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Vice de Trump chama reação de Israel a acordo com Irã de “chilique”

O republicano J.D. Vance, candidato a vice na chapa de Donald Trump, critica nesta quinta-feira (18) o “chilique” do governo israelense contra o acordo com o Irã. Em entrevista ao New York Times, ele acusa Israel de exagerar nas reações e defende uma postura mais moderada dos Estados Unidos diante da escalada com o Hezbollah.

Entrevista expõe tensão entre aliados

Vance fala ao jornal em meio às negociações mais delicadas sobre o programa nuclear iraniano desde 2015, quando o primeiro pacto, conhecido pela sigla JCPOA, é firmado. O novo acordo, costurado com o apoio de potências europeias e da ONU, tenta conter o enriquecimento de urânio em troca do alívio gradual de sanções econômicas que pressionam Teerã há mais de uma década.

Israel reage com dureza desde os primeiros rascunhos do texto, divulgado a portas fechadas em Washington e em capitais europeias no fim de maio. O governo de Benjamin Netanyahu chama o entendimento de “ameaça existencial” e acusa Teerã de usar mesas de negociação para ganhar tempo enquanto avança no enriquecimento de urânio acima de 60%, patamar próximo ao necessário para armas nucleares.

Vance se afasta desse discurso. Ao NYT, afirma que Israel “faz um escândalo diplomático” toda vez que Washington tenta reduzir a temperatura com Teerã. “Não podemos deixar que cada chilique em Jerusalém determine a política externa americana”, diz, segundo o jornal. A declaração produz reação imediata em embaixadas e grupos de lobby pró-Israel em Washington, que tradicionalmente orbitam candidatos republicanos.

A entrevista marca uma fissura visível na retórica da chapa conservadora. Trump, que em 2018 retira os EUA do acordo nuclear original, sempre se apresenta como aliado automático de Israel. Vance tenta agora redesenhar esse papel, sem romper a parceria histórica, mas cobrando “menos histeria e mais cálculo estratégico” nas respostas a cada movimento iraniano.

Disputa sobre riscos e custos no Oriente Médio

A crítica de Vance ocorre enquanto ataques de foguetes do Hezbollah, grupo armado apoiado pelo Irã, voltam a atingir o norte de Israel. Desde janeiro, mais de 200 incidentes de fronteira são registrados pela ONU, com mortos de ambos os lados e milhares de deslocados no Líbano e em Israel. Em público, Netanyahu relaciona cada nova salva de foguetes à “impunidade” dada a Teerã por Washington e por capitais europeias.

Vance, ao contrário, afirma que a reação israelense ao acordo prejudica a coordenação entre aliados e empurra os EUA para “mais uma década de guerras por procuração”. O senador lembra o custo humano e financeiro das campanhas militares na região desde 2001. Estudos do instituto Brown University estimam em mais de US$ 8 trilhões o custo das guerras pós-11 de Setembro para o orçamento americano, com centenas de milhares de mortos diretos e indiretos.

Segundo Vance, insistir em sanções máximas e ameaças militares fortalece os setores mais radicais em Teerã e em Beirute. Ele defende que um acordo, mesmo imperfeito, pode congelar o programa nuclear iraniano em níveis monitoráveis pela Agência Internacional de Energia Atômica e abrir margem para aliviar gradualmente o cerco econômico. “Não se trata de confiar no regime iraniano, mas de preferir inspeções concretas a discursos inflamados”, argumenta.

Analistas em Washington leem a fala como recado também ao establishment republicano. Desde 2020, pesquisas do Pew Research Center mostram queda de até 15 pontos percentuais no apoio automático do eleitorado jovem à política externa intervencionista. O cálculo da campanha é simples: ao adotar tom mais pragmático, Vance tenta falar a independentes cansados de guerras longas e alianças sem contrapartidas claras.

Para Israel, a declaração acende sinal amarelo. A relação estratégica com os EUA garante desde a década de 1970 um fluxo anual de ajuda militar que hoje gira em torno de US$ 3,8 bilhões. Essa ajuda financia sistemas como o Domo de Ferro, que intercepta foguetes lançados por grupos armados em Gaza, na Síria e no Líbano. Qualquer ruído entre Casa Branca, Congresso e governo israelense pode reabrir discussões sobre condicionalidades a esses recursos.

Risco de polarização e próximos movimentos

A fala de Vance já ecoa em capitais do Oriente Médio. Diplomatas em Teerã e em Beirute celebram nos bastidores o que leem como sinal de fadiga americana com as demandas israelenses. Em Tel Aviv, ministros próximos a Netanyahu tratam o episódio como “alerta” de que parte da classe política em Washington aceita hoje um Irã nuclearmente próximo da linha vermelha, desde que sob inspeção e com freios econômicos parciais.

Nos Estados Unidos, a disputa deve se refletir no Congresso. Setores pró-Israel prometem pressionar por novas resoluções condenando o acordo, enquanto democratas mais à esquerda defendem o pacto como única alternativa realista para segurar o programa nuclear iraniano até 2030. A campanha presidencial incorpora o tema em discursos e anúncios, transformando um dossiê técnico sobre centrífugas e sanções em bandeira identitária para eleitores mais engajados.

Negociadores europeus, que participam diretamente das conversas com Teerã, acompanham com cautela a escalada retórica. Um diplomata envolvido nas rodadas confidenciais calcula que qualquer mudança de sinal em Washington pode atrasar em pelo menos seis meses a implementação dos primeiros passos do acordo, como o descongelamento de ativos iranianos bloqueados em bancos estrangeiros desde 2018.

O impacto sobre o Hezbollah também entra nessa equação. Se o acordo avançar, Teerã pode ter mais incentivos econômicos para conter ações do grupo ao longo da fronteira com Israel. Se fracassar, cresce o risco de uma nova rodada de confrontos abertos, como a guerra de 2006, que deixou mais de 1,2 mil mortos em pouco mais de um mês. Vance aposta publicamente na primeira via; o governo israelense insiste que a segunda é inevitável se o pacto for mantido.

As próximas semanas devem mostrar se a fala do vice de Trump inaugura uma nova linha na política republicana para o Oriente Médio ou se fica restrita a um gesto de campanha. O tom das reações em Jerusalém, em Teerã e nos corredores do Congresso em Washington indica que o debate sobre quem dita as regras da segurança na região está apenas no começo.

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