Ultimas

Maior ataque de drones da Ucrânia atinge Moscou e expõe falhas russas

Cerca de 200 drones ucranianos atacam arredores de Moscou nesta quinta-feira (18), atingem refinaria, shopping center e áreas residenciais, ferem civis e paralisam aeroportos. A ofensiva, a maior contra a capital russa desde 2022, provoca incêndios, evacuações e pressiona o sistema de defesa aérea do país.

Escalada após ataque em Kiev e resposta de Zelensky

A onda de drones cruza o céu em plena luz do dia e leva a guerra, pela primeira vez nessa escala, ao cotidiano da capital russa. Colunas de fumaça espessa se erguem dos arredores de Moscou enquanto sirenes disparam e moradores correm para abrigos ou deixam seus prédios às pressas.

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, assume a autoria política da operação e a apresenta como resposta direta ao bombardeio russo da semana anterior contra Kiev, que incendiou um marco religioso da capital. “Não queríamos esta guerra e nunca a quisemos”, afirma. “Mas se a Ucrânia queimar, Moscou também vai queimar.”

Em declaração transmitida por vídeo, Zelensky diz que o país volta a atingir a região de Moscou com “sanções de longo alcance”, expressão usada por autoridades ucranianas para se referir a ataques de grande distância contra território russo. “Está na hora de encerrar esta guerra, e a Rússia precisa tomar as medidas diplomáticas necessárias”, acrescenta.

O Kremlin evita comentar de imediato. Vladimir Putin segue em Kazan, onde recebe líderes do Sudeste Asiático, e não se pronuncia publicamente sobre o ataque que atinge a capital enquanto conduz uma cúpula internacional. O silêncio contrasta com a enxurrada de imagens que circulam nas redes, apesar da proibição oficial de divulgar cenas dos impactos.

Refinaria em chamas, shopping em chamas e aeroportos fechados

Na zona sudeste de Moscou, a refinaria de Kapotnya volta a pegar fogo. É o terceiro ataque em um mês e o segundo só nesta semana contra o complexo, que integra a infraestrutura energética da capital. Uma espessa fumaça preta cobre o céu e se espalha sobre bairros residenciais, enquanto bombeiros tentam conter as chamas.

Vídeos mostram a tampa de um grande tanque de armazenamento de petróleo sendo lançada dezenas de metros para o alto pela força de uma explosão. Um shopping center próximo também entra em combustão, supostamente após destroços de um drone atingirem o prédio. Vários edifícios residenciais altos são evacuados às pressas, com famílias saindo carregando malas improvisadas e animais de estimação.

O governador da região de Moscou, Andrei Vorobyov, fala em pelo menos 17 feridos nos arredores da capital. Ao sul do país, na região de Rostov, um depósito de petróleo é atingido e deixa ao menos uma pessoa morta, segundo autoridades locais. Nenhum desses números pode ser verificado de forma independente, mas sugerem impacto direto sobre civis e trabalhadores da indústria de energia.

Os quatro aeroportos que atendem Moscou fecham temporariamente durante a ofensiva. Mais de 500 voos são cancelados ou sofrem atrasos significativos, afetando passageiros em todo o país e em rotas internacionais. O fechamento mostra o nível de alerta das autoridades russas e amplia a sensação de vulnerabilidade entre moradores e visitantes da capital.

Defesas aéreas sob pressão e guerra tecnológica

O Ministério da Defesa da Rússia afirma ter interceptado e destruído quase 1.000 drones e quatro mísseis de cruzeiro ucranianos em um período de 24 horas em todo o território russo. A declaração tenta enfatizar a eficácia do sistema de defesa aérea, mas a quantidade de alvos que chegam aos arredores de Moscou expõe falhas e lacunas.

Especialistas militares lembram que nenhum sistema antiaéreo garante proteção total contra ataques em massa, sobretudo com enxames de drones pequenos e relativamente baratos. Mesmo quando grande parte das aeronaves é abatida, o volume de alvos aumenta a chance de alguns cruzarem as defesas. Além disso, destroços de mísseis interceptores podem cair sobre áreas habitadas e causar novos danos.

A Ucrânia explora essa brecha desde 2023, quando seus primeiros ataques bem-sucedidos com drones alcançam Moscou, então em pequenos números e de forma esporádica. De lá para cá, Kiev investe pesado em tecnologia nacional, reduz custos e amplia o alcance. Hoje, alguns modelos percorrem mais de 1.000 km, e outros já dobram essa distância.

Uma tática recorrente descrita por oficiais ucranianos consiste em lançar grandes quantidades de drones de reconhecimento e iscas para mapear a densidade das defesas antiaéreas. Com esses dados, as forças de Kiev identificam rotas menos protegidas e só então enviam as aeronaves de ataque contra refinarias, depósitos de combustível, usinas e instalações militares.

Em entrevista rara à BBC no mês passado, Robert Brovdi, comandante das Forças de Sistemas Não Tripulados da Ucrânia, afirma que “entre 1,5 mil e 2 mil km dentro do território russo já não existe a ‘retaguarda pacífica’”. Segundo ele, o “pássaro ucraniano, amante da liberdade, voa para lá quando e para onde bem entender”. Brovdi diz que sua tropa representa apenas 2% do exército, mas responde por cerca de um terço dos alvos destruídos, com taxa de baixas inferior a 1% ao ano.

Retaliações cruzadas e guerra cada vez mais próxima dos civis

A ofensiva ucraniana ocorre após uma das maiores ondas de ataques russos em meses. Em 15 de junho, Moscou lança mais de 200 drones e vários mísseis balísticos contra cidades ucranianas, deixando mortos, feridos e um rastro de destruição em centros urbanos distantes da linha de frente.

Quatro anos e meio depois do início da invasão em larga escala, a guerra entra em fase de exaustão. As posições no front se movem pouco, mas o conflito se aproxima dos grandes centros com o uso crescente de drones e mísseis de longo alcance. Zelensky diz buscar “levar a guerra para dentro de casa” na Rússia, numa tentativa de fazer a população russa sentir no cotidiano o conflito iniciado pelo Kremlin.

Em Moscou, os ataques reiterados obrigam o governo a espalhar sistemas de defesa aérea pela cidade e pela região metropolitana, com baterias instaladas até em topos de prédios oficiais. Mesmo assim, a ofensiva desta quinta-feira levanta questionamentos internos sobre a real capacidade de proteger refinarias, depósitos de combustível e infraestrutura de transporte.

Nas redes sociais, o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andrii Sybiha, responde a uma pergunta que, segundo ele, se repete entre moradores da capital russa: “O que está acontecendo?”. “O seu país iniciou uma guerra de agressão contra o nosso. Durante anos, ele matou o nosso povo”, escreve. “Agora que vocês sabem o que está acontecendo, perguntem a Putin quando ele pretende acabar com isso.”

Próximo capítulo da guerra de drones

A Rússia reage com novos lançamentos de drones e mísseis contra a Ucrânia durante a noite, mantendo o ciclo de ataques e contra-ataques que marca o conflito desde 2022. As duas capitais vivem, em ritmos diferentes, a rotina de alertas aéreos, abrigos lotados e interferências na vida diária.

Para Kiev, cada ataque bem-sucedido em território russo reforça a mensagem de que nenhuma cidade está completamente fora do alcance. Para Moscou, cada vídeo de explosão divulgado apesar da censura amplia a pressão sobre as autoridades e alimenta dúvidas sobre a segurança prometida pelo Kremlin. A escalada com drones abre um novo capítulo da guerra, em que a linha entre frente de batalha e retaguarda se torna cada vez mais difícil de enxergar.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *