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Documentos indicam US$ 10,6 mi para filme sobre Bolsonaro nos EUA

Uma estrutura financeira que movimenta ao menos US$ 10,6 milhões para os Estados Unidos coloca o banqueiro Daniel Vorcaro no centro do financiamento de “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. Os repasses ocorrem entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026 e envolvem a intermediação da Entre Investimentos e o fundo Havengate Development Fund LP, ligado à produção do filme.

Planilhas, SWIFT e a disputa pelos números

Os documentos revelados pelo Intercept Brasil, em série iniciada em 9 de junho, detalham um fluxo de dinheiro que atravessa fronteiras e alimenta uma produção de alto peso político. No centro das mensagens e comprovantes está a tentativa do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de viabilizar até US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões à época, para o longa “Dark Horse”. A apuração indica que, desse valor, ao menos US$ 10,6 milhões, algo em torno de R$ 61 milhões, de fato chegam ao fundo Havengate, com sede nos Estados Unidos.

A diferença entre os valores negociados e os pagos alimenta, desde maio, uma ofensiva de aliados da família Bolsonaro nas redes sociais. O comentarista Paulo Figueiredo, um dos porta-vozes desse movimento, tenta desacreditar a apuração. “Começaram com o Intercept dizendo que eram 134 milhões do Vorcaro pro filme. Caiu para 61 milhões no Metrópoles. Depois, 2 milhões no Globo. Já já vocês vão descobrir que NÃO TEM dinheiro do Vorcaro no filme”, escreveu no X em 13 de maio. A plataforma bolsonarista passou a sustentar que o site teria recuado das informações ou admitido falta de provas.

O Intercept afirma que isso não aconteceu. Segundo o veículo, desde a primeira reportagem a distinção entre os US$ 24 milhões negociados e os US$ 10,6 milhões efetivamente pagos aparece de forma clara. A peça central desse quadro é uma planilha batizada de “Funding Schedule” que circula, em agosto de 2025, entre executivos ligados à operação. O arquivo funciona como um cronograma de financiamento do filme e registra uma operação próxima dos US$ 24 milhões, dividida em 14 parcelas.

O cronograma prevê duas primeiras parcelas de US$ 2 milhões, marcadas originalmente para 20 e 25 de janeiro de 2025. A planilha mostra que os pagamentos atrasam e só ocorrem em 13 de fevereiro e 24 de março. As outras 12 parcelas, de US$ 1,66 milhão cada, somam o restante do pacote. A primeira dessas aparece como quitada em 24 de março. Duas entram como pagas em 25 de abril e outra em 29 de maio. Na soma dos aportes registrados até então, o total recebido pelo Havengate atinge US$ 10,6 milhões.

Em 7 de agosto de 2025, o empresário Thiago Miranda envia a tabela a Daniel Vorcaro, segundo registros obtidos pelo Intercept. Na mensagem, chama atenção para os atrasos: “Duas em atraso e está para vencer a terceira agora em agosto”. Vorcaro responde de forma lacônica: “segunda fazemos duas”. A troca sugere que novos pagamentos permanecem em negociação naquele momento, o que abre margem para que o montante final ultrapasse os US$ 10,6 milhões anotados na planilha.

Ferramentas financeiras e conexões políticas

Outra mensagem mostra que o controle desse fluxo não se limita ao cronograma. Em 12 de março de 2025, Vorcaro envia um documento semelhante ao pastor Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro do ex-banqueiro. Ele pede que o parente assuma a rotina dos pagamentos: “precisa me ajudar controlae isso” e “tem que pagar a segunda e a terceira”. Zettel responde: “vou pra cima do Mineiro. Passei o fluxo pra ele. Achei que ele tava fazendo”.

Na narrativa apresentada pelo Intercept, o “Mineiro” é Antônio Carlos Freixo Júnior, executivo ligado à Entre Investimentos e Participações Ltda., empresa que executa uma das transferências internacionais. As mensagens sugerem uma coordenação entre Vorcaro, Zettel e Freixo para viabilizar o envio de recursos. Apesar disso, o grupo Entre e o próprio Vorcaro negam vínculos societários, de controle ou de governança. A reportagem sustenta que documentos internos e investigações em curso, citadas também por Metrópoles e Estadão, apontam uma conexão operacional e financeira entre as partes.

O elo mais concreto aparece em um comprovante da primeira transferência internacional, emitido pelo sistema SWIFT, a rede global usada pelos bancos para remessas entre países. O documento, datado de 13 de fevereiro de 2025, registra o envio de US$ 2 milhões da Entre Investimentos e Participações para o Havengate Development Fund LP. A operação passa pelo Banco BS2 e chega a uma conta do fundo ligada ao JPMorgan Chase Bank, em território americano.

O comprovante traz códigos da transação, dados das instituições envolvidas e informações de liquidação exigidas pelo sistema financeiro internacional. Em 14 de fevereiro, Zettel encaminha o registro a Vorcaro com uma única palavra: “Filme!”. A mensagem chega um dia após a liquidação bancária, o que reforça, na leitura do Intercept, a associação direta entre a transferência e o financiamento de “Dark Horse”.

As mensagens também revelam dificuldades para tirar o dinheiro do país. Em 5 de fevereiro de 2025, mais de uma semana antes da remessa, Zettel relata a Vorcaro que o câmbio do Banco Master cria obstáculos para a operação. Os dois discutem alternativas até chegar à solução de usar a estrutura da Entre Investimentos como ponta emissora da transferência. Assim, a companhia aparece como remetente no SWIFT, enquanto o fundo Havengate, controlado pelo empresário Paulo Calixto, entra como beneficiário do fluxo que sustenta o longa sobre Bolsonaro.

O Grupo Entre afirma, em nota, que “realiza suas operações em conformidade com as normas e regulamentações aplicáveis ao setor financeiro” e que mantém “compromisso com a integridade, a transparência e o cumprimento” da lei. A empresa se diz “à disposição das autoridades competentes sempre que necessário”. Calixto, Miranda, Freixo, Zettel e Vorcaro, atualmente presos em outras investigações, não respondem aos questionamentos do Intercept até a publicação da série.

Risco jurídico e disputa pela narrativa

A revelação dessa engenharia financeira atinge um dos pontos mais sensíveis do bolsonarismo: a forma de financiar projetos com forte impacto simbólico e eleitoral. “Dark Horse” busca recontar a trajetória de Jair Bolsonaro, do baixo clero à Presidência, e se insere numa disputa intensa pela memória recente do país. O envolvimento de um banqueiro investigado, de um fundo nos Estados Unidos e de intermediários no mercado financeiro amplia a pressão por transparência sobre a origem e a legalidade dos recursos.

O caso também expõe a tentativa de aliados políticos de controlar a narrativa sobre o dinheiro. Em 20 de maio, Paulo Figueiredo volta às redes para questionar a existência de “transações financeiras” na série do Intercept. “Se não vierem (como Flávio jura e como eu acredito, até o momento), a credibilidade voltará aos poucos”, escreve. A divulgação de planilhas, comprovantes SWIFT e diálogos que mencionam diretamente o “filme” responde, em parte, a esse desafio público e pode servir de ponto de partida para a atuação de órgãos de controle.

Nos bastidores de Brasília, a avaliação é que os documentos tendem a alimentar pedidos de investigação sobre possível uso de recursos de origem ilícita, lavagem de dinheiro ou financiamento irregular de obra com finalidade política. A comparação com outros episódios que cercam a família Bolsonaro, como o caso da “rachadinha” no antigo gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio, reforça a percepção de um padrão de arranjos financeiros pouco transparentes. A diferença, agora, é a escala internacional da operação e o uso de fundos estruturados no exterior.

Em termos práticos, a exposição desses repasses pode encarecer o custo político de qualquer lançamento de “Dark Horse” no Brasil. Plataformas de streaming, distribuidores e patrocinadores tendem a se tornar mais cautelosos diante do risco de associação a esquemas sob suspeita. Produtores e artistas envolvidos passam a enfrentar questionamentos sobre a origem do dinheiro e o grau de influência de financiadores alinhados ao bolsonarismo.

O que ainda falta esclarecer

As reportagens deixam em aberto pontos cruciais para entender o alcance da operação. O primeiro diz respeito ao valor final: as mensagens de agosto de 2025 sugerem que os pagamentos podem ter avançado além dos US$ 10,6 milhões já rastreados. Também não está claro se o total originalmente negociado, próximo de US$ 24 milhões, chega a ser integralmente honrado ou se parte do orçamento do filme depende de outras fontes de financiamento, ainda não reveladas.

Outra dúvida é o grau de participação direta do senador Flávio Bolsonaro nas tratativas financeiras após a fase de negociação com Vorcaro. O interesse dele em obter cerca de R$ 134 milhões para o projeto é admitido nas conversas, mas os documentos não mostram, por enquanto, ordens explícitas de pagamento ou contratos assinados por sua equipe. Esse vazio documental tende a orientar os próximos passos de eventuais investigações do Ministério Público, do Banco Central e de órgãos de cooperação internacional.

A reação do meio político e do mercado cultural deve se intensificar à medida que novos dados surgirem. A pressão por esclarecimentos formais pode levar a convocações em CPIs, pedidos de quebra de sigilo e solicitações de informações a autoridades americanas sobre a movimentação no Havengate e no JPMorgan. Enquanto a cronologia das remessas segue sob escrutínio, o caso já cumpre um efeito imediato: expõe como o financiamento de obras de forte teor político se apoia em engrenagens financeiras complexas, muitas vezes invisíveis ao público, que agora passam a disputar o centro da cena.

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