Vaiada, Paula Belmonte critica empréstimo de R$ 6,6 bi ao GDF na CLDF
Em sessão tensa da Câmara Legislativa do DF, em junho de 2026, a deputada distrital Paula Belmonte (PSDB) é vaiada ao criticar o empréstimo de R$ 6,6 bilhões ao Governo do Distrito Federal. Servidores do Banco de Brasília (BRB) e sindicalistas viram de costas para a parlamentar durante o discurso contra o endividamento bilionário.
Plenário dividido e encenação contra a dívida
O clima esquenta no plenário da Câmara Legislativa do Distrito Federal quando começa a discussão do projeto que ratifica o acordo homologado pelo Supremo Tribunal Federal. O texto autoriza o GDF a contratar um empréstimo de R$ 6,6 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), operação que, segundo o governo, é estratégica para reorganizar as finanças locais.
Paula Belmonte sobe à tribuna decidida a confrontar a proposta. A deputada leva um banco de plástico, um cheque em branco e um boleto gigante com o valor de R$ 20 bilhões e a frase em letras grandes: “esse boleto vai ser seu”. A encenação mira o que ela descreve como o verdadeiro custo da operação para a população do Distrito Federal nos próximos anos.
Enquanto a parlamentar fala, servidores do BRB e representantes do Sindicato dos Bancários, que acompanham a sessão das galerias, começam a reagir. Parte do grupo inicia uma sequência de vaias. Outros viram de costas para o plenário em protesto silencioso, num gesto que transforma o debate técnico em um confronto simbólico sobre quem paga a conta da política financeira do governo.
Belmonte insiste na crítica. “Quem vai pagar a conta desse empréstimo que vai chegar a quase R$ 20 bilhões? Vai ser a nossa saúde, nossa educação e nossa segurança pública”, afirma, em tom de alerta. A cada frase, o embate sonoro se intensifica, com manifestações de apoio pontuais e reações hostis vindas da galeria.
Disputa sobre custo social do endividamento
A votação do projeto ocorre em um momento em que o Distrito Federal ainda sente os efeitos de anos de aperto fiscal e atrasos em investimentos. Na narrativa da deputada, o novo empréstimo não é apenas um ajuste de caixa, mas um freio no desenvolvimento social. “O que está sendo votado hoje é uma enganação do Distrito Federal e, infelizmente, a impossibilidade de desenvolvimento social da população”, diz, ao mostrar o boleto simbólico de R$ 20 bilhões.
O valor estampado no cartaz busca traduzir para o leitor comum o peso dos juros e da amortização da dívida, que, segundo a parlamentar, podem elevar o custo total da operação para a casa das dezenas de bilhões de reais ao longo do tempo. Ela sustenta que, para honrar as parcelas, o GDF tende a reduzir investimentos em serviços básicos ou a aumentar a carga tributária, o que atinge de forma mais dura as famílias de baixa renda.
Servidores do BRB e sindicalistas, no entanto, enxergam o projeto como uma peça central para fortalecer o banco público local e proteger empregos. Para esse grupo, o empréstimo ajuda a dar fôlego ao sistema financeiro do DF, amplia a capacidade de crédito e pode evitar medidas mais drásticas, como cortes de pessoal e fechamento de agências. A reação dura à fala de Belmonte revela o temor de que a crítica política desgaste a imagem da instituição em meio a negociações delicadas.
O embate também expõe uma tensão recorrente na história recente do Distrito Federal: o uso de grandes operações de crédito para fechar contas de curto prazo, com efeitos ainda pouco transparentes sobre o orçamento futuro. Nas últimas décadas, sucessivos governos recorrem a empréstimos bilionários para investir em obras, cobrir déficits previdenciários ou renegociar passivos. O debate atual reacende a dúvida sobre quanto desse esforço resulta em melhoria concreta de serviços e quanto se transforma apenas em mais juros a pagar.
Na sessão, a base governista argumenta que o acordo ratificado pelo STF dá segurança jurídica à operação e evita um colapso financeiro maior, inclusive no BRB. A oposição, com Belmonte à frente, insiste que o texto chega sem um plano detalhado de contrapartidas sociais e sem projeções claras de impacto sobre áreas como saúde, educação e segurança até o fim da década.
Impacto para serviços públicos e próximos capítulos
No centro da disputa está a pergunta sobre quem ganha e quem perde com o empréstimo de R$ 6,6 bilhões. A deputada sugere que o principal perdedor é o cidadão que depende do SUS, da escola pública do bairro e do policiamento nas ruas. Na leitura dela, cada parcela da dívida significa menos leitos, menos salas de aula, menos viaturas rodando em regiões já marcadas por desigualdade.
Representantes de trabalhadores do sistema financeiro fazem outro cálculo. Para eles, o fortalecimento do BRB ajuda a preservar milhares de empregos diretos e indiretos, sustenta linhas de crédito para pequenas empresas e mantém o banco como agente relevante de políticas públicas. A defesa é de que, sem o empréstimo, a pressão sobre o banco e sobre o próprio GDF seria ainda maior, com risco de cortes abruptos que também afetariam a população.
A sessão desta semana não encerra a polêmica. A aprovação do projeto, se confirmada, abre uma etapa de fiscalização sobre como o GDF vai usar os recursos e quais áreas terão prioridade no orçamento. Entidades da sociedade civil já se mobilizam para acompanhar os próximos relatórios fiscais, cruzar dados de execução orçamentária e cobrar transparência sobre a destinação do dinheiro.
Na Câmara Legislativa, o episódio reforça a polarização em torno da política econômica local e tende a pautar novas audiências públicas, pedidos de informação e questionamentos ao Tribunal de Contas do DF. A imagem de um plenário dividido, com parlamentares em embate aberto e servidores de costas para a tribuna, sintetiza uma disputa que está longe de terminar. A dúvida que permanece é se o empréstimo bilionário será lembrado como alavanca para o desenvolvimento ou como mais um peso na conta de uma população já sobrecarregada.
