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Eleição no Peru tem disputa voto a voto entre Sánchez e Fujimori

O Peru vive na noite desta segunda-feira (8) uma disputa voto a voto pela Presidência. Com 95,1% das urnas apuradas, Roberto Sánchez tem 50,118% dos votos, contra 49,882% de Keiko Fujimori. A diferença é de apenas 41.709 votos, em um país marcado por uma década de instabilidade e desconfiança no sistema político.

País dividido acompanha apuração lenta e tensa

A contagem segue em ritmo lento e mantém o país em suspense desde o fechamento das urnas, na tarde desta segunda-feira. À medida que as atas chegam dos rincões andinos, da Amazônia e do exterior, a liderança oscila em margens mínimas, alimentando a sensação de que qualquer voto pode decidir o resultado.

Roberto Sánchez, candidato de esquerda associado ao legado do ex-presidente Pedro Castillo, vira o jogo no meio da tarde. Às 10h37, Keiko Fujimori lidera com vantagem de cerca de 50 mil votos. Ao longo do dia, essa frente encolhe de forma constante. Às 15h18, Sánchez ultrapassa a rival e não perde mais a dianteira, embora a diferença siga apertada, variando de 16 mil a pouco mais de 40 mil votos minuto a minuto.

O cenário reforça a imagem de um eleitorado profundamente fragmentado. Nenhum dos dois candidatos desperta entusiasmo amplo. Pesquisas de intenção de voto já indicavam uma disputa marcada mais pela rejeição do que pela adesão, com eleitores divididos entre o que consideram o “menos pior”.

Para analistas, a demora na apuração e a margem estreita de votos alimentam a desconfiança em instituições já desgastadas. O Peru caminha para escolher o nono presidente em dez anos, depois de renúncias, destituições e prisões que corroem a crença no sistema democrático.

Crise de legitimidade e fantasma do passado no centro da disputa

A eleição ocorre sob o peso de uma crise de legitimidade sem precedentes recentes na região. Quatro ex-presidentes peruanos estão presos por corrupção ou abusos de poder. Nesse ambiente, a figura do chefe do Executivo perde densidade simbólica.

“Esta é uma eleição sem liderança sólida, com grande desconfiança no sistema eleitoral”, avalia o analista político Jeffrey Radzinsky. Para ele, “a figura do presidente da República perdeu peso no imaginário coletivo”, fato que ajuda a explicar o clima frio nas ruas, apesar da tensão política.

Urpi Torrado, CEO da empresa de pesquisas Datum Internacional, vê uma disputa guiada pela rejeição. “Grande parte da votação está sendo impulsionada pela rejeição, e não pelo entusiasmo”, afirma. Segundo ela, muitos peruanos votam em quem consideram ter menos riscos, e não em quem realmente desejam ver no poder. “Não há perspectivas definidas para nenhum dos candidatos”, diz.

De um lado, Keiko Fujimori tenta pela quarta vez chegar ao Palácio de Governo. Sua campanha aposta em um discurso de linha dura contra o crime, evocando o legado de seu pai, o ex-presidente Alberto Fujimori, falecido e condenado por violações de direitos humanos e corrupção. A associação mobiliza parte do eleitorado conservador, mas mantém alta a rejeição de quem vê no fujimorismo um retorno a métodos autoritários.

Do outro lado, Roberto Sánchez se apresenta como herdeiro político de Pedro Castillo, ex-presidente de esquerda hoje preso após tentativa fracassada de fechar o Congresso. O candidato tenta se afastar da imagem de ruptura institucional e modera o discurso econômico, prometendo reformas graduais e diálogo com o setor privado para não assustar investidores.

Independentemente do vencedor, o novo governo encontra pela frente um Congresso fragmentado, com legendas pequenas e alianças instáveis. A experiência recente mostra que o conflito entre Legislativo e Executivo se converte em paralisia, pedidos de impeachment e protestos nas ruas, aprofundando a sensação de país ingovernável.

Impactos imediatos na política, na economia e nas ruas

A incerteza prolongada já pressiona a economia e os mercados financeiros. Investidores locais e estrangeiros monitoram cada atualização da autoridade eleitoral, atentos à possibilidade de contestações formais e mobilizações de rua. O histórico de impasse institucional e mudanças bruscas de governo pesa sobre decisões de investimento e geração de empregos.

A agenda de segurança também entra no centro da disputa. Keiko Fujimori promete endurecer leis penais e ampliar o papel das Forças Armadas no combate ao crime organizado, em linha com propostas de “tolerância zero”. Grupos de direitos humanos temem retrocessos e lembram abusos cometidos durante o governo de Alberto Fujimori.

Sánchez fala em combater o crime com reforço à polícia, investimentos em inteligência e políticas sociais em periferias urbanas, sem abrir mão de direitos civis. A estratégia busca dialogar com eleitores de centro preocupados com a escalada da violência, mas avessos a saídas autoritárias.

No plano social, o próximo presidente enfrenta um país cansado da política. Pesquisas mostram que quase metade dos peruanos acredita que o próximo mandatário não completará o mandato de cinco anos. O dado antecipa um governo sob vigilância constante, com margem estreita para erros e pouca paciência da opinião pública.

Os principais perdedores, em qualquer cenário, tendem a ser os setores mais vulneráveis, que dependem de estabilidade mínima para acessar serviços públicos, programas sociais e trabalho. A paralisia entre Executivo e Congresso costuma travar reformas tributárias, investimentos em saúde e educação e políticas de combate à pobreza.

Reta final da apuração e próximos capítulos

A autoridade eleitoral continua a receber atas de zonas rurais isoladas e de votos no exterior, que podem reduzir ou ampliar a diferença de 41.709 votos entre Sánchez e Fujimori. Qualquer mudança brusca na margem tende a ser contestada por apoiadores do lado derrotado, o que prolonga o clima de suspeita.

As duas campanhas adotam um discurso público de cautela. Em reservado, aliados já discutem estratégias jurídicas para eventuais pedidos de recontagem em mesas específicas e questionamento de atas consideradas irregulares. A memória da eleição de 2021, marcada por semanas de disputa judicial, volta com força às conversas em Lima.

O calendário oficial prevê a proclamação do resultado somente após a análise de todos os recursos. Até lá, o Peru segue entre o risco de novas ondas de protestos e a chance de um acordo mínimo em torno do respeito às urnas. O país que escolhe seu nono presidente em uma década testa, mais uma vez, os limites de sua frágil democracia e deixa aberta a pergunta que ecoa nas ruas: quem quer que vença, conseguirá governar até o fim?

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