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Ataques de Israel no sul do Líbano matam 14 e ampliam risco regional

Ataques aéreos de Israel no sul do Líbano matam ao menos 14 pessoas nesta segunda-feira (8), segundo o Ministério da Saúde libanês. Os bombardeios atingem áreas civis e elevam o risco de uma nova escalada entre Israel, Hezbollah e Irã.

Bombardeios em cidades-chave e civis entre as vítimas

As explosões voltam a sacudir a região de Nabatieh no meio da tarde. Em Zifta, uma cidade agrícola cercada por vilarejos pobres, mísseis israelenses atingem casas e ruas estreitas. O governo libanês contabiliza pelo menos 14 mortos na ofensiva, entre eles uma mulher e uma criança síria, de acordo com autoridades locais.

A poucos quilômetros dali, em Tiro, principal centro urbano do sul do Líbano, um carro é destruído por um ataque aéreo. A agência estatal NNA atribui a investida a Israel e relata que o veículo é atingido perto de um prédio da Cruz Vermelha Libanesa. Estilhaços de vidro ferem quatro paramédicos que atendem outra ocorrência na região. O alvo exato do ataque não é esclarecido até o início da noite.

Os bombardeios ocorrem no mesmo dia em que Israel reitera que continuará a ofensiva contra o Hezbollah, mesmo após advertências públicas do Irã e do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O movimento xiita libanês afirma ter atacado tropas israelenses em território libanês, em resposta à operação, mas não reivindica ações dentro de Israel.

O novo ciclo de violência atinge um país exausto. O Líbano calcula mais de 1 milhão de deslocados internos desde o início da guerra, o equivalente a cerca de 20% da população. Famílias abandonam casas, plantações e comércios e se espalham por escolas, depósitos improvisados e apartamentos superlotados no norte do país.

Trégua frágil e disputa por pressão internacional

Os ataques desta segunda-feira expõem a fragilidade da trégua mediada pelos Estados Unidos e em vigor desde 17 de abril. O acordo reduz parte dos bombardeios, mas não interrompe a campanha militar israelense em território libanês. Em balanço divulgado pelo governo em Beirute, o Exército de Israel já realiza 3.491 ataques aéreos e 407 demolições nesse período.

A ofensiva atual ocorre poucas horas depois de Israel e Irã anunciarem o encerramento de uma rodada de ataques diretos que quase enterra o cessar-fogo regional. No fim de semana, Israel bombardeia redutos do Hezbollah nos subúrbios do sul de Beirute. Teerã reage com um ataque de mísseis contra alvos israelenses. A interrupção temporária das trocas de fogo só vem após pressão pública de Trump para que os dois lados “cessem imediatamente as hostilidades”.

O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, ignora o apelo e endurece o discurso. Ele declara que as Forças Armadas seguirão atuando contra o Hezbollah no Líbano e que os subúrbios da capital continuarão como alvo. “Rejeitamos categoricamente as ameaças do Irã. Qualquer tentativa iraniana de vincular Líbano e Irã e atacar Israel será enfrentada com grande força, como aconteceu ontem”, afirma.

Pouco depois da fala, o Exército israelense emite um alerta de retirada para uma área de Tiro, sinal de que novos ataques podem ocorrer. Nas ruas, moradores enchem carros com sacolas e colchões e tentam escapar antes do anoitecer, repetindo uma rotina de fugas iniciada ainda em abril.

Do lado iraniano, autoridades insistem que qualquer solução para o conflito regional precisa incluir o Líbano. Teerã avisa que poderá retomar ofensivas se Israel mantiver a campanha em território libanês. A mensagem ecoa em Beirute e em capitais europeias, que veem no sul do Líbano o elo mais frágil de uma cadeia de tensões que envolve Síria, Gaza e Golfo Pérsico.

Custo humano, pressão diplomática e risco de escalada

A guerra volta a redesenhar o mapa social do Líbano. Em pouco menos de dois meses de trégua parcial, o número de deslocados chega à casa de sete dígitos. Cidades como Tiro, tradicional destino de veraneio na costa mediterrânea, se transformam em ponto de passagem para famílias que fogem de vilarejos destruídos no interior. Hospitais sobrecarregados lutam para manter leitos e estoques de remédios enquanto lidam com feridos diários de bombardeios e da crise econômica prolongada.

No campo militar, a continuidade dos ataques israelenses corrói o espaço para negociações. Cada incursão aérea alimenta a pressão interna sobre o Hezbollah para responder com foguetes e drones. Cada lançamento de míssil a partir do Líbano reforça, em Israel, a percepção de que a campanha precisa se aprofundar para afastar o grupo armado da fronteira norte.

O impasse coloca também Washington em posição desconfortável. Os Estados Unidos seguem como principal aliado militar de Israel e, ao mesmo tempo, tentam evitar uma guerra em larga escala com participação direta do Irã. A advertência de Trump para que os rivais interrompam os ataques tem efeito limitado no terreno, mas indica que a tolerância da Casa Branca com a escalada encontra um limite.

Analistas na região lembram que a fronteira entre Israel e Líbano concentra alguns dos episódios mais violentos do Oriente Médio nas últimas décadas. Em 2006, uma guerra de 34 dias entre Israel e Hezbollah deixa mais de mil mortos no Líbano e centenas de milhares de deslocados. Quase vinte anos depois, parte da infraestrutura reconstruída com dificuldade volta a ser alvo de bombas.

O cenário atual, porém, inclui uma variável mais complexa: a intervenção aberta do Irã com ataques de mísseis contra o território israelense. A presença direta de Teerã amplia o risco de que um incidente localizado em uma cidade como Zifta desencadeie uma cadeia de respostas capaz de arrastar outros países e bloquear, por exemplo, rotas comerciais vitais no Mediterrâneo e no Golfo.

O que pode acontecer a partir de agora

Diplomatas em Beirute, Tel Aviv e Washington trabalham para evitar que o episódio desta segunda-feira se torne ponto de não retorno. A avaliação predominante é que Israel deve manter a pressão sobre o Hezbollah no curto prazo, testando até onde o Irã está disposto a ir após a recente rodada de mísseis. Em paralelo, Teerã busca usar o peso de sua influência sobre o grupo libanês como moeda em negociações indiretas com os Estados Unidos.

No chão, o tempo corre em outra velocidade. Deslocados dependem de abrigos temporários, ajuda internacional e redes familiares fragilizadas por anos de crise econômica. Agricultores do sul perdem safras inteiras, e comerciantes veem o consumo desabar em cidades onde sirenes e drones marcam o ritmo dos dias. Cada nova sirene reforça uma pergunta sem resposta clara: até quando o Líbano consegue suportar uma guerra que não controla, travada em seu território e decidida por potências que olham o país como apenas mais um tabuleiro?

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