Ciencia e Tecnologia

Motorola Razr Fold estreia no Brasil com acertos técnicos e preço salgado

O jornalista Wellington Arruda testa em junho de 2026 o Motorola Razr Fold, primeiro dobrável em formato de livro da marca no Brasil, e encontra um aparelho maduro, potente e caro. Com tela grande, bateria robusta e câmeras consistentes, o modelo mira o topo do mercado e rivaliza diretamente com o Galaxy Z Fold 7.

Motorola chega atrasada, mas entra pronta na briga

A estreia da Motorola nesse formato de dobrável não acontece no vácuo. Desde 2019, quando relança o Razr em corpo retrô e tela flexível vertical, a marca apanha e aprende com problemas de dobradiça, fragilidade e acabamento. O Razr Fold nasce como síntese desses ajustes e tenta corrigir de saída o que ainda incomoda no segmento: autonomia limitada, multitarefa confusa e sensação de protótipo caro.

O aparelho adota o desenho conhecido do “livro” dobrável, mais alto e estreito fechado, que se abre em uma tela interna ampla. A Motorola abraça o que o mercado já legitima, mas dá personalidade com bordas que misturam cantos arredondados e áreas ligeiramente mais afiadas, módulo de câmera dominante e laterais com aparência de aço escovado. Na unidade branca testada por Arruda, o conjunto transmite um aspecto de topo de linha que a linha Razr ainda não tinha alcançado.

O Razr Fold não é o mais fino nem o mais leve da categoria. Passa dos 240 gramas e é meio milímetro mais espesso que o principal rival quando aberto. No bolso, lembra o usuário a todo momento de que é um dobrável. A compensação está na construção sólida: a dobradiça se mostra firme, abre e fecha com suavidade e permite que o telefone fique apoiado em diferentes ângulos, sem folgas ou estalos que marcaram gerações passadas. “O Razr Fold é muito firme e, ao mesmo tempo, suave”, relata o jornalista.

Na traseira, a Motorola repete o acabamento mais macio que adotou na linha Edge e em alguns Moto G, o que melhora a pegada e reduz a sensação de que o aparelho escorrega. O vidro Gorilla Glass Ceramic 3 protege a tela externa, e a certificação IP49 garante alguma resistência contra água e poeira, embora ainda deixe claro que partículas sólidas seguem sendo um ponto sensível para um dispositivo cheio de frestas.

Tela grande, caneta e bateria de 6.000 mAh mudam o jogo

O impacto mais imediato do Razr Fold aparece quando a tela interna abre por completo. O vinco segue visível, como em praticamente todos os dobráveis, mas a pressão da dobradiça para manter o painel esticado reduz a sensação de “valeta” no meio da imagem no uso cotidiano. Na prática, a combinação de espaço e fluidez transforma o aparelho em uma espécie de mini-tablet sempre à mão.

Arruda destaca a multitarefa como um dos maiores acertos. A interface permite usar até três aplicativos lado a lado de forma estável e intuitiva, com a possibilidade de salvar combinações de apps para abrir tudo com um toque. Janelas flutuantes completam o pacote: até quatro podem ficar sobre a tela principal enquanto outros três programas permanecem em segundo plano. O resultado é uma rotina em que responder mensagens, acompanhar uma reunião e monitorar redes sociais se torna menos trabalhoso em um celular.

A compatibilidade com a Moto Pen Ultra adiciona outra camada a essa proposta de produtividade. A caneta, incluída na caixa no Brasil mas vendida separadamente por R$ 999 no site da Motorola, oferece 4.096 níveis de pressão, se conecta por Bluetooth e atua como ponteiro, ferramenta de escrita e controle remoto da câmera. Dois toques na parte inferior da caneta fazem uma captura de tela, a ponta pode acionar uma lupa e o botão lateral dispara fotos à distância. Todo esse uso ocorre diretamente na tela dobrável, o que exige cuidado do dono com a fragilidade natural desse tipo de painel.

Por trás da mobilização em torno de caneta e tela está uma escolha de engenharia que influencia mais a rotina: a bateria de silício-carbono de 6.000 mAh. Em um segmento acostumado a autonomias medíocres, o Razr Fold oferece um dia e meio de uso moderado, com algo entre 8 horas de tela ligada por carga, segundo o teste. Arruda relata tirar o celular da tomada por volta das 9h e só voltar ao carregador no almoço do dia seguinte, mesmo sem poupar streaming, câmera e jogos mais pesados.

O tempo de recarga acompanha o fôlego da bateria. Com carregador de 80 watts, o aparelho atinge cerca de 36% em 15 minutos e chega perto de 88% em 45 minutos, quando reduz a velocidade para preservar a saúde do componente. Uma carga completa leva algo em torno de 1h05. Há ainda suporte a carregamento sem fio de 50 W e recarga reversa de 5 W, que permite alimentar fones ou um relógio. Faltam apenas os ímãs traseiros ao estilo MagSafe, presentes no iPhone e nos Pixel mais recentes.

Desempenho forte, câmeras maduras e IA que ainda engatinha

A Motorola traz ao Brasil só uma versão do Razr Fold, com 16 GB de RAM do tipo LPDDR5X e 1 TB de armazenamento interno. O processador escolhido é o Snapdragon 8 Gen 5, que não figura no topo absoluto da hierarquia atual de chips, mas entrega potência de sobra e maior eficiência energética. Na prática, o dobrável fica atrás do Galaxy Z Fold 7 em testes sintéticos, porém mantém jogos pesados estáveis e não esquenta tanto quanto o Motorola Signature, com quem compartilha boa parte do hardware.

O pacote de câmeras repete a aposta do modelo premium da marca. São três sensores traseiros de 50 megapixels cada, com lente principal, ultrawide e zoom óptico de 3x, além de duas câmeras frontais de 20 MP e 32 MP. Usando a tela externa como visor, o usuário consegue se fotografar com as lentes principais, recurso que eleva o padrão das selfies. “No geral, ainda mais se tratando da primeira geração de dobráveis da Motorola nesse formato, o Razr Fold tem câmeras bem impressionantes”, avalia Arruda.

As imagens do sensor principal exibem bom contraste, muitos detalhes e cores vibrantes, com leve exagero que tende a agradar o público geral. À noite, o aparelho segura bem o ruído e mantém o desfoque de fundo natural. A ultrawide herda parte dessas qualidades, mas produz arquivos mais ruidosos em baixa luz e sofre com distorções nas bordas. O zoom óptico se torna destaque ao entregar fotos nítidas em 3x e bons resultados até 6x de ampliação digital. Acima disso, a inteligência artificial entra mais forte em cena e as limitações aparecem com clareza.

Nos vídeos, o Razr Fold grava em até 8K a 30 quadros por segundo e oferece suporte a Dolby Vision, padrão de imagem de alta faixa dinâmica usado em TVs mais modernas. Ainda assim, o melhor equilíbrio entre nitidez e estabilidade surge no 4K. Apple e Samsung seguem à frente em consistência de filmagem, mas a Motorola encurta a distância com avanços visíveis na estabilização e na captura de cores.

No software, o aparelho sai de fábrica com Android 16 e promessa de sete atualizações do sistema, algo raro no ecossistema Android e alinhado às ambições da marca no segmento premium. A empresa embute o Moto AI, pacote de recursos de inteligência artificial que resume notificações de aplicativos de comunicação, ouve aulas e reuniões para gerar resumos, cria imagens e monta playlists, hoje limitadas ao Amazon Music. Na prática, o sistema responde mais devagar que assistentes como o Gemini e ainda erra com frequência, o que o deixa com cara de complemento, não de centro da experiência.

Preço trava aposta no dobrável da Motorola

O Razr Fold chega ao Brasil por R$ 16 mil. O valor coloca o aparelho direto no patamar mais alto do mercado nacional de smartphones e o aproxima de rivais consolidados, inclusive o próprio Galaxy Z Fold 7. Em troca, o comprador leva para casa o pacote completo: caneta Moto Pen Ultra, case de proteção e carregador rápido ainda estão na caixa, em contraste com concorrentes que cortam acessórios em nome de sustentabilidade ou margens maiores.

Na prática, a combinação de design refinado, bateria generosa, multitarefa funcional e câmeras maduras mostra que a Motorola não estreia improvisando no formato de livro. A empresa chega atrasada, mas aterrissa com um produto capaz de disputar espaço real nas vitrines e nas mãos de quem busca um celular para trabalhar, consumir conteúdo e, às vezes, substituir o tablet. O preço, porém, limita o público a entusiastas de tecnologia e a um recorte de profissionais dispostos a investir alto em um dispositivo que ainda carrega incertezas sobre durabilidade da tela dobrável e avanço da IA embarcada.

Arruda resume o dilema com franqueza: o Razr Fold “acerta muito mais do que erra”, mas não é um aparelho em que ele colocaria o próprio dinheiro nas condições atuais. A expectativa agora recai sobre os próximos passos da Motorola. A recepção do mercado brasileiro deve influenciar futuras gerações, ajustes de preço e a evolução do Moto AI. A marca prova que sabe fazer um dobrável grande competitivo; o que falta descobrir é quando, e para quantas pessoas, essa tecnologia vai caber no bolso.

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