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Com 98% das urnas, eleição no Peru tem Keiko e Sánchez em empate técnico

Keiko Fujimori reassume a liderança na apuração da eleição presidencial peruana deste domingo (7), mas a vantagem sobre Roberto Sánchez é mínima. Com 98,327% das urnas, a direita e a esquerda se separam por apenas 4.519 votos, em uma disputa que expõe um país fraturado e um sistema eleitoral pressionado por desafios logísticos.

País dividido à espera de um resultado definitivo

O Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE) informa, nesta segunda-feira (8), que Keiko Fujimori soma 50,012% dos votos válidos, enquanto Roberto Sánchez aparece com 49,988%. A diferença, inferior a um décimo de ponto percentual, mantém o Peru em suspenso e adia qualquer gesto de vitória ou de derrota definitiva.

O empate técnico já era previsto pelas pesquisas na véspera do segundo turno, mas o aperto dos números amplia a sensação de incerteza em Lima e nas principais cidades do país. A eleição se torna um novo capítulo de uma década marcada por presidentes derrubados, dissolução do Congresso e sucessivos escândalos de corrupção.

Nas primeiras horas após o fechamento das urnas, Keiko abre uma frente confortável, impulsionada pelo voto urbano e por centros tradicionais de apoio conservador. À medida que as atas das zonas rurais chegam aos centros de contagem, Sánchez encurta a diferença e chega a virar o jogo em determinados momentos da madrugada, apoiado por comunidades andinas, ribeirinhas e regiões de selva historicamente alinhadas à esquerda.

A retomada da liderança por Keiko acontece com a entrada mais robusta dos votos do exterior na apuração oficial. Entre peruanos que vivem em outros países, 63,4% escolhem a candidata de direita, contra 36,5% de Sánchez, com 94,495% das urnas internacionais apuradas. O peso dessa diáspora, espalhada por Estados Unidos, Europa e países vizinhos, ganha caráter decisivo em uma disputa resolvida voto a voto.

O ONPE insiste em adotar tom de cautela. Autoridades eleitorais afirmam que o resultado final pode levar semanas, até que todas as atas cheguem, sejam verificadas e eventuais contestações sejam analisadas. Em um país traumatizado por denúncias de fraude e pela judicialização da política, cada décimo de ponto é observado com desconfiança por militantes e lideranças partidárias.

Geografia difícil e voto em papel atrasam a definição

A lentidão da apuração expõe o choque entre um sistema eleitoral baseado em cédulas impressas e a geografia de um país cortado por montanhas, rios e selvas densas. O Peru não utiliza voto eletrônico. Cada voto é registrado em papel, lacrado em urnas e transportado até centros regionais, que concentram a contagem oficial.

Em trechos da Amazônia peruana, as urnas seguem por barco durante horas para alcançar o ponto de coleta mais próximo. Em vilarejos de altitude, funcionários eleitorais ainda percorrem trilhas em lombo de burros para entregar as atas. Essa logística prolonga a disputa para além da noite eleitoral e abre espaço para narrativas de suspeição, sobretudo quando a diferença entre os candidatos se mede em poucos milhares de votos.

O cenário é particularmente sensível para Keiko Fujimori, herdeira política do ex-presidente Alberto Fujimori, que governa nos anos 1990 sob regime autoritário e cumpre pena por violações de direitos humanos e corrupção. Críticos associam sua candidatura ao risco de retrocessos institucionais. Aliados argumentam que ela representa estabilidade econômica, compromisso com o livre mercado e aproximação com investidores estrangeiros.

Roberto Sánchez apresenta uma plataforma de esquerda voltada para maior presença do Estado na economia, revisão de contratos de mineração e fortalecimento de programas sociais em áreas rurais. Seu crescimento nas comunidades andinas evidencia a insatisfação com desigualdades persistentes e a percepção de abandono por parte dos governos de Lima. A escolha entre os dois projeta rumos opostos para o modelo econômico peruano, hoje baseado em commodities e forte participação de capital estrangeiro.

Nas ruas da capital, o clima é de expectativa tensa. Comerciantes acompanham a apuração pelas telas de televisão ligadas o dia inteiro. Pequenos empresários calculam o impacto de uma guinada política brusca. Eleitores que votam em Fujimori temem mudanças em contratos e investimentos. Apoidores de Sánchez falam em oportunidade histórica de corrigir distorções sociais, sobretudo nas regiões que concentram pobreza e serviços públicos precários.

Sem vencedor claro, instabilidade política continua

A ausência de um resultado definido amplia a percepção de que o Peru permanece preso a um ciclo de instabilidade. Nos últimos cinco anos, o país troca de presidente em ritmo acelerado, por renúncias, impeachments e crises de governabilidade. A nova gestão, seja de Keiko ou de Sánchez, herda um Congresso fragmentado e uma sociedade dividida.

A vitória por margem tão estreita tende a fragilizar a legitimidade do próximo governo desde o primeiro dia. A oposição, de qualquer lado, encontra terreno fértil para questionar a representatividade do vencedor e recorrer a tribunais e organismos eleitorais. A possibilidade de pedidos de recontagem, contestação de atas e alegações de irregularidades não está descartada e pode alongar o impasse.

Analistas ouvidos pela imprensa local apostam em um período de transição tenso, com negociações intensas entre partidos, Forças Armadas em postura de observação e pressão constante de movimentos sociais. O resultado final também pesa na relação com vizinhos sul-americanos e com parceiros estratégicos como Estados Unidos, China e União Europeia, atentos a eventuais mudanças em política externa, mineração e meio ambiente.

Nos próximos dias, o foco se desloca dos números parciais para os recursos legais e para a credibilidade das instituições encarregadas de proclamar o vencedor. A pergunta que se impõe em Lima, em vilarejos da serra e no voto enviado do exterior é se o próximo governo conseguirá romper o ciclo de presidentes de curta duração. O país assiste à apuração em câmera lenta na esperança de que, desta vez, o resultado produza mais do que um novo mandatário: produza algum grau de estabilidade.

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