Vini Jr evita derrota, mas expõe fragilidade do Brasil na estreia
A Seleção Brasileira estreia na Copa do Mundo de 2026 com empate por 1 a 1 contra Marrocos, nesta 14ª de junho, no MetLife Stadium, nos Estados Unidos. O gol de Vini Jr evita a derrota, mas não esconde as dificuldades do time de Carlo Ancelotti no meio-campo e na criação de jogadas.
Brasil sofre, e estrela do Real Madrid salva o resultado
O jogo começa com Marrocos à vontade em Nova Jersey. A equipe africana pressiona a saída de bola, ocupa o campo de ataque e controla o ritmo desde os primeiros minutos. O Brasil parece preso, recua demais e assiste ao adversário ditar o jogo em um estádio com mais de 70 mil torcedores.
O gol marroquino, ainda no primeiro tempo, traduz o cenário. Ayyoub Bouaddi, meia de 18 anos, circula entre as linhas brasileiras, recebe livre na entrada da área e participa da jogada que abre o placar. O meio-campo formado por Casemiro, Bruno Guimarães e Paquetá reage sempre um segundo atrasado, sem conseguir proteger a defesa nem oferecer opções limpas na construção.
Carlo Ancelotti vive sua primeira noite de Copa como técnico de seleção sob pressão. O Brasil chega ao torneio nos Estados Unidos como candidato ao título, tenta se recuperar do fracasso em 2022 e convive com a expectativa por um modelo de jogo mais equilibrado. Em campo, porém, a equipe passa longos períodos encurralada e depende de lançamentos e ações individuais.
Vini Jr, protagonista da temporada europeia pelo Real Madrid, assume quase sozinho a responsabilidade ofensiva. Ele recebe cercado por dois, às vezes três marcadores, recua para buscar a bola e tenta acelerar pelas pontas. As jogadas mais perigosas passam por seus pés, confirmando a leitura do francês “L’Équipe”, que vê no camisa 7 o motor de uma seleção travada.
O empate vem em um desses momentos de rebeldia individual. Vini conduz da esquerda para o centro, vence o primeiro marcador, corta o segundo e finaliza com precisão. O lance muda o humor no estádio e altera a narrativa de uma derrota provável. O espanhol “Marca” resume a atuação: o brasileiro “vem em socorro da Canarinha” e aparece “no momento mais delicado” do time.
Críticas ao meio-campo expõem dilema do modelo de jogo
A repercussão internacional é imediata e dura. Na Inglaterra, a “BBC” afirma que o Brasil passa “longos períodos” sendo superado por Marrocos e está distante do futebol esperado de um favorito ao título. O comentarista Tim Vickery sintetiza a impressão geral: “Aqui temos um caso da estrela salvando o time”.
A análise não fica restrita ao resultado. Relatos de Espanha, França, Itália e Argentina convergem em um ponto: o meio-campo brasileiro não controla o jogo. O “AS” descreve os minutos iniciais como “próximos de um pesadelo” para a equipe de Ancelotti e acusa a seleção de confiar demais na capacidade de seus craques. Casemiro e Bruno Guimarães, segundo o jornal, sucumbem à superioridade numérica marroquina. Paquetá, escalado para jogar entre as linhas, é classificado como “errático” e “displicente”.
A italiana “Gazzetta dello Sport” se pergunta se “é tudo isso que o Brasil tem a oferecer”. O tradicional diário vê lentidão, dificuldade para controlar o ritmo e dependência de lampejos individuais. O portal “The Athletic” vai além e avalia que o empate é melhor do que o desempenho apresentado. Em texto pós-jogo, questiona se os principais candidatos ao título realmente têm motivos para temer os pentacampeões após a estreia.
As críticas reforçam um debate que acompanha a seleção desde o início do ciclo. O Brasil chega aos Estados Unidos com um elenco repleto de jogadores em grandes clubes da Europa, acostumados a estruturas táticas rígidas e sistemas de pressão coordenada. Em campo, porém, o time se mostra espaçado, concede campo no setor central e não consegue transformar posse em controle.
O desempenho marroquino ajuda a desnudar essas fragilidades. A seleção africana, semifinalista em 2022, repete a intensidade e a organização que a tornaram uma das histórias da Copa passada. A marcação agressiva na saída de bola brasileira e a atuação madura de Bouaddi, apontado pelo “The Athletic” como um dos melhores em campo, colocam o Brasil em permanente desconforto. O argentino “Olé” resume o quadro ao destacar que os pentacampeões só conseguem um empate contra um adversário que mostra “coragem e competitividade” durante os 90 minutos.
Pressão por mudanças e papel central de Vini Jr nos próximos jogos
A estreia com empate altera o clima em torno da seleção ainda na primeira rodada. A equipe entra na Copa do Mundo com a missão explícita de retomar o protagonismo após 24 anos sem título, desde 2002, e agora precisa pontuar contra o Haiti e fechar a fase de grupos com mais segurança. A tabela é curta, e qualquer tropeço adicional pode mudar o cruzamento nas oitavas de final.
Internamente, o jogo contra Marrocos funciona como alerta imediato. A comissão técnica volta para a base da seleção com a obrigação de encontrar respostas no meio-campo, setor apontado como ponto fraco por praticamente todas as análises estrangeiras. Opções de jogadores mais jovens ou com características de maior mobilidade ganham espaço nas discussões, enquanto nomes consolidados passam a ser questionados.
Carlo Ancelotti admite publicamente que o desempenho fica abaixo do esperado e lembra que precisa de ajustes rápidos. A “BBC” destaca que o treinador reconhece as dificuldades e promove mudanças ainda no intervalo, em busca de mais equilíbrio. O “AS” avalia que o empate reacende dúvidas sobre o funcionamento da equipe e prevê trabalho intenso para encontrar a melhor formação ao longo do torneio.
O protagonismo de Vini Jr, por outro lado, reforça sua condição de líder técnico da seleção. O gol da estreia não vale apenas um ponto na tabela. Ele mantém vivo o projeto esportivo do Brasil em um grupo que poderia começar com pressão máxima. A atuação coloca o atacante em evidência e sustenta a expectativa de que ele será o eixo ofensivo da equipe nas próximas partidas.
A pergunta que fica para o restante da Copa é se o Brasil conseguirá transformar um time dependente de uma estrela em uma seleção capaz de competir em bloco. O empate em 1 a 1 com Marrocos, no MetLife Stadium, não elimina o sonho do hexa, mas deixa claro que o talento individual, sozinho, não basta em 2026.
