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China divulga proposta de nova governança global e desafia unilateralismo

A China torna pública, nesta quarta-feira (17), uma proposta de governança global que reforça o papel central da ONU e pede mais voz ao Sul Global. O documento critica ações unilaterais de grandes potências e se coloca como roteiro para um sistema internacional “mais justo e inclusivo”. O texto mira debates sobre reforma da ordem mundial nas próximas décadas.

Pequim tenta moldar o centro do tabuleiro

O anúncio ocorre em Pequim, em um momento de disputa intensa por influência política, tecnológica e econômica. A proposta chega quando guerras regionais, crise climática e tensões comerciais expõem limites da arquitetura criada depois de 1945, com a fundação da ONU e do sistema de Bretton Woods. A China se apresenta como voz dos países em desenvolvimento e busca falar em nome de mais de 130 nações que compõem o chamado Sul Global.

O documento, divulgado por canais oficiais, defende que a ONU permaneça como fórum central de decisões globais, em vez de coalizões ad hoc ou grupos restritos de países ricos. O texto insiste em “igualdade soberana” entre Estados e rejeita sanções impostas fora do Conselho de Segurança. Ao criticar o unilateralismo, Pequim mira medidas tomadas sem aval multilateral, como tarifas punitivas, embargos e intervenções militares decididas por poucos atores.

A publicação detalha princípios que a diplomacia chinesa repete há pelo menos duas décadas, mas agora organiza em uma espécie de carta de navegação. O material fala em “segurança indivisível”, em que nenhum país deve ampliar sua proteção às custas da vulnerabilidade de outro, e em “desenvolvimento compartilhado”, com ênfase em infraestrutura, transição energética e combate à pobreza. A mensagem é direcionada a países que ainda lutam para cumprir metas de redução de emissões e crescimento econômico até 2030.

A proposta ecoa movimentos recentes de realinhamento político. Nos últimos cinco anos, o número de países que pedem reforma do Conselho de Segurança cresce em encontros anuais da Assembleia-Geral da ONU. Em paralelo, grupos como o G20 e os Brics ampliam a presença de economias emergentes, pressionando por mais espaço em instâncias decisórias dominadas por Estados Unidos e Europa desde o pós-guerra.

Sul Global em busca de voz e espaço

No texto, a China insiste em ampliar a participação de países da África, da América Latina, do Oriente Médio e do Sudeste Asiático nas grandes negociações globais. A diplomacia de Pequim fala em “corrigir desequilíbrios históricos” e cita, como exemplo, o fato de que mais de 40% da população mundial vive em países que nunca ocuparam assento permanente no Conselho de Segurança. A proposta sugere reformas graduais, com expansão de cadeiras e revisão de critérios de representatividade regional.

O documento também sinaliza que acordos comerciais e financeiros devem considerar, com mais peso, as prioridades dessas economias. A China menciona acesso a crédito em condições mais favoráveis, transferência de tecnologia e financiamento para energia limpa e adaptação climática. A mensagem dialoga com países que enfrentam juros altos, moedas frágeis e dívidas externas crescentes. Em 2025, por exemplo, mais de 50 nações de baixa renda estavam em risco de inadimplência, segundo organismos multilaterais.

A crítica ao unilateralismo aparece em linguagem cuidadosa, sem citar países diretamente, mas o alvo é conhecido. Pequim se opõe abertamente a sanções extraterritoriais, que afetam terceiros países, e a decisões tomadas por alianças militares sem mandato da ONU. No texto, a China afirma que “ações isoladas corroem a confiança mútua e alimentam ciclos de confronto”, e sustenta que disputas devem ser resolvidas por “diálogo e consultas amplas”.

Diplomatas veem na iniciativa um movimento calculado. Ao defender o multilateralismo, a China também tenta se blindar de pressões externas e se posicionar como alternativa aos modelos liderados por Washington e por capitais europeias. O país usa sua posição de segunda maior economia do planeta, com cerca de 18% do PIB global, para apresentar a proposta não apenas como discurso, mas como plataforma de negociação em arenas como ONU, OMC e conferências do clima.

A reação inicial tende a ser desigual. Países do Sul Global podem encontrar no texto um instrumento político para cobrar mais assentos, votos e recursos em órgãos internacionais. Democracias liberais e potências tradicionais, por sua vez, devem questionar até que ponto a China está disposta a aplicar internamente a transparência, o respeito a normas e a abertura que agora defende para o sistema internacional.

Reforma da ONU volta ao centro do debate

A publicação da proposta tem potencial para reacender a discussão sobre a reforma da ONU, tema que se arrasta há pelo menos 30 anos. A inclusão de novos membros permanentes, a revisão do poder de veto e a modernização de agências especializadas ganham novo fôlego quando uma potência de peso coloca o assunto em papel. A China não detalha modelos específicos, mas sinaliza disposição para “ajustes estruturais” graduais, desde que mantida a centralidade da organização.

Organismos multilaterais, negociadores e think tanks devem usar o documento como referência em próximos encontros. Cúpulas do G20, reuniões dos Brics e conferências climáticas a partir de 2026 passam a ter, sobre a mesa, um texto que combina interesses de uma grande potência com demandas antigas de países em desenvolvimento. A proposta pode influenciar desde o desenho de novos fundos para clima até regras de governança de dados, inteligência artificial e cadeias produtivas estratégicas.

O impacto concreto, no entanto, depende de adesões e concessões. A China precisa convencer parceiros de que a defesa do multilateralismo não serve apenas para conter rivais, mas para abrir espaço real a outras vozes. Os Estados Unidos e aliados, por sua vez, terão de decidir se respondem com contraplano, se negociam ajustes ou se resistem a mudanças em estruturas que hoje lhes garantem poder de veto e maioria de votos.

Nos próximos meses, a disputa se desloca para resoluções, declarações conjuntas e mesas de negociação. Países de renda média, como Brasil, Índia, África do Sul e Indonésia, podem explorar a proposta chinesa para ampliar margem de manobra diplomática e obter ganhos concretos em comércio, tecnologia e clima. A forma como esses atores se alinham ou se distanciam do texto ajuda a definir o ritmo e o alcance de qualquer reforma.

O documento divulgado em Pequim não muda, sozinho, a ordem internacional. Ele marca, porém, um passo a mais na tentativa de redesenhar quem fala, quem decide e quem paga a conta nas grandes crises globais. A pergunta que permanece aberta é se o apelo por um sistema “mais justo, inclusivo e cooperativo” se transformará em mudanças mensuráveis ou ficará restrito ao vocabulário diplomático.

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