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Belfast tem casas e ônibus incendiados em protestos anti-imigração

Homens mascarados incendeiam casas, carros e ônibus em Belfast, na noite de terça-feira (9), em uma onda de protestos anti-imigração após um ataque a faca. O episódio atinge famílias negras, espalha medo em bairros operários e acende um alerta nacional sobre violência racial no Reino Unido.

Vídeo de ataque violento dispara noite de fogo em Belfast

A escalada começa horas depois de um vídeo circular de forma massiva nas redes sociais. Nas imagens, gravadas no norte de Belfast, um homem na casa dos 40 anos aparece gravemente ferido. Ele perde um dos olhos e sofre cortes profundos no rosto e nas costas.

O suspeito, o sudanês Hadi Alodid, 30, é preso e levado a um tribunal na quarta-feira (10), que decreta sua prisão preventiva. O caso, segundo a polícia, não é tratado neste momento como terrorismo, mas o ataque vira combustível imediato para grupos anti-imigração.

Ao longo da tarde de terça-feira, perfis nacionalistas e influenciadores hostis à imigração convocam protestos “em defesa do povo britânico”. A retórica se espalha em canais de mensagens e transmissões ao vivo. Poucas horas depois, bairros residenciais veem surgir bandos de homens encapuzados, muitos deles escondendo o rosto com máscaras e cachecóis.

As primeiras chamas atingem carros estacionados. Em seguida, casas de famílias imigrantes começam a ser atacadas. A polícia precisa escoltar uma família para fora de um imóvel em chamas. Um ônibus urbano é incendiado e vira carcaça retorcida no meio da rua, em cenas que lembram os piores momentos do conflito norte-irlandês.

Líderes locais afirmam que as vítimas são escolhidas pela cor da pele. O pastor Jack McKee, de Belfast, relata à BBC que fiéis que vivem ali há duas décadas são expulsos “simplesmente por serem negros”. Políticos de diferentes partidos descrevem a noite como um ataque direcionado a minorias étnicas.

Autoridades veem “pogrom racial” e condenam manipulação do medo

Keir Starmer, primeiro-ministro britânico, reage com dureza. Em comunicado, afirma que “é evidente que as pessoas foram alvejadas na noite passada por causa da sua origem e não vou tolerar isso”. E promete: “Os responsáveis sentirão todo o rigor da lei”.

Na Irlanda do Norte, a primeira-ministra Michelle O’Neill chama as ações de “covardia repugnante”. “Não há desculpa nem justificativa para esses ataques. Grupos de homens mascarados incendiando casas e expulsando famílias de seus lares é nada menos que um ato de covardia repugnante”, diz.

Claire Hanna, líder do Partido Social Democrata e Trabalhista (SDLP), vai além e descreve a violência como um “pogrom racial”. Ela responsabiliza o ambiente digital que, em suas palavras, alimenta ressentimentos e depois abandona o território. “O ecossistema online que fomentou isso agora vai seguir em frente e o povo de Belfast terá que lidar com as consequências”, afirma à agência Reuters.

Nas redes de alcance global, a discussão ganha novo fôlego quando o bilionário Elon Musk amplifica postagens anti-imigração sobre o ataque no norte de Belfast. Em resposta a uma publicação do ativista Tommy Robinson, que fala em “mais um ataque de invasores contra o nosso povo” e convoca manifestações, Musk escreve: “Somente protestando REPETIDAMENTE e EM ALTO E BOM SOM haverá alguma mudança!!”. O comentário é celebrado por grupos que já usavam o caso para exigir endurecimento das políticas de asilo.

Na direção oposta, a ministra da Justiça da Irlanda do Norte, Naomi Long, tenta conter a espiral de raiva. Em entrevista à Reuters, alerta para a ação de “pessoas de má-fé” que usam o medo real provocado pelo esfaqueamento para atacar quem tem a mesma cor de pele do suspeito. “Não permitam que as vossas preocupações genuínas sejam manipuladas por pessoas de má-fé”, pede. “Sabemos na Irlanda do Norte o dano que se pode causar quando se demoniza um grupo inteiro de pessoas por causa do comportamento de alguns, e não queremos voltar a essa situação.”

A memória do conflito de três décadas que marcou a província paira sobre cada incêndio. De um lado, nacionalistas irlandeses, em sua maioria católicos, que buscavam unificar a ilha. De outro, unionistas pró-britânicos, majoritariamente protestantes, determinados a seguir no Reino Unido. A violência sectária, que só começa a refluir com o Acordo de Belfast de 1998, ajuda a explicar por que a imigração permanece baixa por tanto tempo.

Tensões raciais expõem fragilidades da política migratória britânica

O censo de 2021 mostra uma Irlanda do Norte ainda esmagadoramente branca: 96,6% da população se declara dessa cor. A chegada gradual de novos grupos, em especial nos últimos anos, altera de forma lenta esse quadro e desperta reações organizadas contra imigrantes, tanto na província quanto em partes da República da Irlanda.

A noite de 9 de junho não é um episódio isolado. Em 2025, tumultos anti-imigração já haviam tomado cidades norte-irlandesas após a acusação de uma suposta agressão sexual envolvendo dois jovens estrangeiros. As denúncias são depois retiradas pela promotoria, mas os protestos deixam rastros de desconfiança.

Agora, o esfaqueamento no norte de Belfast encontra um Reino Unido em estado de tensão. Dias antes, o assassinato de um estudante algemado pela polícia, enquanto agoniza por ferimentos de faca, revolta a opinião pública. O agressor, um homem sikh, tenta justificar o crime com a falsa alegação de ataque racista. A sequência de episódios alimenta a narrativa de partidos populistas e ativistas anti-imigração, que insistem que a política de asilo abre as portas para “homens perigosos”.

Na prática, minorias étnicas sentem os efeitos de forma imediata. Famílias são forçadas a deixar casas em Belfast. Comunidades religiosas relatam ameaças e hostilidade crescente em ruas onde, até poucos anos atrás, quase todos tinham a mesma origem. Organizações de direitos humanos alertam para o risco de “limpeza étnica informal”, conduzida por grupos que expulsam vizinhos indesejados sem precisar de decreto oficial.

O impacto político também é direto. Em Londres, manifestantes bloqueiam por alguns minutos a Praça do Parlamento, coração do poder britânico, na mesma noite em que Belfast pega fogo. Glasgow e Edimburgo, as duas maiores cidades da Escócia, registram atos menores, mas simbólicos, que exibem bandeiras e cartazes contra o aumento da imigração.

Pressão por resposta estatal e temor de nova escalada

O governo britânico enfrenta agora um duplo desafio. Precisa responder com rapidez à violência de rua sem reforçar o discurso que associa imigração a crime. E tem de garantir segurança às minorias étnicas que veem vizinhos se organizarem em grupos mascarados, dispostos a expulsá-las.

Na Irlanda do Norte, autoridades prometem investigações céleres, prisões e reforço do policiamento em áreas vulneráveis. Michelle O’Neill tenta falar diretamente com moradores afetados, enquanto conselhos comunitários preparam abrigos temporários para quem abandona casas queimadas. Líderes religiosos organizam vigílias e encontros inter-religiosos para reduzir tensões.

Especialistas em segurança alertam que a combinação de redes sociais, discursos inflamados e frustrações econômicas cria um cenário fértil para novos episódios. A cada vídeo que viraliza, a probabilidade de reações em cadeia aumenta. A fronteira entre protesto e linchamento coletivo se torna mais tênue.

No Parlamento britânico, o debate sobre reforma da política de asilo ganha novo peso. Propostas para acelerar deportações e endurecer critérios de entrada prometem voltar à pauta nas próximas semanas. Organizações de imigrantes e de direitos civis, por sua vez, pressionam por medidas de proteção mais claras, inclusive protocolos específicos contra ataques motivados por raça ou origem nacional.

Enquanto a fumaça ainda sobe dos ônibus incendiados em Belfast, uma pergunta paira sobre o Reino Unido: o sistema político conseguirá conter a espiral de ódio antes que ela se torne parte permanente da paisagem urbana?

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