MP pede condenação de Renato Cariani com base em troca de mensagens
MP de SP utiliza conversas com policial para fundamentar pedido de condenação contra Renato Cariani.

Mensagens de celular que descrevem troca de favores com um policial civil e a comemoração do arquivamento de um inquérito são a base do pedido de condenação apresentado pelo Ministério Público de São Paulo contra o influenciador Renato Cariani, dono da indústria química Anidrol Produtos para Laboratórios, sediada em Diadema, na Grande São Paulo. Para os promotores, os diálogos mostram atuação para frear uma investigação da Polícia Civil, proteger uma associação criminosa ligada ao fornecimento de insumos ao tráfico de drogas e prejudicar concorrentes.
O que as mensagens do celular de Renato Cariani revelam sobre sua relação com o policial?
As mensagens indicam uma relação de proximidade e troca de informações entre Renato Cariani e o policial civil André Dziuba, descrito pelo MP como servidor vinculado à área de controle e fiscalização de produtos químicos. Nas conversas, Dziuba repassa detalhes de diligências, do andamento de um inquérito e da própria oitiva de Cariani, enquanto o influenciador fornece informações técnicas sobre substâncias e opina sobre fiscalizações.
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Em diálogos citados nas alegações finais, o policial consulta Cariani sobre produtos químicos e operações envolvendo empresas do setor. Em um trecho de 2019, atribuído ao influenciador, ele explica que determinada substância é “controlada pela ANVISA e utilizada para aumentar o rendimento da cocaína”, o que, para o MP, demonstra conhecimento do uso de insumos no refino de drogas.
As mensagens também mostram que o policial buscava ajuda de Cariani em questões pessoais, como o envio de suplementos, e tratava com familiaridade da necessidade de ouvi-lo em um inquérito ligado a operações comerciais com uma farmacêutica. Em uma conversa de 2021, Dziuba afirma que o escrivão precisa ouvir o influenciador, mas completa que isso seria feito “ao seu tempo, não tem pressa”, sugerindo, na visão da Promotoria, um tratamento fora do padrão entre investigado e agente público.
Como as mensagens indicam tentativa de frear a investigação?
Para o Ministério Público, o conteúdo dos diálogos aponta que Cariani acompanhava de perto uma investigação da Polícia Civil que apurava operações da Anidrol e que André Dziuba atuava para reduzir o fôlego das diligências. Em mensagens de 2021 e 2022, o policial relata dificuldades na identificação de veículos que retiraram mercadorias e diz ter elaborado relatórios que “induziram o delegado a não fazer mais nada”, segundo transcrição citada nas alegações finais.
Em outra troca, o policial avisa que o inquérito ainda não foi formalmente encerrado porque restava localizar carros usados nas entregas. Na sequência, afirma que “acha que não vai chegar a lugar algum” e que está “orientando o escrivão”, o que, para a Promotoria, reforça a suspeita de interferência indevida no rumo da apuração.
O ponto mais sensível, segundo o MP, é a participação de Cariani na etapa que antecede o arquivamento formal do inquérito. Em janeiro de 2023, um interlocutor pede ao influenciador o número do procedimento “daquele que precisa ser arquivado”, dizendo precisar da informação para “já arquivar aquilo”. Cariani procura Dziuba, recebe o número do inquérito e a confirmação de que o caso estava encerrado, e repassa os dados em seguida.
Em outra mensagem, quando o policial comunica o desfecho da investigação, os dois comemoram. Dziuba escreve “Acabou, meu. É só tomar uma” e Cariani responde, rindo: “Obrigado, Dezao! Bora tomar uma então?”. Para o MP, essa troca mostra que o arquivamento foi tratado como vitória pelos dois e seria incompatível com a postura de um investigado que se diz alheio às suspeitas.
Entenda o contexto
Renato Cariani é investigado por participação em um esquema de desvio de produtos químicos para o narcotráfico produzir drogas como crack e cocaína. Sua empresa, a Anidrol, foi alvo da Operação Hinsberg, deflagrada em dezembro de 2023, que apontou a simulação de vendas de insumos em 59 ocasiões. Essas operações teriam envolvido, entre outros, negócios em nome de uma grande farmacêutica, que nega ter feito as compras.
O inquérito da Polícia Civil citado nas mensagens tramitou na 2ª Vara Criminal de Diadema e foi arquivado em 19 de janeiro de 2023. Segundo o MP, o promotor que atuou naquele procedimento não tinha acesso às conversas posteriormente extraídas do celular de Cariani. Agora, essas mensagens integram as alegações finais do Ministério Público no processo em curso na mesma vara criminal.
Papel do MP e pedidos de condenação
Nas alegações finais apresentadas nesta semana, o Ministério Público de São Paulo pede que Renato Cariani seja condenado por associação para o tráfico, tráfico de matéria-prima destinada à fabricação de drogas e lavagem de dinheiro. A Promotoria classifica a análise do celular do influenciador como prova de “especial relevância” para demonstrar uma atuação contínua dele na proteção de uma associação voltada ao fornecimento de insumos químicos ao tráfico.
Além de Cariani, o MP pede a condenação de Fábio Spinola Mota e Rodrigo Gomes Pereira pelos mesmos crimes. Em relação a Roseli Dorth e Andreia Domingues Ferreira, a Promotoria solicita a absolvição por entender que não há elementos suficientes para condená-las.
Caso a Justiça acolha integralmente o pedido, a pena de Cariani pode chegar a várias décadas de reclusão em regime fechado, somando as faixas previstas para os três crimes. Ele responde ao processo em liberdade e aguarda sentença da 2ª Vara Criminal de Diadema.
Defesa nega irregularidades e fala em “quadrilha”
A defesa de Renato Cariani afirma que o pedido de condenação “não representa nenhuma surpresa” e diz que vai demonstrar, com base nas provas colhidas na fase de instrução, que as teses da acusação são improcedentes. Em manifestação pública, o influenciador declarou que “minha empresa foi vítima de uma quadrilha”, sustentando que a Anidrol teria sido usada por terceiros para práticas ilícitas.
Os advogados argumentam que o contato com o policial André Dziuba se deu no contexto de consultas técnicas e rotinas de fiscalização, não para interferir em investigações. A estratégia da defesa nas próximas etapas será tentar desqualificar o peso das mensagens como prova de conluio e reforçar a tese de que não houve participação consciente de Cariani em esquema de desvio de insumos químicos para o tráfico.
Com as alegações finais já protocoladas pelo Ministério Público, o processo entra na fase decisiva. Caberá agora ao juiz da 2ª Vara Criminal de Diadema analisar as provas, incluindo as conversas de celular, os relatórios da Operação Hinsberg e os depoimentos colhidos em audiência, antes de proferir a sentença que pode se tornar referência para o uso de mensagens digitais em casos de corrupção policial e desvio de produtos controlados.


