Ciencia e Tecnologia

Apple relança Siri com IA do Google e mira liderança em assistentes

A Apple apresenta em 8 de junho de 2026 uma nova versão da Siri, reconstruída com tecnologia de inteligência artificial do Google. O lançamento, previsto para o outono do hemisfério Norte, marca a aposta da empresa em combinar dados pessoais dos usuários e hardware próprio para recuperar terreno na corrida da IA.

Apple troca de rota após fracasso da própria IA

Dois anos depois de anunciar a ambiciosa “Apple Intelligence”, a companhia admite na prática que não conseguiu acompanhar o ritmo da concorrência. A primeira tentativa, baseada em modelos desenvolvidos internamente para turbinar a Siri, gera pouco resultado visível e vira motivo de constrangimento no Vale do Silício. Agora, Tim Cook sobe ao palco do evento anual de software nos Estados Unidos para mostrar uma assistente renovada, apoiada na tecnologia do maior rival em buscas.

A nova Siri roda com modelos de IA fornecidos pelo Google, integrados diretamente a iPhones, iPads e Macs mais recentes. A Apple paga cerca de US$ 1 bilhão por ano pelo acesso a essa tecnologia, valor modesto diante dos bilhões que seriam necessários para criar e treinar modelos próprios de ponta. Ao fazer essa escolha, a empresa abandona a narrativa de autossuficiência na IA e assume um papel diferente: o de curadora da experiência, usando o controle sobre o aparelho e sobre os dados do usuário como principal vantagem competitiva.

Os executivos vendem a mudança como evolução natural. Eles repetem que o trunfo da Apple está menos nos algoritmos e mais na combinação entre chip, sistema operacional e informações pessoais guardadas no dispositivo. “Será construída com tecnologia do Google, mas a Apple vai ser dona desse relacionamento com o consumidor”, afirma Gil Luria, analista da D.A. Davidson. O recado para investidores e rivais é claro: o cérebro pode ser alugado, mas a porta de entrada para o usuário continua sendo o iPhone.

Como a nova Siri funciona e por que isso importa

A versão repaginada da assistente deixa de ser apenas um atalho de voz e passa a ocupar vários cantos do sistema. O usuário pode falar com a Siri pelo comando tradicional, puxar uma barra de pesquisa deslizante na tela ou abrir um aplicativo no estilo chatbot, semelhante ao ChatGPT. Em todos os formatos, a promessa é a mesma: respostas mais rápidas, compreensão melhor de contexto e uso intenso de dados pessoais, como mensagens, e-mails e agenda, para resolver tarefas do dia a dia.

Grande parte do processamento roda diretamente no aparelho, graças aos chips de última geração da Apple. A escolha reduz a dependência de servidores externos, diminui atrasos e permite que boa parte das funções continue disponível mesmo sem conexão à internet. Alguns recursos mais pesados, como ampliar e reenquadrar fotos, seguem para a nuvem e terão limites diários de uso. Quem assina o iCloud+ deve ter cotas maiores, abrindo uma nova frente de diferenciação entre usuários pagantes e gratuitos.

Ao manter o grosso do trabalho de IA nos próprios dispositivos, a Apple também evita investir em data centers na mesma escala de empresas como Microsoft, Meta e a própria Alphabet, dona do Google. Esse desenho técnico afeta diretamente a estratégia de negócios. Menos gastos com infraestrutura significam mais folga para sustentar a comissão de até 30% cobrada sobre receitas de aplicativos integrados, incluindo chatbots que rodam dentro do ecossistema iOS. Nos últimos dois anos, enquanto concorrentes queimam bilhões em servidores, a Apple vê suas ações subirem mais de 50%, desempenho inferior ao da Alphabet, mas superior ao de Amazon, Microsoft e Meta.

A nova etapa da Siri tenta proteger essa vantagem em um cenário que muda rápido. A OpenAI, criadora do ChatGPT, trabalha com Jony Ive, ex-estrela do design da Apple, em um dispositivo próprio de IA. Google e Meta correm para transformar óculos inteligentes em nova tela do usuário. A Amazon injeta recursos de IA na Alexa em busca de relevância renovada. A empresa comandada por Cook responde reforçando a centralidade do iPhone e do Mac como hubs de comando, mesmo que isso signifique depender de um rival para o motor de IA.

Ganhos, riscos e limites da aposta com o Google

A parceria com o Google mexe no equilíbrio de poder do mercado de assistentes virtuais. Se der certo, a nova Siri pode forçar concorrentes a repensar planos de desenvolver apenas tecnologia própria. A fatia de US$ 1 bilhão por ano que a Apple entrega ao rival parece pequena diante da chance de manter centenas de milhões de usuários dentro de sua loja de aplicativos, pagando comissões ao acionar serviços externos pela assistente. Cada interação bem-sucedida da Siri com um app parceiro significa mais tempo e dinheiro circulando dentro do ecossistema.

Os benefícios, porém, chegam primeiro a um grupo restrito. A Siri atualizada estreia no outono do hemisfério Norte apenas em inglês e apenas nos Estados Unidos. Usuários de iPhone na União Europeia ficam de fora no começo, barrados por incertezas regulatórias sobre concorrência e uso de dados. Na China, nenhum dispositivo da Apple recebe a nova assistente por enquanto, também por entraves regulatórios. A expansão para outros idiomas e mercados não tem data definida, o que limita, ao menos no início, o impacto global do anúncio.

A reação em Wall Street mostra essa ambivalência. As ações da Apple caem cerca de 2% no dia da apresentação, sinal de que parte dos investidores esperava algo mais imediato ou mais autoral. A empresa parece correr atrás de rivais que já exibem chatbots avançados há anos. Ao mesmo tempo, analistas lembram que a Apple costuma entregar resultados em ciclos mais longos. “A empresa trabalha devagar, mas tende a entregar em algum momento”, diz Horace Dediu, veterano observador da marca. A nova Siri será o primeiro grande teste dessa máxima na era da IA generativa.

Dentro da companhia, a transição também marca uma mudança de comando. John Ternus, atual chefe de hardware e apontado como futuro CEO, não fala no palco da conferência, focada em software. O cronograma de lançamento indica, porém, que ele vai supervisionar a maior parte da implementação da assistente nos aparelhos. Se a Siri renovada se tornar o principal ponto de contato entre usuário e sistema, a fronteira entre hardware e software ficará ainda mais porosa, e o desempenho da IA pesará diretamente na avaliação do futuro líder.

Corrida pela próxima plataforma e o que vem depois

A investida da Apple inaugura uma nova fase na disputa pela inteligência artificial de uso cotidiano. Em vez de vender apenas poder computacional em nuvem, a empresa tenta transformar cada iPhone em uma espécie de central pessoal de IA, com a Siri como rosto visível. A combinação entre dados íntimos, como agenda e mensagens, e uma camada de proteção de privacidade promete respostas úteis, mas levanta perguntas sobre até onde o usuário está disposto a abrir mão do próprio histórico digital em troca de conveniência.

Os próximos meses vão mostrar se a estratégia convence consumidores e reguladores. A limitação geográfica e linguística dá tempo para a Apple ajustar o serviço antes de uma expansão global, mas também abre espaço para rivais ocuparem o vácuo em outros mercados. Em um cenário em que OpenAI, Google, Meta, Amazon e uma leva de startups aceleram lançamentos, a companhia que fez do iPhone um ícone precisa provar que ainda consegue ditar o ritmo. A nova Siri, construída sobre a inteligência do Google, vai revelar se o controle do aparelho continua valendo mais do que o controle do algoritmo.

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