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EUA aceleram cassação de cidadania de naturalizados sob governo Trump

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos abre 29 processos de revogação de cidadania de pessoas naturalizadas em menos de dois meses de 2026. Os alvos são suspeitos de fraude, abuso e apoio a atividades terroristas. A medida marca uma nova etapa no endurecimento da política migratória sob Donald Trump.

Campanha silenciosa para reverter cidadanias

Os novos casos reposicionam a desnaturalização no centro da agenda migratória da Casa Branca. Em vez de mirar apenas quem vive em situação irregular, o governo volta sua atenção a pessoas que já atravessaram todo o processo legal, prestaram juramento e receberam o passaporte azul. A mensagem é clara: a cidadania, para quem nasceu fora do país, deixa de ser vista como um ponto final e passa a ser revisável.

Entre 2008 e 12 de junho de 2026, os EUA registram 166 processos de cassação de cidadania, média inferior a dez por ano, segundo o Transactional Records Access Clearinghouse, da Universidade de Syracuse. Em poucas semanas deste ano, o governo Trump já abre 29 ações, em uma guinada de ritmo que supera largamente o padrão das últimas duas décadas. A maior parte dos alvos responde a acusações de fraude, abuso sexual de menor ou apoio a terrorismo anterior ou paralelo ao pedido de naturalização.

O movimento não nasce do nada. Em junho de 2025, um memorando do procurador-geral assistente Brett Shumate orienta a priorização de casos de desnaturalização. O texto lista dez grupos preferenciais: suspeitos de ameaçar a segurança nacional, envolvidos em crimes de guerra, fraudadores contumazes e pessoas que ocultaram crimes graves ao pedir a cidadania, entre outros. O documento também abre margem para que qualquer caso considerado relevante avance, sem ordem rígida de importância.

Nos bastidores, o Departamento de Justiça desloca advogados cíveis de diferentes divisões para reforçar a pequena unidade de desnaturalização, hoje com 12 procuradores dedicados. Profissionais que tradicionalmente investigam grandes fraudes civis ou litígios regulatórios passam a acumular ações de cassação de cidadania. Escritórios de procuradores federais espalhados pelo país recebem dossiês e redistribuem processos de acordo com o local de residência de cada acusado.

Quem pode perder a cidadania e o que está em jogo

O governo federal tem amparo em leis que permitem reverter a naturalização quando há declarações falsas relevantes, omissão de crimes ou concessão ilegal da cidadania a quem não se enquadrava nos requisitos. Os processos podem ser civis ou criminais, sempre na Justiça federal. Nascidos em solo americano não entram nesse alvo: o direito de cidadania por nascimento continua assegurado pela Constituição, embora Trump tente derrubar essa garantia por decreto. A Suprema Corte deve decidir em breve se a iniciativa é válida.

Na prática, quem perde a ação volta ao status migratório anterior. Em muitos casos, retoma a condição de residente permanente. Dependendo da gravidade das acusações, pode entrar imediatamente em processo de deportação. Em uma década, quase 8 milhões de pessoas se tornam cidadãos naturalizados nos EUA, segundo o Serviço de Cidadania e Imigração (USCIS). A ofensiva de desnaturalização, mesmo ainda restrita em números absolutos, provoca apreensão entre grupos que se sentiram, até aqui, definitivamente integrados ao país.

Autoridades do Departamento de Justiça insistem que o foco são fraudes graves e histórico criminal ocultado. “Pessoas que receberam uma multa por estacionamento — essas não serão alvo dos nossos recursos”, afirma um alto funcionário ouvido pela CNN. “Trata-se realmente de encontrar pessoas que cometeram fraudes graves contra os Estados Unidos, identificar esses indivíduos e proceder o mais rapidamente possível”, completa.

Na gestão de Joe Biden, o contraste é nítido. Em quatro anos, o governo anterior protocola apenas 24 processos de desnaturalização, segundo o próprio Departamento de Justiça. Administradores democratas e republicanos, por décadas, priorizam casos mais evidentes, como criminosos de guerra e envolvidos em terrorismo. Agora, advogados ouvidos pela CNN relatam pressão crescente para levar adiante qualquer ação que possa ser sustentada em juízo, inclusive situações ligadas a supostas imprecisões no preenchimento de formulários.

Especialistas em direitos civis veem risco de expansão excessiva dessa ferramenta. Stacey Young, ex-integrante do Departamento de Justiça e hoje à frente da ONG Justice Connection, lembra que os processos são complexos e lentos. Mesmo com o reforço de equipes, ela considera improvável uma onda de desnaturalizações em massa. “O próprio processo de litígio ainda será um enorme impedimento para o objetivo de desnaturalizar pessoas em grande escala”, avalia.

Rigor jurídico, pressão política e próximos capítulos

A desnaturalização permanece rara justamente por causa do peso das garantias legais. A Suprema Corte determina que o governo apresente provas “claras e convincentes” para retirar a cidadania de alguém. Daniel Kanstroom, professor de direito da Boston College Law School, lembra que esse padrão elevado nasceu de abusos do passado. Durante a Segunda Guerra, por exemplo, autoridades revisam naturalizações de germano-americanos simpatizantes do nazismo. “A razão para a robustez das proteções […] deve-se às decisões da Suprema Corte”, afirma.

Mesmo com esse freio jurídico, a máquina política pressiona por resultados. Em declaração recente, o procurador-geral interino Todd Blanche resume a linha do governo. “Obter a cidadania americana é um privilégio e, sob a liderança inabalável do presidente Trump, este Departamento de Justiça mantém uma política de tolerância zero para o abuso desse processo”, diz. Nos corredores do próprio departamento, a avaliação é de que os escritórios regionais podem chegar a “várias centenas” de novos casos nos próximos anos, se a orientação atual se mantiver.

O endurecimento vem em paralelo a outros movimentos, como a tentativa de restringir a cidadania automática por nascimento e o esforço para limitar vistos e refúgio durante grandes eventos, como a Copa do Mundo. Organismos internacionais, como a ONU, e entidades de direitos humanos alertam para o risco de criar uma categoria de cidadãos permanentemente sob suspeita, vulneráveis a revisões retroativas de sua história migratória.

No curto prazo, imigrantes naturalizados acompanham com atenção as decisões da Suprema Corte e as próximas iniciativas do Departamento de Justiça. O resultado desses casos, somado a possíveis mudanças legislativas, vai definir se a atual ofensiva será lembrada como um ajuste pontual contra fraudes graves ou como um ponto de inflexão na ideia de cidadania estável para quem escolheu os Estados Unidos como segunda pátria.

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