Navios adotam rota arriscada em Omã com cobertura secreta dos EUA
Um número crescente de navios-tanque cruza o estreito de Hormuz por uma rota estreita e arriscada junto à costa de Omã desde maio de 2026. A passagem acontece no escuro, com sistemas de localização desligados e cobertura aérea secreta dos Estados Unidos, para manter o fluxo de petróleo aos mercados globais em meio à escalada de tensão com o Irã.
Uma pista única para o petróleo do Golfo
Por volta de 15 navios por dia entram e saem do Golfo usando o corredor omanense, segundo executivos do setor de navegação e dados de consultorias privadas. A maior parte das embarcações é de grande porte, carregada de petróleo que, em tempos normais, passaria pelo eixo central do estreito de Hormuz, hoje tratado como área minada por analistas ocidentais e por autoridades da região.
O novo traçado abraça a costa rochosa de Omã e, em alguns pontos, se estreita a apenas 800 metros, o suficiente para transformar qualquer erro de cálculo em risco real de colisão. Navios seguem praticamente em fila indiana, com tráfego de mão dupla autorizado, orientados a se cruzar apenas em trechos ligeiramente mais largos, sob coordenação americana.
O presidente dos EUA, Donald Trump, decide tornar pública a operação nesta quarta-feira (10), após semanas de sigilo. “No mês passado, ordenei que nosso Grande Exército Americano executasse uma missão secreta para apoiar navios-tanque de petróleo e outros navios comerciais através do estreito de Hormuz”, afirma em sua rede Truth Social. Ele diz que o esforço já permitiu a travessia de cerca de 200 navios e garantiu a chegada de 100 milhões de barris de petróleo aos mercados globais.
Dentro do setor, a percepção é de que se trata de uma adaptação forçada a um cenário em que a rota principal de Hormuz está sob ameaça constante. “Há uma quantidade enorme de atividade de navegação pelo estreito de Hormuz que está fora das notícias no momento”, relata Dan Smoot, diretor-executivo da Vantor, empresa que rastreia navios por imagens de satélite, em evento em Londres. Para ele, o mapa oficial de rotas já não reflete a movimentação real no mar.
Empresas de transporte, porém, não escondem o desconforto. John Stawpert, diretor marítimo da Câmara Internacional de Navegação, descreve o cenário como uma operação de alto risco. “É uma via navegável muito estreita e não há muito espaço para manobra, então estamos preocupados com as implicações de navegação dos navios que a utilizam”, afirma. Um executivo do setor compara a travessia a uma viagem noturna por estrada rural, com faróis apagados.
Mercado aliviado, tensão militar à flor da pele
A operação americana mira um objetivo imediato: evitar um choque de oferta em um dos mercados mais sensíveis do planeta. Desde o fechamento de parte da rota tradicional de Hormuz, cerca de 12 milhões de barris por dia deixam de chegar ao mercado, o equivalente a aproximadamente seis superpetroleiros diários. Em resposta, Iraque, Kuwait e Emirados Árabes Unidos mantêm uma ponte de saída com cerca de 3 milhões de barris por dia pelo estreito, segundo a consultoria Energy Aspects.
O redesenho das rotas inclui uma prática que se expande rapidamente: os chamados “trânsitos às escuras”. Embarcações cruzam o estreito com o GPS desligado, para reduzir a chance de detecção pelas forças iranianas. Analistas veem esse movimento como um colchão para os preços internacionais do petróleo. Ao manter a oferta em circulação, ainda que de forma opaca, armadores e produtores evitam uma disparada imediata nas cotações.
Os números ilustram a mudança. Nos primeiros nove dias de junho, quase 2 milhões de barris por dia são exportados do Golfo por meio de viagens curtas e sucessivas, combinadas com transferências navio a navio no golfo de Omã, quase o dobro do volume observado em maio. A consultoria Kpler estima que esse fluxo já responda por 80% do comércio de petróleo não iraniano que deixa a região.
Imagens de satélite da Agência Espacial Europeia, analisadas pelo Financial Times, mostram, em 2 de junho, ao menos quatro encontros de grandes embarcações na área de ancoragem de Fujairah, nos Emirados Árabes, a 130 quilômetros a leste de Hormuz. Um mês antes, não havia registro desse tipo de reunião em alto-mar na mesma área. Em 6 de junho, novas imagens identificam pelo menos nove navios realizando transferência de carga ao largo da cidade portuária de Sohar, em Omã.
Enquanto petroleiros mais dispostos a assumir riscos fazem o trecho curto por Hormuz até os terminais de carregamento, navios mais conservadores aguardam em zonas de transferência ao largo de Sohar e de Fujairah. O resultado é uma logística em camadas, que permite que o petróleo continue a sair, mas à custa de operações complexas, discretas e mais caras.
A escalada militar acompanha esse rearranjo silencioso. Há cerca de duas semanas, os EUA colocam em vigor o esquema de cobertura aérea para embarcações que usam a rota omanense. Helicópteros Apache e drones de vigilância passam a monitorar a faixa estreita de mar. Na segunda-feira (9), um desses Apaches é atingido por um drone iraniano, segundo autoridades americanas, e provoca uma nova rodada de ataques retaliatórios de Washington.
Risco permanente e horizonte incerto no Golfo
O tráfego pela rota alternativa ainda está longe do fluxo pré-conflito. Antes do fechamento parcial de Hormuz, cerca de 135 navios por dia cruzavam o estreito, número hoje inalcançável mesmo com o empurrão da operação secreta. A empresa de análise marítima Windward contabiliza 51 navios usando o corredor norte, em águas territoriais iranianas, na primeira semana de junho, ante uma média de 35 por semana em maio. Essas embarcações dependem de autorização do Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica.
Os EUA tentam, desde meados de abril, bloquear as exportações de petróleo iraniano por via marítima. A ofensiva leva a uma espécie de congelamento: cerca de 500 navios mercantes permanecem presos no Golfo, segundo estimativas da Câmara Internacional de Navegação e de outras entidades do setor. O represamento vira símbolo da disputa de força entre Washington e Teerã e pressiona seguradoras, armadores e refinarias em todo o mundo.
Para o consumidor final, boa parte dessa guerra de nervos ainda aparece de forma difusa, em aumentos graduais do preço dos combustíveis e em maior volatilidade nas cotações de gasolina e diesel. A estabilidade relativa dos últimos dias, sustentada pela rota omanense e pelos trânsitos às escuras, afasta por ora um choque imediato de preços, mas depende de uma equação frágil: nenhum erro de cálculo, nenhuma colisão grave, nenhum ataque bem-sucedido contra um navio de grande porte.
Empresas de navegação alertam que a combinação de mar estreito, eletrônicos desligados e tráfego intenso cobra um preço em segurança. Um acidente na pista única de Omã poderia bloquear a saída alternativa, interromper exportações que hoje somam quase 2 milhões de barris por dia e reacender o temor de escassez no verão do Hemisfério Norte, quando a demanda por combustível aumenta.
Diplomatas acompanham com preocupação a exposição pública da operação secreta americana. Ao reivindicar o comando da rota e transformar o apoio aos petroleiros em ativo político, Trump aumenta a pressão sobre o Irã e reduz o espaço para recuos discretos de ambos os lados. Cada novo ataque de drones ou mísseis tende a repercutir diretamente na rota omanense e no apetite de seguradoras em cobrir viagens pela região.
O Golfo Pérsico já atravessa outros ciclos de tensão desde a Revolução Islâmica de 1979, mas o peso atual do estreito de Hormuz no comércio global de energia torna qualquer desvio de rota assunto imediato para mercados financeiros e governos. Enquanto não há um arranjo diplomático que reduza o risco de minagem e de ataques aéreos, executivos do setor veem pouca margem para uma volta rápida à normalidade.
Nos próximos meses, governos, armadores e seguradoras terão de decidir se a pista única de Omã pode se sustentar como corredor semioficial de saída do petróleo do Golfo ou se o custo do improviso se tornará alto demais. A resposta definirá não apenas o mapa da navegação na região, mas também o preço que o mundo pagará por cada barril que sai, às escuras, por uma das faixas de mar mais disputadas do planeta.
