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EUA abrem revisão de tropas na Europa e cobram mais esforços da Otan

O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, anuncia nesta quinta-feira (18) uma revisão ampla da presença militar americana na Europa, em reunião na sede da Otan, em Bruxelas. O processo pode durar até seis meses e inclui consultas ao Congresso, abrindo caminho para mudanças na distribuição de tropas e meios militares no continente. A iniciativa pressiona aliados europeus a assumir maior responsabilidade direta pela própria defesa.

Washington quer fim da “codependência” europeia

Hegseth escolhe o coração da Otan para deixar claro que a relação militar transatlântica entra em nova fase. Diante de ministros da Defesa aliados, ele afirma que os Estados Unidos vão reavaliar, de forma completa, o papel de suas forças no continente europeu. O objetivo declarado é encerrar o que chama de “codependência prejudicial” dos parceiros em relação ao poder militar americano.

“Não se enganem, esta será uma verdadeira revisão. Ela será concebida para garantir que a Otan avance de forma rápida e irreversível rumo à liderança da Europa, assumindo a responsabilidade primordial pela defesa do continente”, diz o secretário. A fala explicita a mudança de tom de Washington, que passa de fiador quase automático da segurança europeia para cobrador ativo de resultados e investimentos.

Hegseth sinaliza que nada está imune ao escrutínio. A revisão, segundo ele, abrange o posicionamento de tropas, o uso de bases, rotas aéreas e o volume de recursos dedicados às operações da aliança. Embora evite falar abertamente em cortes no efetivo, indica que a prioridade é liberar capacidade militar para outros pontos sensíveis do mapa, em meio à possibilidade de conflitos simultâneos em múltiplos teatros.

O processo terá aval político em Washington. O secretário lembra que o Congresso dos EUA, que por lei estabelece um piso mínimo de tropas americanas no continente europeu, será consultado em cada etapa. O gesto busca blindar a iniciativa de disputas internas em ano de campanha nos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, deixar claro aos aliados que a negociação não se restringe ao Executivo.

Críticas a aliados e disputa por recursos militares

A mudança de rota nasce também de mágoas recentes. Hegseth critica com dureza países que se recusam a oferecer apoio à campanha americana na guerra contra o Irã, incluindo a negativa de uso de bases e de corredores aéreos para operações ligadas ao conflito. Ele afirma que a revisão garantirá que os direitos de utilização de instalações militares e de sobrevoo sejam claramente assegurados no futuro.

Os recados soam especialmente duros em um momento em que a própria Otan corre para tapar buracos em suas forças de resposta rápida. Washington já corta algumas contribuições com efeito imediato, em especial aviões e navios reservados para emergências da aliança. No mês passado, os Estados Unidos comunicam aos parceiros que vão reduzir o pacote de capacidades militares disponível em caso de crise, o que provoca apreensão às vésperas da cúpula de líderes em Ancara, nos dias 7 e 8 de julho.

O comandante supremo da Otan, general Alexus Grynkewich, resume a lógica em termos diretos. Para ele, é preciso encerrar, de forma gradual, a dependência estrutural das forças europeias em relação a ativos americanos, em um cenário em que Washington precisa calibrar o uso de seus meios entre Europa, Oriente Médio e Ásia. Em outras palavras, menos garantia automática dos EUA significa mais obrigação de investimento para os governos europeus.

Hegseth não esconde a disposição de expor quem fica para trás. “Há alguns que ainda precisam fazer mais, e seremos francos sobre isso, tanto em privado quanto em público. Acho importante que amigos sejam honestos uns com os outros”, afirma o secretário, em tom de cobrança aberta. A declaração mira diretamente os países que ainda não alcançam a meta de 2% do PIB em gastos militares, hoje um ponto central nas discussões internas da Otan.

O secretário apresenta a ideia de uma “OTAN 3.0”, que, segundo ele, significa o fim da ilusão de que a aliança pode seguir como um fórum político amplo com músculos terceirizados aos Estados Unidos. “A OTAN 3.0 é o reconhecimento pós-Guerra Fria de que é preciso retornar a uma aliança militar de linha dura, com capacidades militares reais capazes de dissuadir aqui mesmo no continente e assumir a liderança na defesa convencional da Europa”, afirma.

Europa sob pressão e dúvidas sobre futuro da aliança

A revisão anunciada em Bruxelas atinge em cheio o equilíbrio interno da Otan. Países europeus que apostam há décadas na presença maciça de tropas americanas como escudo automático passam a conviver com a possibilidade de redistribuição de bases, ajustes de contingentes e realocação de meios críticos, como aviação de combate e navios de guerra. Não há números oficiais na mesa, mas diplomatas em Bruxelas falam em um ciclo de incerteza de pelo menos seis meses.

Na prática, o movimento amplia a pressão sobre governos que adiam aumentos de orçamento militar ou resistem a comprometer capacidades nacionais às forças de crise da aliança. Cada avião, navio ou batalhão cedido a estruturas conjuntas da Otan agora pesa mais, já que Washington sinaliza que pode não mais cobrir sozinho lacunas em áreas como defesa aérea, vigilância e logística estratégica.

Aliados que se alinham automaticamente a Washington em crises recentes podem tentar capitalizar esse histórico para preservar presença americana em seus territórios, em especial países da Europa Oriental. Outros, mais reticentes em apoiar a guerra contra o Irã, podem enfrentar negociações mais duras em temas sensíveis, como acesso a tecnologia, exercícios conjuntos e uso de bases aéreas e portos militares.

O anúncio também reacende o debate interno em capitais europeias sobre autonomia estratégica. Um reforço rápido da indústria de defesa do continente exige anos de investimento, revisão de leis orçamentárias e, em muitos casos, mudança de opinião pública. A eventual redução da “rede de segurança” americana ocorre em um momento em que ameaças convencionais e ataques híbridos se aproximam das fronteiras da Otan.

Seis meses de incerteza até cúpula em Ancara

Os próximos marcos estão definidos. Ministros da Defesa usam a reunião de Bruxelas para medir até onde Washington está disposto a ir. A cúpula da Otan em Ancara, nos dias 7 e 8 de julho, vira o principal palco político para discutir a redistribuição de encargos e a nova divisão de trabalho na defesa do continente europeu.

Até o fim da revisão, previsto para ocorrer em até seis meses, aliados tentam demonstrar boa vontade com anúncios de novos contratos militares, reforço de contingentes em missões da Otan e ajustes legislativos que facilitem o trânsito de tropas e equipamentos. A Casa Branca, por sua vez, tenta equilibrar a mensagem de cobrança com a necessidade de evitar a impressão de que os Estados Unidos abandonam a Europa.

A dúvida central permanece sem resposta: até que ponto Washington está disposto a converter o discurso em reduções concretas de presença militar? As respostas dadas nos próximos meses podem redefinir não apenas o mapa de tropas no continente, mas o próprio papel da Otan em um cenário global mais fragmentado.

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