Trump fala em fim da guerra com Irã, mas Teerã nega acordo final
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirma nesta quinta-feira (12) que os EUA “encerram a guerra” com o Irã após um suposto acordo para Teerã abandonar armas nucleares. Autoridades iranianas, porém, negam que haja decisão final e classificam o anúncio como especulação.
Escalada militar abre caminho para negociação frágil
As declarações de Trump vêm após semanas de escalada no Oriente Médio, que incluem ataques americanos contra alvos iranianos e o fechamento do Estreito de Ormuz por forças de Teerã. A rota concentra cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo e se torna, mais uma vez, símbolo da vulnerabilidade energética global.
Em meio à tensão, Washington impõe um bloqueio naval aos portos iranianos, enquanto o Irã ameaça qualquer embarcação que tente cruzar o estreito sem autorização. Nesta quinta, a mídia estatal iraniana informa que um petroleiro é impedido de atravessar a passagem, reforçando o clima de confronto.
Nesse cenário, mediadores do Catar intensificam as conversas com autoridades iranianas. Segundo uma fonte familiarizada com as negociações, encontros em Teerã nesta semana ajudam a destravar alguns dos últimos pontos de atrito. O Irã encaminha sua versão mais recente do texto por meio desses intermediários no início da semana, e a Casa Branca devolve uma contraproposta há cerca de duas semanas, endurecendo cláusulas ligadas à questão nuclear.
Trump fala em documento pronto; Teerã fala em especulação
Trump escolhe a própria rede social, a Truth Social, para elevar o tom. À tarde, ele afirma que cancela ataques e bombardeios que estavam programados para a noite depois que as conversas alcançam, segundo ele, “o mais alto nível da liderança iraniana”. O presidente diz que os “pontos finais” do acordo recebem aval dessas lideranças.
Horas depois, no Salão Oval, Trump volta a sugerir que o entendimento está próximo. “Os documentos estão praticamente finalizados, então vamos ver”, afirma. Ele diz esperar uma cerimônia de assinatura nos próximos dias, possivelmente neste fim de semana, em algum país europeu ainda não revelado, com a presença do vice-presidente JD Vance.
O presidente detalha o núcleo da proposta: o Irã abandonaria qualquer tentativa de desenvolver armas nucleares, enquanto os Estados Unidos suspenderiam imediatamente o bloqueio naval aos portos iranianos. Trump acrescenta que acredita ter o aval do líder supremo Mojtaba Khamenei e cita o compromisso de Teerã de “nunca ter uma arma nuclear” como 95% da negociação.
Do outro lado, a reação é cautelosa. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmail Baghaei, afirma à agência estatal IRNA que “até o momento, o Irã não chegou a uma decisão final sobre qualquer acordo”. Ele classifica notícias sobre um entendimento fechado como “mera especulação” e acusa Washington de mudar de posição ao longo das conversas. “Desde o início, o status das negociações estava claro para nós, e grande parte do texto já havia sido finalizada. No entanto, os americanos continuaram mudando suas posições”, diz.
O atrito não se limita ao Executivo iraniano. No Parlamento, a ala linha-dura reage com desconfiança aberta. Ebrahim Rezaei, porta-voz da Comissão de Segurança Nacional e Política Externa, afirma que “a probabilidade de Trump estar enganando é alta” e defende que Teerã mantenha os ataques, em vez de apostar em um “grande acordo” anunciado por Washington.
Aliados em alerta e mercado de energia em suspense
Os anúncios públicos de Trump pegam aliados de surpresa. Em Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu é informado da publicação enquanto participa de uma reunião de segurança sobre o Irã, segundo uma fonte israelense. Em seguida, Trump diz ter conversado com o premiê e com outros líderes do Golfo para apresentar sua leitura do que chama de oportunidade histórica.
O presidente americano lista Israel, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Turquia, Paquistão, Bahrein, Kuwait, Jordânia e Egito como países que participam das discussões ou apoiam o entendimento. Na prática, cada um deles calcula o efeito de um acordo que pode reduzir a presença militar dos EUA na região e redesenhar o equilíbrio de forças em torno de Teerã.
Para Riad e Abu Dhabi, a promessa de um Irã sem armas nucleares diminui o risco de uma corrida armamentista aberta no Golfo, mas também levanta dúvidas sobre o grau de comprometimento de Washington com sua segurança. Para Israel, qualquer pacto que alivie sanções ou bloqueios sem garantias rígidas de inspeção internacional desperta temor de manobra tática iraniana.
O impacto potencial vai além da geopolítica. A reabertura plena do Estreito de Ormuz e o fim do bloqueio naval americano tendem a aliviar a pressão sobre os preços do petróleo, que reagem a cada sinal de risco no Golfo Pérsico. Um acordo que estabilize a rota pode evitar novos choques de oferta e reduzir a volatilidade observada nas últimas semanas.
Cerimônia na Europa, resistência em Teerã
Trump diz que gostaria de assinar o acordo ainda neste fim de semana, em solo europeu, ao lado de JD Vance. A Casa Branca apresenta a possível cerimônia como gesto de reaproximação com aliados europeus, que desde 2018 tentam salvar ou substituir o antigo pacto nuclear, abandonado pelos EUA naquele ano.
Em Teerã, porém, a dinâmica é outra. O governo precisa lidar com a pressão da linha-dura, que vê qualquer concessão na área nuclear como fragilidade estratégica, e com a memória recente de acordos desfeitos. Baghaei reforça que as ações militares americanas e o bloqueio naval complicam o ambiente interno para qualquer compromisso.
Diplomatas envolvidos nas conversas descrevem um texto em grande parte fechado, mas com pontos sensíveis em aberto. Entre eles, a forma de verificação das promessas nucleares, o cronograma para suspender o bloqueio aos portos iranianos e as garantias de que Washington não volte atrás em caso de mudança política futura.
Enquanto Trump fala em “encerrar a guerra” e exibe o acordo como vitória de política externa em pleno 2026 eleitoral, Teerã insiste em comunicar prudência. O resultado, por ora, é um esboço de paz que reduz o risco imediato de confronto, mas depende de assinatura, implementação e confiança mútua, três fatores raros na história recente entre EUA e Irã.
Os próximos dias vão mostrar se as declarações de Washington se convertem em papel assinado na Europa ou se o anúncio desta semana entra para a longa lista de acordos prometidos e nunca concluídos no Oriente Médio.
