Ancelotti aposta em trio do Flamengo para estreia do Brasil na Copa
Carlo Ancelotti define a espinha dorsal da Seleção Brasileira para a estreia na Copa do Mundo, na próxima semana, com três titulares do Flamengo. Danilo, Alex Sandro e Lucas Paquetá ganham espaço no time que enfrenta o Marrocos, no Columbia Park.
Três rubro-negros no time que abre o Mundial
O Centro de Treinamento Columbia Park vive rotina de jogo decisivo, mesmo a seis dias da estreia no Grupo C. Em campos impecáveis, cercados por arquibancadas provisórias lotadas por cerca de 3 mil torcedores, Ancelotti repete pela terceira sessão seguida a formação que pretende levar a campo contra o Marrocos. O desenho confirma um movimento claro: o Flamengo fornece a base da defesa e do meio-campo da Seleção.
Danilo, que chega à Copa em alta no clube carioca, assume de vez a lateral direita. No lado oposto, Alex Sandro consolida a titularidade, após semana em que supera concorrentes diretos nas disputas em campo reduzido e nos treinos táticos de 11 contra 11. Entre eles, Lucas Paquetá ocupa o corredor central ofensivo, como meia avançado, à frente da dupla Casemiro e Bruno Guimarães.
O time se completa com Alisson no gol e a zaga formada por Gabriel Magalhães, canhoto, e Marquinhos, capitão de fato em boa parte das atividades. Na frente, a trinca ofensiva tem Vinicius Júnior aberto pela esquerda, Raphinha pela direita e Matheus Cunha centralizado. Endrick surge como alternativa imediata, testado em ao menos 30 minutos de cada treino coletivo, sempre no lugar de Cunha.
Os últimos ajustes se concentram no balanço defensivo e na saída de bola. Ancelotti exige linha compacta, com Danilo por dentro na construção, quase como um volante, enquanto Alex Sandro abre o campo pelo outro lado. Paquetá recebe orientações diretas à beira do gramado: menos condução longa, mais aproximação com Vinicius e Bruno.
Por que a base do Flamengo pesa na Seleção
A opção por três jogadores do Flamengo não nasce por acaso na véspera do Mundial. Ao longo do ciclo de preparação, Ancelotti acompanha a estabilidade do time rubro-negro em jogos decisivos e vê ali um atalho para montar uma espinha dorsal de confiança. Em conversas reservadas com a comissão técnica, repetidas nesta semana, ele destaca o “nível competitivo diário” vivido pelos atletas no clube carioca, que briga por títulos em ao menos três frentes desde 2023.
A semana no Columbia Park confirma a leitura. Nos trabalhos fechados à imprensa durante cerca de 60 minutos, mas observados à distância por funcionários da Fifa e dirigentes da CBF, Danilo e Alex Sandro se destacam em duelos individuais. Paquetá, mais leve do que nas últimas apresentações pela Seleção, participa diretamente de simulações de bola parada e triangulações curtas, sempre ao lado de Vinicius Júnior. Um membro da comissão resume, em conversa de bastidor: “A ideia é ter um time pronto desde o primeiro apito, sem precisar de três jogos para se encontrar”.
O contexto do grupo reforça a urgência. O Brasil estreia contra o Marrocos, rival que chega embalado por campanhas consistentes em Copas anteriores, e depois enfrenta Haiti e Escócia. A projeção interna é somar ao menos 7 pontos nos três jogos, com duas vitórias e um empate, para avançar ao mata-mata em primeiro lugar. O duelo inicial, porém, concentra atenção máxima. Jogadores ouvidos à saída do campo tratam o confronto como “um mata-mata antecipado”.
A presença de figuras externas amplia a pressão e o clima de Copa. Neymar, hoje no Santos, pisa no gramado do Columbia Park, conversa com antigos companheiros, posa para fotos com torcedores e volta ao hotel sem treinar com o grupo. O diretor norte-americano Spike Lee acompanha tudo da lateral do campo, celular em punho, e brinca com interlocutores ao ouvir o nome do atacante: “É o meu cara”, repete, em inglês, chamando atenção de quem circula pela área reservada a convidados.
Disputa por vaga, mercado aquecido e expectativa
A formação escolhida por Ancelotti mexe diretamente com a hierarquia do elenco. Endrick, tratado como uma das grandes promessas da geração, passa a disputar minuto a minuto com Matheus Cunha a posição de centroavante. Nos treinamentos, o jovem entra sempre na metade final dos coletivos principais, mantém alta intensidade e arranca aplausos em lances isolados, mas ainda alterna decisões em jogadas de área. A comissão técnica, por ora, entende que Cunha oferece mais retenção de bola e proteção física contra zagueiros marroquinos.
O recorte salarial ajuda a medir o peso de cada protagonista. Levantamento recente com os maiores vencimentos brutos mensais da Seleção aponta um top 10 dominado por atletas de clubes europeus, com cifras que superam facilmente os R$ 5 milhões por mês em alguns casos. Neymar, ainda em transição de carreira e agora de volta ao Brasil, sequer aparece nessa lista. A ausência simboliza a mudança de eixo no vestiário, hoje menos centrado em uma única estrela e mais espalhado entre jogadores que vivem o auge físico e técnico.
O trio do Flamengo, mesmo sem liderar os rankings salariais, ganha outro tipo de protagonismo. A titularidade em uma Copa que reúne 48 seleções e se espalha por três países oferece vitrine incomparável. Dirigentes de clubes europeus circulam pelo Columbia Park com crachás discretos, observando treinos e coletando impressões. Agentes acreditam que uma boa estreia, com vitória e desempenho sólido, pode elevar em até 20% a avaliação de mercado de alguns atletas já em julho.
Na esfera esportiva, a decisão de Ancelotti fortalece o clube carioca no debate doméstico. Torcedores do Flamengo ocupam boa parte das arquibancadas móveis instaladas nos treinos e transformam cada toque de Danilo, Alex Sandro e Paquetá em motivo de aplauso. A cena alimenta discussões em rodas de torcedores rivais, que veem o clube rubro-negro ampliar sua influência sobre a Seleção em um momento de exposição global.
O que está em jogo a partir de Marrocos
A estreia contra o Marrocos funciona como primeiro julgamento público da aposta em uma base rubro-negra. Um desempenho seguro da defesa, com laterais bem protegidos e meio-campo dominante, tende a consolidar a formação ao menos até o fim da fase de grupos. Qualquer falha em série, sobretudo em bolas aéreas e transições rápidas, abre espaço imediato para contestação e pressão por mudanças já diante de Haiti ou Escócia.
Ancelotti sabe que a margem de erro em Copa do Mundo é pequena, mesmo com mais vagas no mata-mata. A preparação desta semana, com treinos em dois períodos em pelo menos três dos últimos cinco dias, mostra um técnico que busca respostas rápidas e não hesita em testar variações de desenho com Endrick, mudanças de função para Paquetá e até recuos eventuais de Vinicius para ajudar na marcação. O Brasil entra em campo carregando não apenas o peso histórico de cinco títulos, mas também a expectativa de ver se a aposta em um trio do Flamengo pode devolver à Seleção a sensação de equipe pronta desde o primeiro jogo. A resposta começa a aparecer quando a bola rolar no Columbia Park.
