Estudantes derrubam hegemonia de Vučić na Sérvia após onda histórica de protestos
Movimento impulsionado por manifestações contra a corrupção vence eleições legislativas, encerra domínio do partido governista e abre uma nova fase de incerteza política no país.

O movimento estudantil que ganhou força após a tragédia na estação ferroviária de Novi Sad conquistou uma vitória histórica nas eleições legislativas antecipadas da Sérvia, realizadas neste domingo (25). A chamada Lista dos Estudantes superou a aliança ligada ao então presidente Aleksandar Vučić e colocou fim à hegemonia parlamentar do Partido Progressista Sérvio (SNS), que dominava a política nacional havia mais de uma década.
Com a apuração avançada, os dados divulgados pela Comissão Eleitoral sérvia indicavam 52,65% dos votos para a lista estudantil, ante 39,22% para a aliança “Aleksandar Vučić – Sérvia Unida”. A participação eleitoral chegou a 68,78%, em um dos maiores índices registrados no país em mais de 30 anos. O resultado representa uma derrota expressiva para o grupo governista e transforma a mobilização das ruas em força parlamentar.
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Movimento estudantil conquista vitória histórica na Sérvia
A derrota foi reconhecida por Vučić na noite de domingo, quando ele se pronunciou na sede do SNS, em Belgrado. O político afirmou que a avaliação baseada em uma amostra dos resultados indicava a vitória dos adversários. A declaração ocorreu antes da conclusão de toda a apuração oficial.
“Está claro que perdemos estas eleições”, afirmou Vučić ao reconhecer a vitória da Lista dos Estudantes.
Nas ruas da capital, apoiadores do movimento se reuniram para comemorar o resultado, com buzinas, sinalizadores e manifestações que avançaram pela madrugada. A vitória foi o desfecho de uma mobilização que começou nas universidades e, gradualmente, atraiu professores, profissionais liberais, ativistas e diferentes setores da sociedade civil.
A Lista dos Estudantes não surgiu como um partido tradicional com uma liderança única e consolidada. O grupo reuniu candidatos de diferentes trajetórias e áreas de atuação em torno de uma pauta comum: combater a corrupção, exigir responsabilização das autoridades e promover mudanças nas instituições públicas.
Participação elevada e fiscalização cidadã
A participação de 68,78% reforçou a dimensão política da disputa. O comparecimento às urnas foi acompanhado por iniciativas de fiscalização organizadas por voluntários ligados ao movimento estudantil, que buscaram monitorar a votação em diferentes localidades do país.
A eleição ocorreu em um ambiente de desconfiança. Organizações da sociedade civil vinham denunciando problemas relacionados ao uso da máquina pública, ao acesso desigual à exposição política e às condições de competição eleitoral. A participação de observadores e voluntários tornou-se, nesse contexto, uma das ferramentas usadas para acompanhar o processo.
Apesar da vitória, os resultados e eventuais denúncias de irregularidades devem ser avaliados com base nos dados oficiais e nas apurações das autoridades competentes. O alto comparecimento, por si só, não comprova a regularidade de todos os procedimentos eleitorais, mas demonstra a mobilização expressiva dos eleitores.
Tragédia em Novi Sad desencadeou os protestos
A origem da mobilização remonta a novembro de 2024, quando o desabamento de uma cobertura na estação ferroviária de Novi Sad, segunda maior cidade sérvia, matou 16 pessoas. A tragédia provocou indignação nacional e levou manifestantes a cobrar explicações sobre a obra, a fiscalização pública e possíveis falhas institucionais.
Com o passar dos meses, os atos ultrapassaram a exigência de responsabilização pelo acidente e passaram a representar uma contestação mais ampla ao governo. Estudantes organizaram bloqueios e manifestações, enquanto apoiadores de diferentes setores sociais aderiram às mobilizações contra a corrupção e a concentração de poder.
O movimento se tornou um dos maiores desafios políticos enfrentados por Vučić desde que ele passou a ocupar posições centrais no governo sérvio. A pressão das ruas contribuiu para a convocação de eleições antecipadas, transformando a disputa parlamentar em um teste decisivo para a continuidade do grupo governista.
Vučić tentou manter influência sobre o governo
Antes da votação, Vučić deixou a Presidência para participar diretamente da disputa parlamentar e liderar a lista apoiada por seu campo político. A estratégia buscava preservar sua influência no poder, mesmo diante da pressão crescente das manifestações e da perda de apoio entre parte do eleitorado.
A derrota, porém, enfraquece a capacidade do SNS de controlar o Parlamento e marca uma mudança importante na trajetória política do país. Embora Vučić tenha reconhecido o resultado, o peso de sua rede partidária e sua presença na vida pública sérvia indicam que ele continuará sendo uma figura relevante na oposição.
Novo bloco terá de transformar protestos em governo
A vitória eleitoral não elimina os desafios do movimento estudantil. A coalizão reúne perfis variados e ainda precisa demonstrar capacidade de coordenação, definir prioridades e construir uma estrutura de governo que responda às expectativas criadas durante os protestos.
Entre as principais demandas estão o combate à corrupção, a transparência na administração pública, o fortalecimento dos mecanismos de fiscalização e a responsabilização por falhas institucionais. A capacidade de avançar nessas áreas será determinante para manter o apoio de uma população que transformou a indignação em participação política.
Outro desafio será acomodar diferenças internas. A diversidade de candidatos e apoiadores ampliou o alcance eleitoral da lista, mas também pode dificultar a construção de consensos sobre políticas econômicas, sociais e institucionais. O novo bloco precisará demonstrar que consegue atuar de forma organizada para além da oposição ao antigo governo.
Resultado pode influenciar o futuro político da região
A mudança na Sérvia também terá repercussões internacionais. Durante seu período no poder, Vučić procurou manter relações com a União Europeia, a Rússia e os Estados Unidos, tentando equilibrar interesses distintos. A nova composição parlamentar terá de definir como pretende conduzir essas relações, em meio às expectativas internas por reformas.
A vitória também coloca o movimento sérvio em evidência como exemplo de mobilização social que conseguiu converter protestos prolongados em resultado eleitoral. O caso poderá inspirar outros grupos que buscam mudanças por meio da organização cidadã, embora os efeitos concretos dependam da capacidade de implementar as promessas feitas durante a campanha.
Os próximos passos incluem a conclusão da apuração, a oficialização dos resultados e as negociações para a formação do novo governo. Depois de anos de domínio do SNS, a Sérvia entra em uma fase de transição política, na qual o movimento estudantil terá de transformar a vitória nas urnas em medidas concretas e responder às expectativas que levaram milhares de pessoas às ruas.


