Sagrada Família conclui Torre de Jesus e se torna igreja mais alta do mundo
A Basílica da Sagrada Família conclui em 9 de junho de 2026 a Torre de Jesus, coroamento do projeto de Antoni Gaudí e marco histórico para Barcelona. Com 172,5 metros, a estrutura faz do templo a igreja mais alta do mundo e encerra simbolicamente 143 anos de obras.
Um século depois da morte de Gaudí, a cidade se volta ao céu
Barcelona desperta nesta quarta-feira com a sensação de que um velho canteiro de obras finalmente encontra um ponto de repouso. Cem anos após a morte de Antoni Gaudí, atropelado por um bonde em 1926, a torre central dedicada a Jesus se ergue completa sobre o traçado da cidade, como resposta tardia a um projeto que parecia interminável.
A cerimônia de bênção, conduzida por Leão 14, consagra a nova silhueta da basílica e rearranja o mapa simbólico da arquitetura religiosa. A Sagrada Família supera, em altura, igrejas icônicas da Europa e consolida sua imagem de cartão-postal absoluto da capital catalã, acima dos 160 metros de catedrais históricas como Ulm, na Alemanha.
No entorno da igreja, moradores misturam orgulho e exaustão. O bairro que durante décadas conviveu com guindastes, andaimes e martelos pneumáticos agora assiste à conversão do canteiro em monumento acabado, embora algumas frentes de trabalho ainda permaneçam ativas. “Achávamos que nunca veríamos esse dia”, diz um guia de 42 anos, que prefere não se identificar. “A torre muda a cidade. É impossível ignorá-la.”
A longa travessia de um projeto anacrônico
A história que culmina na conclusão da Torre de Jesus começa em 1883, quando um jovem Gaudí, então com cinco anos de formado, assume o comando de um templo expiatório financiado apenas por doações de fiéis. Ele chega com o respaldo de Eusebi Güell, mecenas que o introduz à elite barcelonesa, mas com pouca experiência em obras de grande escala.
O arquiteto, católico fervoroso e obcecado por geometria, enxerga na Sagrada Família a oportunidade de transformar cálculos em devoção construída. A base de seu raciocínio estrutural está nas curvas catenárias, aquelas que se formam quando uma corrente pende entre dois pontos. No estúdio improvisado dentro do canteiro, ele pendura cordões metálicos, coloca pesos, fotografa os reflexos em espelhos e traduz esse universo de fios e sombras em colunas que parecem árvores e torres que avançam como agulhas em direção ao céu.
Gaudí sabe, desde cedo, que não verá o templo concluído. Apressa a execução de uma face inteira, a Fachada da Natividade, concluída no início do século 20, para deixar um modelo de pedra às gerações seguintes. Enche o estúdio de maquetes de gesso e desenhos minuciosos. Em 1936, a Guerra Civil Espanhola devasta esse acervo: forças republicanas invadem o ateliê, destroem modelos a marretadas e incendeiam o espaço.
Quando os trabalhos recomeçam, em 1939, o país sai da guerra mergulhado na ditadura de Francisco Franco e sem praticamente nenhum roteiro confiável para seguir o plano original. Arquitetos catalães tentam decifrar o legado fragmentado de Gaudí, enquanto um abaixo-assinado com nomes como Le Corbusier e Alvar Aalto pede que o projeto seja congelado, sob o argumento de que seria desonesto fingir saber o que o mestre havia imaginado.
Nas décadas seguintes, a própria obra parece entrar em suspenso. Em 1992, quando Barcelona se exibe ao mundo com os Jogos Olímpicos, o templo ainda se assemelha a um castelo de areia cercado de guindastes. Os primeiros computadores com programas de arquitetura não conseguem dar conta do quebra-cabeça. Para aproximar o desenho das intenções de Gaudí, equipes recorrem a softwares de aviação, desenhados para calcular fuselagens de aeronaves, e passam a modelar digitalmente as formas orgânicas que o arquiteto intuía com fios e pesos.
A chegada dessas tecnologias, aliada ao salto no turismo internacional, acelera o ritmo. Em 2010, o papa consagra a basílica como igreja; em 2026, a torre central finalmente se alinha ao sonho original de erguer a composição até um limite quase vertiginoso, sem ultrapassar a altura do monte Montjuïc, referência natural que o arquiteto se recusa a desafiar.
Impacto urbano, econômico e simbólico
A conclusão simbólica da Sagrada Família ocorre num momento em que Barcelona discute o próprio limite de sua vocação turística. Antes da pandemia, a cidade recebia mais de 12 milhões de visitantes por ano, boa parte deles atraída diretamente pela obra de Gaudí. A Torre de Jesus tende a reforçar essa pressão. Hotéis, companhias aéreas e operadoras de turismo já tratam a data como gancho para novos pacotes, enquanto moradores se organizam para cobrar restrições mais rígidas ao fluxo de grupos em bairros residenciais.
Para o setor cultural, o desfecho da construção funciona como combustível. Museus, centros de arquitetura e escolas de engenharia usam o caso como laboratório vivo de inovação. O uso de softwares aeronáuticos para interpretar maquetes quebradas, a combinação de artesãos tradicionais com impressão 3D e a integração de pedra esculpida à laser com vitrais artesanais alimentam pesquisas que extrapolam o campo religioso. Empresas de construção civil veem na basílica um vitrine de técnicas avançadas aplicadas a estruturas complexas e curvas.
O efeito simbólico vai além dos números. Em uma Europa que convive com igrejas ociosas e conversões de templos em hotéis ou centros culturais, a Sagrada Família representa o movimento inverso: um esforço de um século e meio para terminar uma igreja do zero. O contraste com catedrais góticas medievais, que levaram séculos para se erguer sem cálculos estruturais precisos, alimenta o fascínio pelo caráter anacrônico da obra. “É uma construção que desafia o tempo duas vezes, primeiro pela duração e depois pela insistência em terminar”, diz um professor de história da arquitetura da Universidade Politécnica da Catalunha.
A economia local sente a diferença em cifras. Estimativas de entidades de turismo apontam que o monumento responde, direta ou indiretamente, por bilhões de euros por ano em receitas de hospedagem, alimentação e serviços. O novo marco arquitetônico tende a prolongar estadias, impulsionar visitas guiadas noturnas e atrair públicos que antes evitavam o excesso de obras e andaimes.
Depois do coroamento, o desafio de preservar o mito
A bênção da Torre de Jesus não encerra o trabalho. Restam ajustes internos, acabamentos, restauros e um debate sensível: como conservar uma obra que, por definição, nasceu inacabada. A fundação responsável pela basílica se depara agora com um orçamento que muda de foco, da construção pesada para a manutenção permanente de estruturas complexas, expostas a um fluxo diário de dezenas de milhares de visitantes.
Arquitetos e urbanistas discutem a próxima fronteira: a cidade precisa decidir quanto espaço físico e simbólico dará à Sagrada Família nas próximas décadas. Regulamentações sobre uso do solo, limites de altura nas redondezas e políticas de turismo vão definir se a nova torre será vista como ápice ou início de uma nova fase de saturação. Gaudí, que morreu anônimo em um hospital público, sem que ninguém o reconhecesse no momento do acidente, provavelmente se espantaria com a devoção que sua obra ainda desperta. Um século depois, a pergunta que fica para Barcelona é se a cidade conseguirá conviver com o peso desse mito sem se deixar esmagar por ele.
