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Meia da RD Congo diz que Cristiano Ronaldo “já não é o mesmo” na Copa

Ngal’ayel Mukau, meia da seleção da RD Congo, afirma nesta quarta-feira (17) que Cristiano Ronaldo “já não é o mesmo de antes” após o empate por 1 a 1 com Portugal, em Houston, na estreia da Copa do Mundo de 2026. A equipe africana decide não montar marcação especial para o camisa 7 e trata o astro português como parte do plano coletivo de jogo.

Astro cercado, mas sem plano exclusivo

O comentário nasce ainda na zona mista do NRG Stadium, poucas horas depois de Cristiano deixar o campo cercado por três marcadores congoleses em uma das imagens da noite. A fotografia sugere sufoco individual, mas Mukau descreve algo diferente: um sistema pensado para o time inteiro, não para um nome só.

O meia admite respeito absoluto ao capitão português, que disputa sua sexta Copa aos 41 anos, mas sustenta que o peso da idade altera a forma de encarar o duelo. “Para ser sincero, não muito, porque sabemos que ele já não é o mesmo de antes. Ele está um pouco mais velho, mas ainda é um dos maiores do esporte. Então, muito respeito por ele”, diz, ao explicar por que não houve um esquema específico para o camisa 7.

Portugal estreia em um Mundial que pode marcar um recorde histórico: se fizer um gol até o fim do torneio, Cristiano se torna o primeiro jogador a marcar em seis edições da Copa. A RD Congo, em sua campanha de afirmação internacional, opta por atacar o símbolo maior da equipe europeia com uma lógica diferente, baseada em compactação e coberturas sucessivas.

Mukau descreve um rival ainda perigoso, mas menos dominante fisicamente. “Com certeza não é mais o jogador desafiador que costumava ser. Quando você chega nessa idade, não é a mesma coisa, não é o mesmo esforço que consegue fazer. Mas ainda tenho muito respeito por ele. Ele é um dos maiores da história”, afirma.

A idade entra em campo e muda o jogo

A fala do congolês abre uma janela para um tema que ronda Cristiano desde antes da bola rolar nos Estados Unidos, no Canadá e no México: a gestão do tempo. Em 2006, aos 21 anos, ele chega à Alemanha como promessa elétrica, capaz de acelerar o jogo a cada arrancada. Vinte anos depois, aparece como finalizador especializado, menos participativo na pressão e mais seletivo nos movimentos.

Contra a RD Congo, o roteiro reflete essa transição. Portugal tem a bola, dita o ritmo em boa parte dos 90 minutos, mas encontra dificuldade para transformar posse em chances limpas para o seu principal goleador. O time africano recua em bloco, encurta espaços e, em vez de grudar um defensor em Ronaldo, alterna vigias: ora Mukau, ora os zagueiros, ora o lateral mais próximo.

A opção reduz o desgaste individual e protege o sistema. Em vez de um marcador colado o tempo todo no astro, a RD Congo distribui a responsabilidade. A leitura parte da ideia de que o português já não cobre o campo com a mesma intensidade de antes, especialmente após a metade do segundo tempo. Em Houston, a temperatura alta e a maratona de jogos prevista até julho tornam essa conta ainda mais sensível para um jogador de 41 anos.

O empate por 1 a 1, com Portugal pressionando no fim, alimenta o debate. O time europeu teme ver o Mundial da despedida de seu maior artilheiro se transformar em um torneio de frustração. A seleção africana, por outro lado, deixa o gramado com a sensação de que o plano coletivo funciona até mesmo diante de uma lenda viva do esporte.

O discurso de Mukau não soa provocação, mas diagnóstico de quem vive a experiência em campo. Ao ligar a idade à perda de capacidade de esforço e intensidade, ele coloca em voz alta o que analistas discutem há anos em números e mapas de calor: o Cristiano da explosão física cede lugar a um atacante mais estático, dependente da leitura de espaço e da precisão na área.

Pressão sobre Ronaldo, confiança na RD Congo

A declaração do meia repercute além do vestiário. Em Portugal, alimenta discussões sobre até que ponto a equipe deve seguir estruturada para abastecer uma referência que corre menos e participa pouco da construção. Técnicos rivais observam com atenção a estratégia da RD Congo e avaliam se é possível repetir a fórmula nas próximas rodadas.

Adversários imediatos já entram na equação. Portugal volta a campo na terça-feira (23), às 14h (de Brasília), contra o Uzbequistão. A seleção asiática, que estreia contra a Colômbia na fase de grupos, sabe que terá pela frente um Cristiano marcado agora também pelo olhar da crítica. A leitura de Mukau pode servir de guia: segurar o camisa 7 a partir da organização coletiva, sem perseguições individuais que abram buracos no sistema.

Para a RD Congo, a noite de Houston vale mais do que um ponto na tabela. O time africano, que encara a Colômbia na próxima terça, leva para o segundo jogo a convicção de que consegue neutralizar um dos nomes mais pesados da história das Copas com disciplina tática. O discurso sobre envelhecimento dos ídolos reforça um traço desta edição: seleções menos badaladas se sentem autorizadas a tratar lendas como adversários comuns, dentro de um plano maior.

O impacto também se projeta na imagem pública de Cristiano. Cada gesto, finalização e arrancada passa a ser avaliado sob a lente da longevidade, tema que acompanha sua carreira desde os 35 anos. O atacante, que constrói boa parte de sua narrativa em cima da capacidade de desafiar o relógio, enfrenta agora rivais que declaram abertamente não temê-lo como antes.

Se conseguir o gol que o colocará isolado na história das Copas, ele responderá em campo à análise de Mukau. Se passar em branco, verá crescer a impressão de que o Mundial de 2026 marca o início de uma nova fase, em que o respeito permanece, mas o medo diminui.

Recorde em jogo e um debate em aberto

O calendário oferece pouco tempo para descanso e muita margem para narrativa. Em seis dias, Portugal volta ao NRG Stadium para enfrentar o Uzbequistão diante de um público que sabe do recorde em jogo e das dúvidas em torno do seu camisa 7. A RD Congo viaja para encarar a Colômbia com a missão de provar que o plano coletivo resiste a outros tipos de ataque.

Cristiano chega ao segundo jogo pressionado a transformar presença em impacto. A seleção portuguesa tenta equilibrar lealdade à sua maior estrela com a necessidade de se adaptar a um jogador diferente daquele que brilhou em 2010 ou 2014. Técnicos, torcedores e rivais observam uma questão que segue sem resposta definitiva: até onde a história e o faro de gol de um ídolo conseguem compensar o peso dos anos em uma Copa do Mundo cada vez mais intensa?

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