Brasil estreia na Copa sob Ancelotti cercado por 24 anos de lições
A seleção brasileira estreia hoje na Copa do Mundo de 2026, às 19h (de Brasília), contra o Marrocos, na Alemanha, carregando um jejum de 24 anos sem título. Sob comando de Carlo Ancelotti, o time entra em campo com a missão explícita de transformar cinco fracassos recentes em manual de sobrevivência para voltar ao topo.
Da euforia ao divã: como o passado molda a estreia
O Brasil chega à Alemanha empurrado por dois números que se chocam. De um lado, cinco títulos mundiais. De outro, cinco Copas seguidas sem passar das quartas de final desde 2002. A estreia contra um Marrocos em alta, vice-líder africano no ranking da Fifa e logo atrás da seleção brasileira na lista mundial, expõe o tamanho do desafio.
O roteiro de 2006 ainda serve de alerta. Naquele Mundial, também na Alemanha, a delegação se rende ao oba-oba em Weggis, na Suíça. Treinos viram eventos, jogadores perdem privacidade e concentração, torcedora invade o campo para abraçar Ronaldinho Gaúcho. O quadrado mágico chega como espetáculo garantido e sai como promessa vazia, com medalhões fora de forma e sem espaço real para a juventude. Zidane domina o jogo em Frankfurt, Henry marca e o Brasil cai nas quartas.
O pêndulo vai ao extremo oposto em 2010. Dunga fecha a seleção, rompe com a imprensa e transforma o discurso de patriotismo em blindagem. O ambiente fica pesado, a pressão interna aumenta. Faltam Neymar e Ganso na lista e falta controle emocional na hora decisiva. Um choque entre Júlio César e Felipe Melo abre caminho para a Holanda, a virada vem rápido, e a expulsão do volante por falta violenta em Robben sela mais uma eliminação nas quartas.
A Copa de 2014 expõe o país ao constrangimento global do 7 a 1. O placar vira metáfora do atraso estrutural. A figura de Felipão concentra críticas sobre o nível dos técnicos, a formação de base e a falta de repertório tático. Em campo, a seleção não encontra alternativas, perde Neymar por lesão nas quartas e desmorona emocionalmente na semifinal contra a Alemanha, em Belo Horizonte, diante de 58 mil torcedores.
O ciclo seguinte, com Tite, devolve status de favorita em 2018. A campanha nas Eliminatórias é firme, o ambiente é controlado, o discurso é moderno. Na Rússia, porém, o treinador admite depois que demora para mexer nas peças em um torneio de tiro curto. O Brasil dorme no primeiro tempo contra a Bélgica, sai perdendo por 2 a 0 e reage tarde. Domina o segundo tempo, perde chance clara com Renato Augusto e reclama de pênalti em Gabriel Jesus, sem sucesso. A lição fica clara: em mata-mata, administrar desvantagem grande vira corrida contra o relógio.
O golpe seguinte vem em 2022, no Catar. O trabalho de Tite é mantido, o grupo confia no próprio estilo e a seleção chega com um dos elencos mais fortes da década. Contra a Croácia, porém, falta senso de urgência. O Brasil controla o jogo, abre o placar na prorrogação, a quatro minutos do fim, e não “fura a bola”. Se lança ao ataque, perde a posse e sofre o empate em contra-ataque. Nos pênaltis, Rodrygo e Marquinhos desperdiçam, e a seleção volta para casa novamente depois das quartas.
Ancelotti tenta blindar grupo e evitar velhas armadilhas
Carlo Ancelotti assume a seleção em meio a um ciclo turbulento, marcado por troca de técnicos, pressão política e dúvidas sobre a renovação do elenco. O italiano tem um ano cheio de trabalho até a Copa e usa esse período para impor rotina mais silenciosa e objetiva. Nada de palco aberto permanente, nada de clausura total. O discurso interno é de equilíbrio.
Nos treinos na Alemanha, a comissão técnica reduz acessos, controla presença de convidados e limita ações de marketing em dias de atividade tática. A ideia é simples: transformar o vestiário em espaço de trabalho, não em extensão de redes sociais. A preparação inclui mais sessões voltadas ao aspecto psicológico, com foco em tomada de decisão sob pressão, e simulações de jogos eliminatórios, já que a Copa de 2026 tem 48 seleções e um mata-mata a mais no caminho até a final.
Ancelotti insiste em repetidas conversas com líderes do grupo para tratar de dois fantasmas recentes. O primeiro é o apagão coletivo, como em 2014. O segundo é a gestão do placar, tema central nas análises da queda para a Croácia em 2022. O treinador cobra frieza para controlar o jogo quando estiver em vantagem e agressividade calculada nos momentos de desvantagem, evitando a ansiedade que marcou as derrotas para Bélgica e Holanda.
O histórico recente também reorganiza a hierarquia do elenco. Jogadores com mais rodagem em clubes europeus ganham espaço em posições-chave, e a promessa é mesclar protagonismo jovem com suporte de veteranos. A escolha do capitão e dos principais batedores de pênalti passa por estatísticas de desempenho em clubes e por avaliações de comportamento em treino, um reflexo direto dos traumas nas decisões por penalidades em 2014 e 2022.
O adversário da estreia reforça o clima de alerta. Marrocos chega embalado pela campanha histórica em 2022, quando alcança a semifinal, e se consolida como seleção mais sólida da África. Está logo atrás do Brasil no ranking da Fifa, em posição que reduz a distância simbólica entre um pentacampeão em busca de reconstrução e um emergente em plena ascensão.
Jejum, cobrança e o peso de uma geração
Os 24 anos sem título transformam a Copa de 2026 em divisor de águas para a seleção. A última taça vem em 2002, no Japão, com Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho como pilares de uma geração que hoje já está aposentada dos gramados. Desde então, cinco campanhas terminam antes da semifinal. O intervalo aproxima o Brasil de longos jejuns de potências como a Itália, que não conquista um Mundial desde 2006, e aumenta a impaciência de uma torcida acostumada a decidir.
Esse contexto redefine expectativas sobre a geração atual. Jogadores que chegam ao torneio com status de protagonistas sabem que não carregam apenas o peso de um título, mas também o de corrigir erros acumulados ao longo de duas décadas. O desempenho na Alemanha tem potencial para influenciar políticas de formação de base, critérios de escolha de treinadores e até o apetite de investidores em centros de treinamento.
A própria CBF passa a tratar a seleção principal como vitrine de um projeto mais amplo de modernização, iniciado de forma tímida após o 7 a 1 e ainda distante de modelos consolidados na Europa. Um bom resultado em 2026 fortalece a ideia de continuidade com Ancelotti ou com um sucessor da mesma escola. Um novo fracasso, sobretudo se vier com velhos vícios, pode reabrir a disputa interna por rumos e cargos.
O jogo contra o Marrocos é, na prática, o primeiro exame público desse reposicionamento. A reação a um eventual gol sofrido, a escolha das substituições e o comportamento da equipe com o placar a favor ou contra vão servir de termômetro imediato. Em uma Copa mais longa, com fase de grupos inflada e um mata-mata extra, qualquer sinal de desequilíbrio tende a ganhar proporções maiores.
O Brasil entra em campo hoje pressionado pelo calendário e pela memória recente. A estreia não decide um título, mas ajuda a definir se os últimos 24 anos ficam apenas como cicatriz ou se se transformam em ferida aberta por mais um ciclo. O salto entre nostalgia e reinvenção passa por 90 minutos contra um adversário que não teme gigantes. O Mundial de 2026 começa para a seleção com uma pergunta ainda sem resposta: o time de Ancelotti aprendeu, de fato, com os próprios tombos?
