contas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), identificou mais de R$ 352 milhões em serviços contratados diretamente pelas campanhas.
Leia também: Ameaças de bomba desviam voos e mobilizam forças aéreas em quatro países da Europa
A diferença entre os números está relacionada aos critérios utilizados em cada levantamento. Enquanto a Justiça Eleitoral reúne despesas declaradas por candidatos e partidos, a Biblioteca de Anúncios também contempla publicidade sobre questões sociais e políticas, incluindo anunciantes que não disputam eleições.
PT e Lula gastam mais de R$ 1 milhão em anúncios nas redes sociais antes da campanha
Meta bate recorde de receita com publicidade eleitoral
O crescimento da receita da Meta acompanha uma transformação na maneira como as campanhas políticas tentam alcançar os eleitores. A publicidade em plataformas digitais ganhou espaço no orçamento dos candidatos, permitindo a distribuição de vídeos, propostas e mensagens para públicos específicos.
Segundo o levantamento da Veja, os R$ 352 milhões identificados nas prestações de contas até o fim de outubro representavam um crescimento de aproximadamente 75% em relação às eleições municipais de 2024, quando a empresa recebeu cerca de R$ 201 milhões.
O valor declarado em 2026 também se aproximava da soma arrecadada pela companhia nas quatro eleições anteriores, entre 2016 e 2024, estimada em R$ 392 milhões.
Os números ainda podem sofrer alterações. Candidatos e partidos precisam concluir suas prestações de contas, e despesas realizadas durante a campanha podem aparecer em atualizações posteriores dos sistemas da Justiça Eleitoral.
Facebook e Instagram concentram investimentos das campanhas
O impulsionamento de publicações se consolidou como uma das principais estratégias de comunicação eleitoral. Por meio desse serviço, candidatos e partidos pagam para ampliar o alcance de conteúdos publicados nas redes sociais.
Na prática, os anúncios permitem que mensagens eleitorais sejam exibidas para usuários que não acompanham diretamente os perfis dos candidatos. As campanhas podem definir características do público que pretendem alcançar, respeitando as limitações estabelecidas pela legislação eleitoral e pelas próprias plataformas.
O avanço desse mercado também está relacionado às mudanças adotadas por outras empresas de tecnologia. Desde 2024, o Google deixou de permitir publicidade política e eleitoral em suas plataformas no Brasil, incluindo anúncios no YouTube.
Com isso, Facebook e Instagram permaneceram entre os principais canais disponíveis para o impulsionamento pago de propaganda eleitoral nas redes sociais.
Flávio Bolsonaro e Lula investiram milhões em anúncios
As campanhas presidenciais estiveram entre as responsáveis pelos maiores investimentos em publicidade digital nas eleições de 2026.
Um levantamento publicado pelo jornal O Povo nesta quinta-feira (5), com base na Biblioteca de Anúncios da Meta, identificou R$ 16,8 milhões em impulsionamento de conteúdos relacionados à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), considerando o período de 90 dias analisado.
Na sequência apareceu a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com aproximadamente R$ 13,9 milhões.
Entre os candidatos aos governos estaduais, o levantamento apontou investimentos expressivos de Elmano de Freitas (PT), no Ceará, Raquel Lyra (PSD), em Pernambuco, e Tarcísio de Freitas (PL), em São Paulo.
Os valores demonstram a importância atribuída à comunicação digital pelas campanhas de diferentes partidos. Entretanto, o volume de recursos investidos não determina, isoladamente, o desempenho eleitoral de um candidato.
Gastos com anúncios também foram alvo de questionamentos
O crescimento dos investimentos em publicidade política reacendeu discussões sobre transparência, fiscalização e funcionamento dos sistemas de distribuição de conteúdo nas redes sociais.
Durante as eleições, a Meta foi alvo de questionamentos relacionados ao tratamento dado a publicações políticas e ao funcionamento de seus algoritmos.
A campanha de Lula apresentou reclamações sobre a remoção e a restrição de conteúdos, enquanto pesquisadores identificaram possíveis irregularidades na circulação de anúncios eleitorais.
Um estudo do NetLab, laboratório vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), identificou pelo menos 1.613 anúncios políticos com indícios de irregularidades, pagos no exterior e veiculados no Brasil entre julho e setembro de 2026.
Segundo os pesquisadores, as publicações movimentaram aproximadamente R$ 2 milhões e alcançaram milhões de visualizações.
A Meta informou que identificou anúncios em desacordo com suas políticas e adotou medidas de reclassificação ou remoção. A empresa também negou ter agido deliberadamente para beneficiar ou prejudicar candidaturas.
Diferenças nos números levantam debate sobre transparência
A existência de valores diferentes nos levantamentos sobre publicidade eleitoral não significa, necessariamente, irregularidade.
A Biblioteca de Anúncios da Meta reúne informações sobre anúncios relacionados a eleições, política e temas sociais. Já o TSE disponibiliza as despesas registradas oficialmente nas prestações de contas dos candidatos e partidos.
Além disso, determinados pagamentos podem ocorrer por meio de empresas intermediárias, o que exige cuidado para evitar a soma duplicada de despesas.
Em estudo divulgado em outubro, o NetLab UFRJ também apontou limitações nas informações disponibilizadas pela Meta, especialmente para comparar os preços cobrados de diferentes anunciantes.
Para os pesquisadores, as restrições dificultam a fiscalização independente dos critérios utilizados na comercialização e distribuição da publicidade eleitoral.
O que acontece após as eleições?
Com o encerramento da disputa eleitoral de outubro, a atenção se volta à consolidação das prestações de contas apresentadas à Justiça Eleitoral.
As atualizações devem permitir uma avaliação mais completa das despesas realizadas pelas campanhas e dos valores recebidos pelas empresas que forneceram serviços de publicidade.
O faturamento registrado em 2026 reforça a dimensão econômica da propaganda política nas plataformas digitais. Também amplia o debate sobre a necessidade de transparência na contratação de anúncios, na identificação dos responsáveis pelos pagamentos e no funcionamento das ferramentas utilizadas para alcançar os eleitores.


