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Trump diz que Brasil está “perigoso politicamente” e cita possível prisão de Bolsonaro Jr.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirma nesta quarta-feira (17/6), na cúpula do G7 em Evian, que o Brasil está “perigoso politicamente”. Em entrevista coletiva, ele menciona a possível prisão de um “Bolsonaro Jr.” e expõe, em público, o clima de tensão entre os dois países.

G7 vira palco para recado a Lula e recado ao Brasil

Trump fala diante de jornalistas num hotel às margens do lago de Genebra, depois de encontros reservados com líderes do G7. Questionado sobre se tratou com Luiz Inácio Lula da Silva das novas tarifas impostas por Washington ao Brasil e da classificação de facções brasileiras como organizações terroristas, ele evita entrar em detalhes sobre a pauta econômica. Prefere mirar a política doméstica brasileira e transformar a coletiva em comentário sobre o cenário eleitoral no país.

O presidente americano afirma que passa “bastante tempo” com Lula em Evian, mas diz que não discute diretamente as tarifas ou o status do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV). Em vez disso, traz à mesa os Bolsonaro, ainda centrais na polarização brasileira. “Ouvi dizer que prenderam alguém que estava concorrendo a um cargo hoje”, afirma, sem citar nome. Em seguida, se corrige apenas em parte: “Acabei de me despedir dele [de Lula] e ouvi que prenderam o Bolsonaro Jr. Ele estava indo bem nas pesquisas e o prenderam porque fez uma declaração no Texas. Ou prenderam, ou querem prendê-lo”.

A frase confunde os próprios personagens. Hoje, o principal rival de Lula nas pesquisas é o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência e herdeiro político do bolsonarismo. O ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado em setembro por tentativa de golpe de Estado, cumpre pena em regime de prisão domiciliar humanitária. Eduardo Bolsonaro, outro filho, acaba de ser condenado pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) por coação no curso do processo, acusado de articular, em solo americano, retaliações do governo Trump contra o Brasil para tentar interferir no julgamento do pai.

O amálgama de nomes e processos ajuda a explicar o diagnóstico de Trump sobre o Brasil. “Eles jogam duro”, afirma, numa frase que deixa no ar se ele se refere ao Judiciário, ao governo Lula ou ao sistema político como um todo. Logo em seguida, porém, volta o foco para casa e faz um paralelo com sua própria agenda: “Mas ninguém joga mais duro do que os Estados Unidos. Olha, nossas eleições são totalmente fraudadas. Temos eleições manipuladas”. A associação reforça a estratégia de usar o caso brasileiro como espelho para suas disputas internas.

Tarifas, terrorismo e a maior derrota diplomática de Lula

As declarações ocorrem em meio à pior fase da relação entre Brasília e Washington desde o início do terceiro mandato de Lula. Desde 2025, o governo Trump impõe um “tarifaço” sobre produtos brasileiros, que atinge setores como aço, alumínio e manufaturados e encarece exportações em até 25%. Em 16 de junho, a Casa Branca volta à carga e ameaça ampliar a sobretaxa para uma nova lista de itens, citando o Pix e outros serviços de pagamento eletrônico, regras de comércio digital, tarifas consideradas “injustas”, falhas no combate à corrupção, desmatamento ilegal e barreiras ao etanol americano.

O governo americano mantém uma consulta pública até 1º de julho para ouvir empresas e organizações sobre as medidas. Uma audiência está marcada para 6 de julho, antes da decisão final sobre a extensão das tarifas. O Brasil tenta, nos bastidores do G7, mitigar o impacto das novas barreiras, mas entra na conversa em posição fragilizada. Em 5 de junho, a Casa Branca oficializa a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas internacionais, um duro revés para a diplomacia brasileira, que tenta evitar há mais de um ano esse enquadramento.

No Itamaraty, a designação é vista como a maior derrota de Lula na relação com Trump desde o tarifaço. O selo de terrorismo amplia a cooperação policial, facilita bloqueio de ativos no exterior e endurece exigências de due diligence para empresas que operam em áreas sob influência das facções. Para o grupo político hoje liderado por Flávio Bolsonaro, a decisão é uma vitória: o bolsonarismo defende, desde o governo do pai, o enquadramento das facções como terroristas e acusa o PT de leniência com o crime organizado.

A condenação de Eduardo Bolsonaro pelo STF, na véspera das falas de Trump, adiciona combustível político a essa disputa. Por unanimidade, os ministros consideram que o ex-deputado tenta intimidar autoridades brasileiras ao articular sanções americanas justamente na pauta que hoje domina o G7: comércio, tarifas e segurança. A leitura em Brasília é que o presidente dos EUA resgata o episódio e, ao falar em “prisão” de um “Bolsonaro Jr.”, busca reforçar a narrativa de perseguição a aliados no exterior e em casa.

Impacto político imediato e pressão sobre o xadrez eleitoral

O efeito prático das declarações é imediato. No Brasil, aliados de Bolsonaro transformam a fala em prova de que a disputa eleitoral entra no radar das grandes potências. Petistas acusam Trump de interferência indevida e veem tentativa de deslegitimar investigações e decisões judiciais. Em ano pré-eleitoral, com pesquisas apontando Flávio Bolsonaro na casa de dois dígitos e Lula ainda à frente, qualquer gesto externo pesa no cálculo de campanha.

No plano econômico, a narrativa de que o Brasil está “perigoso politicamente” preocupa investidores e negociadores que já lidam com a incerteza das tarifas. Exportadores de carne, aço, etanol e bens industriais aguardam, nas próximas semanas, sinais concretos de Washington sobre a aplicação da sobretaxa de 25%. Bancos e fundos monitoram o risco de que a classificação do PCC e do CV como terroristas leve a exigências mais duras de compliance e encareça operações de crédito e seguro ligadas ao país.

A diplomacia brasileira trabalha para mostrar que, apesar da temperatura política, instituições funcionam e contratos são respeitados. O desafio é conciliar esse discurso com um cenário em que o ex-presidente cumpre prisão domiciliar, um filho é condenado por coação, outro lidera a oposição e o presidente dos Estados Unidos fala em público sobre a possível prisão de um “Bolsonaro Jr.”. O quadro alimenta dúvidas sobre estabilidade regulatória e previsibilidade de políticas, fatores centrais para decisões de investimento de longo prazo.

O que vem depois de Evian

O encontro de Lula e Trump em Evian não produz, até aqui, um gesto de distensão. Não há anúncio de recuo nas tarifas nem sinal de que Washington vai rever a designação de PCC e CV como grupos terroristas. A Casa Branca mantém o calendário: consulta pública até 1º de julho, audiência no dia 6 e decisão “no verão do Hemisfério Norte”, segundo assessores.

Em Brasília, o Planalto prepara resposta diplomática às falas de Trump e avalia reforçar o lobby junto a congressistas americanos e ao setor privado, que teme perda de competitividade com o encarecimento de insumos brasileiros. No front interno, a oposição tenta capitalizar o aval simbólico do presidente dos EUA ao discurso de perseguição, enquanto o governo aposta na narrativa de que não aceita “intromissão” externa em processos judiciais. A frase de Trump sobre um Brasil “perigoso politicamente” ecoa além de Evian e deixa no ar uma pergunta incômoda: quem transforma a política brasileira em risco, e quem se beneficia desse perigo?

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