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Polícia do Quênia mata manifestante em protesto contra centro de ebola

A polícia do Quênia mata a tiros um manifestante e deixa ao menos um ferido em Nanyuki, nesta terça-feira (9), durante protesto contra um centro de quarentena para cidadãos americanos expostos ao vírus do ebola. O confronto marca a escalada de uma disputa que mistura medo de contaminação, pressão popular e acordos diplomáticos com os Estados Unidos.

Medo do ebola transforma cidade turística em praça de guerra

A cidade de Nanyuki, conhecida por receber turistas rumo ao Monte Quênia, passa o dia tomada por fumaça de gás lacrimogêneo, sirenes e gritos. Manifestantes erguem barricadas, queimam pneus e lançam pedras contra policiais. A resposta vem em forma de jatos de água, disparos e bombas de gás. No fim da tarde, um corpo com um grande ferimento na cabeça aparece no fundo de uma viatura policial.

Organizadores do ato afirmam que o homem morre com um tiro na cabeça disparado por policiais durante o confronto. “Ele levou um tiro na cabeça”, diz Patrick Wahome, um dos líderes do protesto em Nanyuki. Repórteres da Reuters e da AFP, que não presenciam o disparo, veem o corpo imóvel, com forte sangramento, na traseira de um carro da polícia. A Cruz Vermelha local informa que ao menos uma outra pessoa fica ferida por gás lacrimogêneo.

Os protestos miram a instalação de um centro de quarentena dentro de uma base aérea da região. O espaço deve receber americanos que trabalharam na República Democrática do Congo, país que enfrenta um surto de ebola, e que foram expostos ao vírus, mas ainda não apresentam sintomas. Para moradores, o projeto significa abrir a porta de um vírus letal em um país que nunca registrou um único caso confirmado da doença.

“Laikipia não é um lixão. Não estou feliz com a decisão dos Estados Unidos de construir um centro de quarentena em nosso país”, afirma Priscilla Waimani, 47, envolta numa bandeira do Quênia, enquanto encara um cordão de policiais. Muitos repetem o mesmo argumento nas ruas: se os americanos temem levar ebola para casa, por que enviariam possíveis contaminados para uma cidade turística africana?

Pressão popular desafia acordos com Washington

A reação nas ruas pressiona diretamente o governo do presidente William Ruto, que defende o centro de quarentena como parte de uma parceria estratégica com Washington. O Quênia recebe há anos ajuda econômica americana e agora tem a promessa de US$ 13,5 milhões, cerca de R$ 70 milhões, para reforçar sua estrutura de prevenção ao ebola. A conta política, porém, chega em forma de barricadas em Nanyuki e de críticas de organizações de direitos humanos.

Em comunicado divulgado na noite de terça-feira (9) na rede X, a Comissão de Direitos Humanos do Quênia acusa agentes encapuzados de usar munição real contra civis. A entidade fala em “balas de verdade” e em prisões arbitrárias de 19 manifestantes. Testemunhas relatam detenções feitas também por policiais à paisana em diferentes pontos da cidade. Dezenas acabam levadas a delegacias da região após horas de confronto.

Na Justiça, a disputa corre em paralelo. Uma juíza do Tribunal Superior já emite duas ordens proibindo o governo de avançar na construção ou nas operações do centro de quarentena em Nanyuki. Na decisão mais recente, concede uma semana para que autoridades quenianas divulguem todos os acordos assinados com os Estados Unidos sobre o projeto. O prazo termina na segunda-feira sem que o governo apresente os documentos exigidos.

“O governo descumpre uma ordem clara do tribunal”, afirma o advogado Joshua Malidzo, que contesta o plano em nome de moradores e ativistas. Ele diz que a falta de transparência alimenta suspeitas sobre riscos sanitários e sobre o uso da base aérea. O silêncio oficial também deixa espaço para boatos, como o de que o centro receberia pacientes já doentes, e não apenas pessoas em observação.

Autoridades quenianas insistem que a estrutura serviria também para cidadãos do país e outros estrangeiros, o que poderia fortalecer a rede de vigilância de doenças infecciosas na região. Representantes do governo americano, no entanto, não confirmam o uso compartilhado. Washington limita-se a informar que está “ciente do processo judicial” e “trabalhando com o governo queniano para resolver quaisquer objeções”.

Violência, desinformação e risco político em alta

A violência em Nanyuki expõe o nó entre saúde pública, diplomacia e direitos civis. De um lado, especialistas defendem que centros de quarentena para pessoas assintomáticas reduzem o risco de transmissão e ajudam a conter surtos. De outro, a população local enxerga pouco benefício direto e teme que qualquer falha transforme a cidade no primeiro foco de ebola do país. O histórico do Quênia, sem casos confirmados da doença, alimenta o argumento de que o risco está sendo importado.

O episódio também aumenta a pressão internacional sobre o uso da força pela polícia queniana. Imagens de manifestantes correndo sob nuvens de gás e relatos de tiros contra civis circulam nas redes sociais e em veículos estrangeiros. Organizações de direitos humanos cobram investigações rápidas, identificação dos responsáveis pelos disparos e punição em caso de abuso. O governo Ruto, já criticado por medidas de austeridade, enfrenta agora um teste adicional de legitimidade.

As relações com os Estados Unidos entram em zona sensível. A promessa de recursos para saúde pública se choca com o desgaste político interno e com a percepção de que decisões são tomadas sem diálogo com as comunidades afetadas. A postura do governo americano também é observada de perto. A Casa Branca reafirma que não permitirá a entrada de nenhum caso de ebola em território dos EUA, o que reforça a sensação, entre quenianos, de que o país africano serve como barreira sanitária.

Em Nanyuki, comerciantes relatam queda no movimento desde que as obras da base entram na pauta pública. Hotéis e pousadas recebem ligações de turistas em dúvida sobre manter viagens já marcadas. A região, que depende de safáris e do fluxo ao redor do Monte Quênia, teme perder parte da temporada se a imagem de “cidade do ebola” se consolidar, mesmo sem registro de infecção.

Pressão por transparência e risco de novos protestos

O próximo passo está nas mãos da Justiça e do governo central. Organizações civis exigem que o Ministério da Saúde e a chancelaria tornem públicos todos os documentos sobre o centro de quarentena: cronograma, protocolos de segurança, critérios de seleção de pacientes e regras de funcionamento da base aérea. Sem essas informações, parlamentares da oposição já prometem convocar ministros para prestar esclarecimentos.

Em Nanyuki, lideranças comunitárias avisam que os protestos devem continuar se o governo insistir em ignorar as decisões judiciais. A morte do manifestante, cujo nome ainda não é divulgado oficialmente, torna qualquer nova tentativa de dispersão um potencial gatilho para mais violência. A disputa sobre o centro de quarentena deixa de ser uma questão técnica de saúde global e se transforma em símbolo de como o Quênia negocia sua soberania diante de aliados poderosos. Resta saber se a resposta virá com mais confronto nas ruas ou com transparência e diálogo suficientes para conter o medo antes que ele se espalhe mais rápido do que qualquer vírus.

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