Ultimas

Ataques de Israel no sul do Líbano matam 14 e elevam risco de escalada

Ataques de Israel no sul do Líbano deixam ao menos 14 mortos nesta segunda-feira (8), após nova rodada de bombardeios em Zifta e Tiro. O governo israelense reafirma que não pretende interromper a campanha contra o Hezbollah, mesmo sob pressão de Irã e Estados Unidos.

Bombardeios atingem civis e reforçam impasse

Os ataques desta segunda-feira se concentram na região de Zifta, no distrito de Nabatieh, e na cidade costeira de Tiro, principal centro urbano do sul do país. O Ministério da Saúde do Líbano contabiliza pelo menos 14 mortos, entre eles uma mulher e uma criança síria, e dezenas de feridos, em meio a novos deslocamentos de moradores rumo ao norte.

Em Zifta, relatos de moradores descrevem prédios residenciais atingidos durante a madrugada e novas explosões no meio da manhã. Ambulanças cruzam estradas danificadas por crateras enquanto equipes de resgate buscam sobreviventes sob escombros. Autoridades libanesas dizem que parte das vítimas é retirada de casas que abrigavam famílias deslocadas de vilarejos ainda mais próximos da fronteira.

Em Tiro, um carro é destruído por um míssil nas proximidades de um prédio da Cruz Vermelha Libanesa. A agência estatal NNA atribui o ataque a Israel. A organização informa que quatro paramédicos ficam feridos por estilhaços de vidro quando socorrem vítimas em uma rua próxima. A cena, registrada por celulares, mostra voluntários correndo para o interior do prédio enquanto sirenes de outros veículos de resgate se aproximam.

O Hezbollah afirma ter atacado tropas israelenses em território libanês em reação aos bombardeios. O grupo, apoiado pelo Irã, não reivindica ataques em solo israelense nesta rodada de confrontos. A fronteira, porém, segue marcada por trocas de artilharia e drones observados sobre povoados nos dois lados, em violação constante de uma trégua que, na prática, nunca se consolida.

Campanha contínua expõe limite da trégua

Os episódios desta segunda acontecem poucas horas depois de Israel e Irã anunciarem o fim de uma rodada de ataques diretos que quase enterra o cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos. Teerã lança mísseis contra Israel no fim de semana, em resposta a bombardeios israelenses a redutos do Hezbollah nos subúrbios de Beirute. Após pressão pública do presidente americano, Donald Trump, os dois países afirmam suspender as ofensivas diretas.

A trégua formal, em vigor desde 17 de abril, já mostra números que desmontam a ideia de pausa. O governo libanês calcula que o Exército de Israel realiza 3.491 ataques aéreos e 407 demolições no país desde o início do acordo. Mais de 1 milhão de pessoas, cerca de um quinto da população do Líbano, abandonam suas casas em busca de abrigos improvisados, escolas públicas e instalações de organizações humanitárias.

O ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, diz que a campanha no Líbano continua e vincula abertamente o destino de Beirute às incursões contra o Hezbollah. “Rejeitamos categoricamente as ameaças do Irã. Qualquer tentativa iraniana de vincular Líbano e Irã e atacar Israel será enfrentada com grande força, como aconteceu ontem”, afirma. Ele promete retaliações nos subúrbios da capital libanesa “a cada ataque” lançado contra o norte de Israel.

A declaração vem acompanhada de um alerta de retirada emitido pelo Exército israelense para parte de Tiro, onde militares identificam possíveis posições do Hezbollah. O movimento reforça o temor de que a ofensiva, hoje concentrada no sul, avance em direção à capital. Diplomatas em Beirute relatam preocupação com a velocidade da deterioração humanitária, em um país que ainda tenta se recuperar da explosão no porto em 2020 e do colapso econômico posterior.

Teerã, que financia e treina o Hezbollah há décadas, sinaliza que vincula qualquer arranjo regional ao Líbano. O governo iraniano insiste que “qualquer solução para o conflito” deve incluir garantias sobre o território libanês e o fim dos ataques israelenses. O discurso amplia o peso simbólico e estratégico do país árabe em uma disputa que já ultrapassa fronteiras e se projeta sobre rotas de energia, mercados de armas e negociações diplomáticas em Nova York, Bruxelas e Moscou.

Risco de escalada e impasse diplomático

A continuidade dos bombardeios em Zifta e Tiro expõe o esvaziamento da pressão internacional sobre Israel e o Hezbollah. O alerta de Trump, que nas últimas semanas tenta conter uma escalada aberta entre Israel e Irã, não se traduz até agora em mudança concreta na estratégia em campo. Israel mantém a leitura de que enfraquece o Hezbollah por desgaste contínuo, enquanto o grupo aposta na resistência prolongada e na narrativa de defesa do território libanês.

Na prática, o custo recai sobre civis. Hospitais no sul do Líbano relatam falta de leitos, remédios e combustível para geradores em meio a cortes frequentes de energia. Escolas viram abrigos, fábricas interrompem a produção e estradas que ligam o sul a Beirute acumulam comboios de famílias que fogem com poucas malas. Organizações humanitárias estimam que o número de deslocados internos pode crescer nas próximas semanas, caso a intensidade dos ataques se mantenha no patamar atual.

A ofensiva também altera o cálculo político dentro do Líbano. O governo, fragilizado por crises sucessivas e por disputas internas, tenta mostrar que documenta violações e leva denúncias à ONU, mas tem pouco controle real sobre o curso dos acontecimentos. Líderes libaneses se dividem entre cobrar contenção do Hezbollah e apoiar o papel do grupo como força de dissuasão diante de Israel, o que trava qualquer consenso nacional sobre uma saída negociada.

Do lado israelense, o endurecimento do discurso de Katz ecoa demandas de parte da coalizão governista por respostas mais duras. Setores da oposição alertam para o risco de abrir uma frente duradoura no Líbano enquanto o país ainda lida com tensões em outros pontos da região. A lembrança da guerra de 2006, que deixou mais de mil mortos no Líbano e destruiu infraestrutura vital, volta ao centro do debate em Tel Aviv e em capitais ocidentais.

Próximos passos e incertezas no tabuleiro regional

Sem sinal claro de recuo de Israel ou do Hezbollah, mediadores internacionais tentam salvar o que resta da trégua firmada em abril. Diplomatas europeus discutem a ampliação da presença da força de paz da ONU no sul do Líbano e condicionam novos pacotes de ajuda econômica a algum compromisso de redução de hostilidades. Até agora, porém, nenhuma proposta concreta consegue equilibrar as demandas de segurança israelenses e as exigências libanesas de soberania.

O Irã mantém no horizonte a ameaça de retomar ataques com mísseis caso considere que Israel cruza novas “linhas vermelhas” no Líbano. Os Estados Unidos tentam conter uma escalada que poderia envolver rotas petrolíferas e arrastar outros aliados regionais, mas enfrentam desconfiança de ambos os lados. Enquanto bombas continuam a cair sobre Zifta, Tiro e arredores de Beirute, a pergunta que ecoa nos abrigos e nos gabinetes diplomáticos é se a região ainda tem margem para evitar uma nova guerra em larga escala.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *