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Morte da princesa Bajrakitiyabha abala futuro da monarquia tailandesa

A princesa Bajrakitiyabha Mahidol, 47, filha mais velha do rei Vajiralongkorn, morre na noite de 10 de junho de 2026, em Bangcoc, após mais de três anos de internação. O Palácio Real da Tailândia anuncia o falecimento nesta sexta-feira (11), atribuído à piora de uma infecção abdominal grave.

Velório no Grande Palácio e comoção em Bangcoc

O corpo da princesa, conhecida como Bha, é velado no Grande Palácio de Bangcoc, centro simbólico do poder tailandês, sob rígido protocolo e segurança reforçada. O funeral, ainda sem data detalhada, ocorre “com as mais altas honras, segundo a tradição real”, como informa o comunicado divulgado pelo Palácio Real na manhã desta sexta-feira. Milhares de pessoas se reúnem nas imediações do complexo, muitas vestidas de preto, em sinal de luto oficial.

O anúncio encerra um período de mais de três anos de incerteza. Bajrakitiyabha é internada após uma doença súbita, em 2022, e permanece desde então em estado grave, com informações oficiais escassas. No mês passado, o Palácio confirma que a princesa depende de aparelhos para manter as funções pulmonares e renais, além de medicação contínua, e admite que “seu estado continuou piorando”. A morte, agora confirmada, formaliza uma perda que parte da elite política e da diplomacia internacional já considera irreversível há meses.

Da carreira internacional ao papel central na família real

Promotora e diplomata de formação, Bajrakitiyabha constrói uma trajetória que ultrapassa as fronteiras da Tailândia. Ela estuda no Reino Unido, na Tailândia e nos Estados Unidos, onde obtém licenciatura em direito pela Universidade Cornell, em Nova York, uma das mais prestigiosas do país. De volta ao serviço público, assume funções no Ministério Público e na diplomacia, chegando ao posto de embaixadora da Tailândia na Áustria.

No cenário multilateral, ocupa cargos em órgãos ligados à ONU e se projeta como defensora dos direitos das mulheres e de grupos vulneráveis. Em discursos em Viena e Genebra, defende reformas no sistema prisional e políticas específicas para mulheres encarceradas, tema considerado sensível em boa parte da Ásia. Esse perfil técnico e internacional a diferencia do restante da família real, mais associado a funções cerimoniais e militares.

Como princesa, Bajrakitiyabha mantém uma agenda intensa de compromissos públicos. Ela aparece com frequência em cerimônias religiosas, visitas a províncias rurais e recepções oficiais a chefes de Estado estrangeiros. Fontes diplomáticas a descrevem como ponte entre o palácio e organismos internacionais. “Ela combinava conhecimento jurídico sólido com sensibilidade política rara”, afirma um ex-diplomata europeu que atua em Bangcoc e acompanha a princesa em reuniões com embaixadores, sob condição de anonimato.

A relação com o rei também alimenta expectativas. Filha única do primeiro casamento de Vajiralongkorn, ela é vista como figura de confiança do monarca e, em 2021, assume um cargo de alto escalão na guarda pessoal do rei. O gesto é interpretado por analistas locais como sinal de prestígio político e de possível preparação para maior protagonismo institucional.

Sucessão indefinida e impacto político

A morte da princesa reacende o debate sobre a sucessão no trono tailandês. Aos 73 anos, o rei Vajiralongkorn tem sete filhos de quatro casamentos, mas ainda não anuncia oficialmente um herdeiro. As regras tradicionais de sucessão favorecem homens, o que, na prática, limita o espaço de mulheres na linha sucessória, embora não o elimine por completo em cenários excepcionais. Bajrakitiyabha é frequentemente citada por estudiosos da monarquia como potencial figura de equilíbrio em eventual disputa interna.

Com sua morte, a família real perde uma integrante com trânsito relativamente pacificado entre elites políticas, comunidade internacional e parte da população urbana. A falta de definição clara sobre quem assume o protagonismo futuro abre margem para especulações. “A princesa representava uma espécie de ponte entre tradição e mundo globalizado. Sua ausência deixa um vazio difícil de preencher”, avalia um pesquisador tailandês de instituições monárquicas, ligado a uma universidade pública em Bangcoc.

O impacto é também simbólico. A Tailândia vive, desde a década passada, ciclos de mobilização popular que questionam abertamente o papel e os privilégios da monarquia, movimento inédito numa instituição protegida por leis rígidas de lesa-majestade. A figura de Bajrakitiyabha, com atuação em direitos das mulheres e experiência na ONU, ajuda a suavizar a imagem de uma estrutura frequentemente vista como distante. Seu falecimento remove um dos rostos mais apresentáveis da família real em um momento de escrutínio crescente.

No plano diplomático, embaixadas em Bangcoc preparam notas de condolências e delegações estrangeiras para o funeral. Países asiáticos e europeus, que mantêm histórico de cooperação com projetos da princesa na área de justiça criminal e gênero, sinalizam presença em alto nível na cerimônia. A previsão é de que os rituais se estendam por vários dias, seguindo calendários religiosos e cortesãos, o que mantém o tema no centro da agenda política interna.

Funeral, luto e incertezas à frente

O governo tailandês deve decretar período oficial de luto, com duração ainda em discussão entre assessores do Palácio e autoridades civis. A expectativa é que repartições públicas ajustem trajes e atividades cerimoniais por pelo menos 15 dias, enquanto emissoras de TV e rádio reduzem programação de entretenimento. Especialistas em protocolo real afirmam que o velório no Grande Palácio pode atrair dezenas de milhares de pessoas por dia, número comparável a funerais de altas figuras da monarquia nas últimas décadas.

Dentro do palácio, assessores trabalham para reorganizar agendas, redistribuir funções cerimoniais e definir quem assume parte das responsabilidades que pertencem à princesa, sobretudo nas frentes diplomática e de representação internacional. Organismos da ONU ligados a justiça criminal e direitos das mulheres estudam homenagens formais, como prêmios ou programas em nome de Bajrakitiyabha, para preservar o legado construído em mais de duas décadas de atuação pública.

A morte da princesa também pressiona o rei a lidar de forma mais explícita com a sucessão. Analistas ouvidos pela imprensa local apontam que, sem um herdeiro claramente anunciado, qualquer crise de saúde futura no topo da monarquia pode ampliar a instabilidade política. Até que Vajiralongkorn sinalize um plano concreto, a Tailândia acompanha o luto oficial com uma pergunta silenciosa: quem vai ocupar o espaço que Bajrakitiyabha deixa na estrutura de poder e na imagem pública da realeza.

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