Do isolamento à dignidade: após 40 anos de espera, comunidade no interior do Amazonas recebe acesso à água tratada
Cercados por rios na maior bacia hidrográfica do mundo, moradores da Comunidade do Ubim, em Eirunepé, conviviam com a ironia da escassez de água potável; hoje, chegada de sistema de tratamento transforma a saúde e a rotina local.

A Amazônia abriga a maior abundância de água doce do planeta. São mais de 7 milhões de quilômetros quadrados distribuídos por nove países, sendo o Brasil o detentor da maior parte dessa riqueza. O estado do Amazonas concentra uma parcela gigantesca dos recursos hídricos nacionais e sedia boa parte da bacia que, sozinha, responde por 75% da produção hídrica do país.
Apesar desses números grandiosos, no coração da floresta a abundância por vezes contrasta com a escassez. Ou melhor: contrastava. No município de Eirunepé, localizado a 1.160 quilômetros de Manaus e banhado pelo Rio Juruá, os moradores da Comunidade do Ubim viveram por décadas uma realidade dura. A viagem até o local expõe o isolamento: são mais de 12 horas de navegação em lanchas, navegando pelas águas barrentas do Rio Juruá, até chegar ao seu afluente Rio Gregório. Cercada por água por todos os lados, a população ribeirinha convivia com uma cruel ironia: a proximidade com o rio e a falta total de acesso à água potável e segura.
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Décadas de risco e incertezas
O Ubim é uma comunidade que guarda em cada rosto a marca de quem conhece o valor das coisas mais simples da vida. Por 40 anos, famílias dependeram exclusivamente do rio para beber, cozinhar e tomar banho — sem nenhum tipo de tratamento.

A rotina era marcada por incertezas e riscos constantes à saúde, como surtos de doenças de veiculação hídrica. A busca por alternativas envolvia ferver a água bruta e torcer para que as crianças e os idosos não adoecessem.
“Uma rotina que atravessou gerações. Gente que buscou alternativas no rio, de ferver a água, de torcer para que as crianças não adoecessem. Antes de chegar na torneira das casas era muito difícil para nós e também para as mulheres. Que elas tinham que lavar roupa tinham que deixar as suas casas para ir para a beira do rio ou igarapé. Então era muito difícil, às vezes perigoso, ter jacaré. E também às vezes chovia. Muitas vezes era perigoso levar uma queda, um escorregão. Então era muito difícil”, relata Francisco Erli Nascimento da Silva, líder comunitário do Ubim.
A apreensão ao abrir a torneira ou buscar água no balde era compartilhada por quase todas as famílias locais, até que um projeto de infraestrutura mudou o curso dessa história.

Como funciona a transformação
A mudança no cotidiano do Ubim veio com a implantação de uma estação moderna de captação e tratamento. Após ser captada no Rio Gregório, a água passa por um rigoroso processo de purificação na estação local. De lá, segue por uma rede de distribuição instalada para atender diretamente as residências da comunidade.
Na prática, a chegada da água tratada representa saúde, redução de casos de diarreia, hepatite e leptospirose, além de gerar economia de tempo — benefício sentido principalmente pelas mulheres, que historicamente arcavam com o trabalho de carregar e ferver a água para o consumo familiar.
Para quem esperou por quatro décadas, o gesto simples de abrir a torneira ganhou outro significado.
“É qualidade de vida na torneira: seja para o cuidado com a casa ou para o consumo seguro de toda a comunidade”, comemora o morador David Rodrigues da Silva.

O cenário do saneamento no Amazonas
A conquista da Comunidade do Ubim lança luz sobre um desafio amplo na Região Norte. Segundo dados do Instituto Trata Brasil, cerca de 19% da população do Amazonas não tem acesso à água encanada. O índice representa aproximadamente 800 mil pessoas — ou cerca de 195 mil a 200 mil famílias — vivendo sem o serviço básico de saneamento no estado.
“O que a gente vê aqui no Rio Gregório é o o enxugamento da pobreza, né? Esses índices se movendo, uns mais rapidamente, outros menos, mas tudo monitorado. Então a gente consegue entender. Então, por exemplo, um índice que estava difícil de mover era a questão do acesso à água e do saneamento. Então a gente sentou, aí chama quem mais entende disso, busca uma solução, que hoje a gente tem alegria de ver aqui”, elencou Flávia Constant diretora de investimentos social da Vale.

A iniciativa no interior conta com o apoio de instituições voltadas ao desenvolvimento sustentável da região. Para Virgilio Viana, superintendente-geral da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), levar soluções de saneamento comunitário para áreas isoladas é um passo fundamental para garantir direitos humanos básicos e fixar as populações ribeirinhas com qualidade de vida em seus territórios.
“Porque não é só construir uma estrutura dessa. É ter uma tecnologia social. É essencial termos uma tecnologia social que é responsável pra fazer com que isso seja cuidado da forma apropriada”, elencou Viana.

Avanços na capital e o olhar para o futuro
Enquanto o interior avança a passos graduais, a capital amazonense também registra avanços em sua cobertura hídrica. Desde 2023, Manaus alcançou a marca histórica de atender 100% da sua área urbana com água potável.
O desafio na capital incluiu soluções de engenharia adaptadas à geografia amazônica. Nas palafitas do bairro Educandos, na Zona Sul, a tubulação foi projetada para resistir ao ciclo natural de cheias e secas do Rio Negro, garantindo o abastecimento contínuo aos moradores da área sobre as águas.
“Quando eu cheguei em Manaus, não tinha água em torneira nenhuma. A gente carregava água daqui de baixo, né, na costa com um um tambor, não tem essas latas de tinta, a gente colocava no ombro e vinha com ela até chegar na nossa casa, água para beber, água para tomar banho, era tudo tirado da beira do rio, não tinha água. E na faixa dos anos de 1980, é que foi, foram instalando, puxando os canos, aqui era tudo barro, não tinha asfalto. Era um negócio difícil mesmo. Hoje em dia, eu acho que as crianças vivem no paraíso, né? Porque você tem água tratada em casa, você abre a torneira, tem água. E na nossa época que não tinha, você tinha que carregar no balde mesmo, destacou “
Para os próximos anos, o foco das concessionárias de saneamento na capital está na ampliação da rede de coleta e tratamento de esgoto, com investimentos bilionários previstos para a construção de novas Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs) e expansão das redes coletoras, conforme destaca Wendel Souza, gerente de projetos da Águas de Manaus.
“A gente encontra benefícios diretos do saneamento, né? Ele não é só na saúde é também na qualidade de vida. E existem dados que são dados nacionais, que falam que a cada real que a gente investe no saneamento, a gente economiza quatro na saúde. Então, esse é o reflexo direto do saneamento. Quando a gente pensa na qualidade de vida e dignidade da pessoa, a gente tem aqui que muitas pessoas que moravam em becos, em palafitas, elas passaram inclusive a ter um comprovante de residência. Pra gente parece uma coisa besta, mas assim, é questão de você poder matricular o filho numa escola, é você poder receber uma encomenda em casa. Você tem ali o seu comprovante de residência, coisa que eles não tinham antes e foram ter o seu primeiro comprovante com a conta d’água”, destacou o gerente de projetos da Água de Manaus.

Novo horizonte para as futuras gerações
De volta ao Ubim, o clima entre os moradores é de alívio e esperança. A comunidade agora se consolida como um exemplo prático de que é possível levar infraestrutura de saneamento a pontos remotos da Amazônia.
Para os idosos que viram a água limpa chegar após 40 anos, fica a memória da superação. Já para as crianças que hoje crescem no local, o acesso à água potável na torneira a qualquer hora deixa de ser um sonho para se tornar a normalidade — um legado de saúde e dignidade para as próximas gerações.
Por Gabriel Abreu



