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Brasil

Manaus tem água tratada para 99%, mas esgoto atende só 42% da população

Reportagem especial mostra a realidade de famílias que vivem próximas a igarapés, enquanto mais de 112 mil pessoas estão em áreas de risco na capital amazonense.

Manaus tem água tratada para 99%, mas esgoto atende só 42% da população

Manaus, uma cidade cercada por rios e igarapés, enfrenta um contraste no acesso ao saneamento básico. Enquanto mais de 99% da população conta com cobertura de abastecimento de água tratada, o sistema de esgotamento sanitário alcança cerca de 42% dos moradores, segundo dados de 2026 da concessionária Águas de Manaus.

Uma reportagem especial do NC News mostra como essa diferença afeta a vida de famílias que convivem com a poluição dos cursos d’água, a falta de infraestrutura e a dificuldade de acesso a serviços essenciais.

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A equipe de reportagem percorreu comunidades da capital amazonense, registrou moradias construídas sobre palafitas, passarelas de madeira e igarapés que recebem resíduos. Além dos desafios do saneamento, a produção aborda a vulnerabilidade habitacional. Um levantamento do Serviço Geológico do Brasil (SGB), divulgado em agosto de 2025, identificou 112.104 pessoas vivendo em áreas de risco alto e muito alto em Manaus, distribuídas por 438 setores.

Moradores cobram solução para igarapé tomado por lixo e risco de desabamento em Manaus

Palafitas e igarapés mostram os desafios do saneamento em Manaus

Nas regiões próximas aos igarapés, a presença da água faz parte da rotina dos moradores. Entretanto, o crescimento urbano sem infraestrutura suficiente contribuiu para transformar trechos desses cursos d’água em locais de acúmulo de lixo e lançamento de esgoto.

A reportagem do NC News apresenta imagens de comunidades onde as casas são sustentadas por estruturas de madeira e o deslocamento entre as residências depende de passarelas improvisadas.

Sob as moradias, o acúmulo de resíduos revela um problema que vai além da preservação ambiental. A falta de coleta e tratamento adequado de esgoto também representa riscos à saúde e à qualidade de vida.

O contato com água contaminada pode favorecer doenças como diarreia, hepatite A e leptospirose. A situação se torna especialmente preocupante em períodos de chuva, quando o aumento do volume de água pode provocar transbordamentos e levar resíduos para áreas habitadas.

A desigualdade na infraestrutura também evidencia as dificuldades de expansão do saneamento em regiões de ocupação irregular, onde as características do terreno exigem soluções específicas de engenharia.

Mais de 112 mil pessoas vivem em áreas de risco na capital amazonense

A precariedade da infraestrutura urbana se soma à exposição de milhares de famílias a possíveis desastres.

Segundo o levantamento divulgado pelo Serviço Geológico do Brasil em 2025, Manaus possui 438 setores classificados como de risco alto ou muito alto, abrangendo 28.026 domicílios e aproximadamente 112 mil moradores.

Do total, 362 setores apresentam risco alto e outros 76 são considerados de risco muito alto.

Entre os problemas identificados estão deslizamentos, erosões, inundações, alagamentos e enxurradas.

As zonas Norte e Leste concentram a maior quantidade de áreas vulneráveis. Entre os bairros destacados pelo levantamento estão Jorge Teixeira, Cidade Nova, Gilberto Mestrinho, Alvorada, Mauazinho e Nova Cidade.

O pesquisador em geociências Elton Andretta, do SGB, também participa da reportagem especial, contextualizando os desafios relacionados às ocupações e à segurança das moradias.

Ao divulgar o levantamento, o Serviço Geológico destacou a necessidade de priorizar medidas de prevenção, obras estruturais e ações de planejamento urbano.

Os dados também mostram uma mudança importante em relação ao mapeamento anterior. Em 2019, aproximadamente 73 mil pessoas viviam nos setores classificados como de risco. No levantamento de 2025, a estimativa passou para 112 mil.

A comparação, entretanto, exige cautela. O SGB explica que a atualização utilizou metodologias mais precisas, imagens de alta resolução e novos dados populacionais. Por isso, a diferença não representa necessariamente apenas o surgimento de novas ocupações.

Por que Manaus tem água tratada para quase todos, mas esgoto para menos da metade?

A diferença entre os índices de abastecimento e esgotamento sanitário está relacionada à expansão desigual dos dois serviços.

Segundo a concessionária Águas de Manaus, o fornecimento de água tratada passou por avanços nos últimos anos, alcançando praticamente toda a população da capital.

Já a ampliação da rede de esgoto enfrenta desafios adicionais, especialmente nas comunidades construídas às margens dos igarapés e em regiões com terrenos de difícil acesso.

Em 2026, a empresa informou que a cobertura do esgotamento sanitário havia alcançado aproximadamente 42% da população. O indicador representa um avanço em relação aos anos anteriores, mas também mostra que uma parcela expressiva dos moradores ainda não está coberta pelo serviço.

Os dados públicos nacionais ajudam a contextualizar essa evolução. Segundo o Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa), com referência a 2024, o atendimento por esgotamento sanitário era de 32,4% da população de Manaus.

Os percentuais correspondem a períodos e levantamentos diferentes, razão pela qual não devem ser tratados como resultados diretamente equivalentes.

A ausência de coleta de esgoto contribui para o lançamento inadequado de resíduos domésticos em fossas, valas e cursos d’água, agravando a poluição ambiental.

Comunidade da Redenção recebe melhorias no sistema de esgoto

Apesar das dificuldades, iniciativas de saneamento procuram transformar a realidade de comunidades historicamente afastadas da infraestrutura urbana.

Uma das experiências apresentadas na reportagem está relacionada ao trabalho desenvolvido no Beco São Vicente, no bairro Redenção, Zona Centro-Oeste de Manaus.

A comunidade é cortada pelo Igarapé do Gigante e abriga famílias que convivem há anos com desafios relacionados à poluição e às condições de infraestrutura.

Em 2026, a concessionária iniciou a implantação de uma rede de esgoto adaptada às características da região, conhecida como área de rip-rap.

O projeto prevê mais de 1,2 quilômetro de tubulações e uma estação elevatória para transportar o esgoto até a Estação de Tratamento Parque Mosaico.

Segundo a Águas de Manaus, a iniciativa foi planejada para beneficiar mais de 600 moradores da comunidade, com previsão de conclusão do atendimento até o fim de 2026.

O serviço representa uma mudança importante para famílias que, durante décadas, conviveram com a ausência de coleta adequada de esgoto.

Projeto Reusa une moradores e recuperação ambiental

A reportagem também mostra iniciativas comunitárias voltadas à conscientização ambiental e à recuperação dos igarapés.

Entre elas está o Projeto de Restauração Ecológica e Urbanização Sustentável na Amazônia (Reusa), desenvolvido no bairro Redenção.

Criada com participação da Fundação Amazônia Sustentável (FAS) e de parceiros locais, a iniciativa promove ações de educação ambiental, mobilização comunitária e incentivo à sustentabilidade.

O projeto procura fortalecer o envolvimento dos moradores na preservação do Igarapé do Gigante, mostrando que a recuperação ambiental depende tanto de investimentos em infraestrutura quanto da participação da população.

Em relato divulgado pela Águas de Manaus em junho de 2026, a moradora Cristina da Silva destacou a expectativa provocada pela implantação da rede de esgoto na comunidade.

“A chegada do esgoto é a realização de um sonho antigo de quem mora aqui.”

A declaração sintetiza uma mudança importante para as famílias: a possibilidade de viver em um ambiente com menos contaminação, melhores condições sanitárias e mais segurança.

Ampliação da rede de esgoto é prioridade para os próximos anos

Para reduzir a diferença entre o abastecimento de água tratada e o atendimento por esgotamento sanitário, a Águas de Manaus desenvolve o programa Trata Bem Manaus.

A iniciativa prevê obras de ampliação das redes coletoras, construção e modernização de estações de tratamento e instalação de estruturas adaptadas à geografia da cidade.

Segundo o planejamento divulgado pela concessionária, a meta é alcançar aproximadamente 60% de cobertura até 2027 e chegar a 90% da população atendida até 2033, conforme os objetivos de universalização do saneamento básico.

Essas metas ainda dependem da execução das obras e da efetiva conexão dos imóveis ao sistema.

A ampliação da infraestrutura também é considerada importante para reduzir o despejo de esgoto sem tratamento nos igarapés, contribuir para a saúde pública e melhorar as condições ambientais da capital.

Em outra reportagem, o NC News mostrou a evolução histórica do abastecimento de água em Manaus, desde os antigos sistemas de captação até a expansão da distribuição de água tratada.

A diferença entre o passado e o presente demonstra os avanços alcançados, mas também evidencia os desafios que permanecem.

Próximos passos

O futuro do saneamento em Manaus depende da continuidade das obras, do atendimento às comunidades vulneráveis e da integração entre políticas de abastecimento, esgotamento sanitário, habitação, drenagem e preservação ambiental.

A recuperação dos igarapés exige mais do que a retirada de resíduos. É necessário impedir que o esgoto continue chegando aos cursos d’água sem tratamento, melhorar a destinação do lixo e reduzir os riscos enfrentados por famílias que vivem em áreas inadequadas para ocupação.

A situação também se repete em outras regiões do Amazonas. Recentemente, o NC News mostrou a transformação da comunidade do Ubim, em Eirunepé, após 40 anos de espera pelo acesso à água tratada.

O contraste revela a dimensão do desafio amazônico: em uma região marcada pela abundância de recursos hídricos, garantir água segura, coleta e tratamento de esgoto ainda exige investimentos, planejamento e acompanhamento das políticas públicas.

Para os moradores das comunidades visitadas, os avanços não se resumem aos índices de cobertura. Eles se traduzem na possibilidade de viver com mais saúde, segurança e dignidade.

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