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Quaest 2026: Lula lidera entre católicos, Flávio vence entre evangélicos

Uma nova pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira (10) mostra um Brasil dividido pela religião na disputa presidencial de 2026. Lula (PT) lidera entre católicos, enquanto Flávio Bolsonaro (PL) é o preferido entre evangélicos, num quadro que expõe a força da fé na política.

Religião reorganiza o mapa da disputa presidencial

O levantamento, feito entre 5 e 8 de junho com 2.004 eleitores em todo o País, revela dois universos eleitorais quase paralelos. No recorte geral, sem considerar a religião, Lula aparece na frente com 39% das intenções de voto no primeiro turno, seguido por Flávio Bolsonaro, que registra 29%. Nenhum outro nome ultrapassa 3%, o que consolida um cenário de polarização antecipada quase exclusiva entre os dois.

Quando o filtro religioso entra em cena, o equilíbrio muda de lugar. Entre católicos, Lula amplia a vantagem e chega a 43% da preferência, contra 27% do senador do PL. Nesse grupo, o goiano Ronaldo Caiado (PSD) aparece distante, com 4%. Entre evangélicos, o movimento se inverte: Flávio Bolsonaro sobe a 41% e deixa Lula com 26%, enquanto Caiado e Renan Santos (Missão) marcam 4% cada.

Os números reforçam uma clivagem que se aprofunda desde as eleições de 2018 e 2022, quando o eleitorado evangélico se torna base central do bolsonarismo. A pesquisa atual indica que, mesmo com a saída de Jair Bolsonaro da disputa direta, o capital político desse grupo migra com força para o filho senador. Ao mesmo tempo, Lula preserva entre católicos um colchão de apoio que ainda garante vantagem no quadro geral.

O instituto Quaest aponta margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O estudo está registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-07661/2026, o que permite seu uso oficial em campanhas e programas de rádio e TV assim que a propaganda for liberada.

Na rodada anterior, realizada em maio, a diferença entre os grupos religiosos era ainda mais acentuada. Entre católicos, Lula vencia por 48% a 28%. No campo evangélico, Flávio Bolsonaro tinha 49%, contra 25% do petista. A oscilação dentro da margem de erro sugere um cenário em movimento, mas mantém intacta a lógica de um país partido por linhas de fé.

Campanhas ajustam discurso à geografia da fé

Os resultados dão um recado direto às equipes de campanha: a religião continua sendo um dos principais organizadores do voto no Brasil contemporâneo. Para Lula, a pesquisa confirma a necessidade de preservar a maioria católica ao mesmo tempo em que mostra o tamanho do desafio entre evangélicos. Para Flávio Bolsonaro, o levantamento sinaliza que a herança eleitoral do pai se mantém viva nesse segmento, mas não se traduz automaticamente em vantagem no conjunto do eleitorado.

A divisão por religião tende a moldar a agenda de temas morais, como aborto, direitos LGBTQIA+ e políticas de família, que historicamente mobilizam igrejas e lideranças religiosas. Em disputas recentes, pastores e bispos se tornam cabos eleitorais de alta capilaridade, capazes de influenciar comunidades inteiras. Os números da Quaest sugerem que esse poder continua relevante e pode voltar ao centro da estratégia da direita em 2026.

No campo petista, a tendência é reforçar interlocuções com setores progressistas do catolicismo e com parcelas do evangelismo que defendem pautas sociais, como combate à fome, proteção de minorias e redução da desigualdade. Ao mesmo tempo, assessores já admitem, nos bastidores, a necessidade de reduzir resistências entre fiéis que veem o partido com desconfiança em temas de costumes.

Para Flávio Bolsonaro, a tarefa passa por consolidar a identificação com o pai, hoje inelegível, sem afastar eleitores moderados. A presença em templos, congressos religiosos e eventos de lideranças pentecostais e neopentecostais deve seguir como marca da pré-campanha. A expectativa de aliados é que, em um segundo turno, a vantagem entre evangélicos possa compensar a desvantagem entre católicos e no eleitorado sem religião.

O recorte religioso também ajuda a explicar o tom do debate público. Pautas como educação sexual em escolas, regulamentação das igrejas e laicidade do Estado ganham contornos de disputa de identidade. Não se trata apenas de programas de governo, mas de visões de mundo concorrentes, que se organizam em torno de crenças, valores e instituições religiosas.

Polarização religiosa abre nova fase da campanha

Ao apontar um país dividido entre católicos lulistas e evangélicos bolsonaristas, a pesquisa Quaest antecipa o clima dos próximos meses. Estratégias de comunicação devem se sofisticar, com campanhas segmentadas por região, renda e fé, apoiadas em redes sociais e aplicativos de mensagem. A disputa por púlpitos e grupos de WhatsApp promete ser tão intensa quanto a corrida por tempo de TV.

A fragmentação também traz riscos. O uso da religião como arma de ataque político já produz conflitos familiares, polariza comunidades e pressiona lideranças religiosas a se posicionar. Organizações civis e acadêmicos alertam para a erosão de consensos mínimos sobre regras democráticas quando a eleição é tratada como batalha sagrada entre o bem e o mal.

À medida que 2026 se aproxima, partidos testam maneiras de dialogar com o eleitorado de fé sem ferir a laicidade do Estado. O Tribunal Superior Eleitoral promete ampliar o combate à desinformação, inclusive no uso de discursos religiosos para espalhar notícias falsas. O histórico recente mostra que esse é um dos terrenos mais férteis para boatos e teorias conspiratórias.

Os próximos levantamentos vão indicar se a vantagem de Lula entre católicos se mantém e se Flávio Bolsonaro conseguirá preservar a liderança folgada entre evangélicos. A resposta ajuda a definir não só as rotas de campanha, mas o tamanho da influência das igrejas na definição do próximo presidente. A pergunta que se impõe, a partir de agora, é se o voto de fé continuará ditando o ritmo da política nacional ou se dará espaço a outros temas, como economia, emprego e segurança.

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