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Pai de vítima acusa Igreja espanhola de silenciar ONGs em encontro com papa

Em plena visita do papa Leão XIV à Espanha, em junho de 2026, o espanhol Juan Cuatrecasas acusa a Igreja Católica do país de silenciar associações de vítimas de abuso sexual e de excluí-las de um encontro oficial com o pontífice. O pai de um ex-aluno violentado aos 13 anos em um colégio da Opus Dei afirma que a conferência episcopal espanhola manipula o relato apresentado ao Vaticano e impede a participação das organizações mais críticas.

Igreja “cozinha” o próprio relato para o Vaticano

A denúncia ganha corpo em Madri, onde Leão XIV cumpre agenda até 12 de junho e deve reunir-se com sobreviventes de abusos nesta segunda-feira, 8 de junho, em encontro articulado pela Conferência Episcopal Espanhola. Cuatrecasas, porta-voz da associação Infância Roubada, diz que as entidades que nasceram diretamente da dor das vítimas ficam de fora, enquanto grupos alinhados à hierarquia ocupam o espaço com uma versão filtrada da crise.

Ele descreve uma Igreja preocupada menos em escutar as vítimas e mais em “vender” ao papa uma narrativa de sucesso institucional. “A Igreja espanhola decidiu vender seu próprio relato a Leão XIV”, afirma. “As autoridades eclesiásticas eliminaram, de forma sumária, as associações formadas pelas verdadeiras vítimas, silenciando-as e substituindo suas vozes por uma versão tendenciosa e controlada da realidade. Tudo fica em casa. Como diz o ditado: ‘Quem cozinha, come’”, ironiza.

Cuatrecasas lembra que seu filho é abusado aos 13 anos por um numerário da Opus Dei em um colégio de Leioa, no País Basco. A família leva o caso à Justiça, enfrenta resistência local e decide mudar de região após sofrer ameaças. “Tivemos que começar uma vida quase do zero, pois sofremos ameaças”, relata. Em primeira instância, o agressor recebe pena de 11 anos de prisão, em Bilbao. A condenação cai para dois anos após recurso, fato que ele atribui à influência política do réu, “sobrinho de um político de alto escalão”.

O ativista vê na trajetória do próprio processo a síntese de um sistema que protege a instituição antes de proteger crianças. Ele não esconde o cansaço de quase duas décadas de luta, mas insiste em repetir a história cada vez que a Igreja tenta reescrever os fatos em nome da reputação. “Com muita ajuda, meu filho tem uma vida bastante convencional. Ele estudou direito, fez mestrado, hoje tem 28 anos e uma vida mais estável. Mas outras vítimas não tiveram a mesma sorte”, lamenta.

Negacionismo, planos fracassados e disputa por voz

O embate atual gira em torno de quem fala em nome das vítimas diante do papa. De um lado, entidades como a Infância Roubada, formadas por sobreviventes e familiares, que cobram transparência, reparação financeira estruturada e reconhecimento público do dano. De outro, os mecanismos criados pela própria Igreja espanhola para lidar com o escândalo, como o Plano Priva e o Programa Repara, apresentados como marcos de compromisso com as vítimas.

Cuatrecasas diz que essas iniciativas produzem mais propaganda que justiça. “Não passam de dois fracassos, em comparação com a magnitude do problema, disfarçados de ‘sucessos’”, critica. Ainda assim, segundo ele, são justamente os beneficiários desses programas, e não as organizações independentes, que ganham espaço na reunião com Leão XIV. A disputa é menos simbólica do que parece: quem se senta diante do papa influencia a percepção do Vaticano sobre o alcance do problema e o tipo de resposta esperado da Igreja.

O porta-voz da Infância Roubada acusa a cúpula episcopal de bloquear tentativas de acordo com o Estado para financiar indenizações amplas. “A Igreja Católica espanhola é negacionista, tem uma hierarquia na conferência episcopal que nos tornou a vida impossível. Eles colocaram todo o tipo de travas, inclusive ao acordo entre a Igreja e o Estado para indenizar as vítimas. Não confiamos na conferência episcopal espanhola”, afirma.

Ele também contesta a forma como o encontro com as vítimas é anunciado. Segundo Cuatrecasas, a conferência divulga apenas no domingo, véspera da reunião, um comunicado que condiciona a audiência com o papa à adesão ao plano de reparação da Arquidiocese de Madri. “A Igreja mentiu sobre o encontro. Não havia nenhuma previsão de reunião. Hoje divulgaram um comunicado no qual afirmavam que o papa somente veria as vítimas que aceitaram um plano de reparação”, denuncia.

A queixa se soma a anos de relatórios, comissões internas e promessas de “tolerância zero” que, na avaliação de entidades de vítimas, ainda não se traduzem em responsabilização efetiva. A visita de Leão XIV, sucessor direto de Francisco e herdeiro do discurso de combate aos abusos, reacende a disputa entre a narrativa oficial, que ressalta avanços, e a realidade de processos arrastados, penas reduzidas e famílias deslocadas por medo e vergonha.

Pressão internacional e incógnitas após a visita papal

A presença do papa em Madri, com imagens amplamente divulgadas de eventos públicos e gestos de aproximação, como a participação em uma apresentação de flamenco, contrasta com o clima de frustração entre sobreviventes que se sentem à margem. A fotografia de Leão XIV sorrindo em um teatro da capital circula nas redes enquanto, em paralelo, associações de vítimas questionam o que chamam de “cenário controlado” para o encontro reservado.

Organizações de defesa de direitos humanos acompanham o caso e cobram que o Vaticano estabeleça critérios claros para a escolha dos interlocutores em visitas oficiais. A exclusão de grupos críticos na Espanha pode alimentar pressões em outros países onde a Igreja enfrenta escândalos semelhantes, da França ao Chile. A imagem global do pontificado, construído sobre a promessa de transparência e tolerância zero, entra em teste prático quando a pauta deixa o discurso e chega às salas de reunião.

Cuatrecasas aposta que a repercussão internacional, inclusive em veículos da América Latina, força algum tipo de reação. Ele diz acreditar na boa-fé de Leão XIV, mas afirma que isso não basta diante de uma estrutura que, em sua avaliação, continua a operar em lógica de autodefesa. “O papa pode querer escutar, mas se lhe entregam um roteiro pronto, nós continuamos do lado de fora”, resume.

A visita termina em 12 de junho, mas o desgaste fica. A acusação de manipulação da Igreja espanhola em pleno tour papal abre espaço para novas investigações, pressiona por comissões verdadeiramente independentes e recoloca na agenda o debate sobre reparações financeiras amplas, compartilhadas entre Estado e instituição religiosa. A principal dúvida, depois da passagem de Leão XIV por Madri, é se a voz das vítimas finalmente atravessa os muros da conferência episcopal ou se continuará a ecoar apenas do lado de fora das fotos oficiais.

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