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Golpista que se passava por adolescente é presa em Santa Catarina

A Polícia Civil de Santa Catarina prende, em 2026, Amanda Maria Souza de Oliveira, 38, suspeita de aplicar golpes desde 2010 em ao menos sete estados. A mulher se passa por adolescente, assume identidades falsas e é apontada como articuladora de uma rede de estelionatos e fraudes financeiras. A prisão encerra uma caçada de mais de uma década e abre espaço para novas investigações sobre o rastro de vítimas deixado pelo esquema.

Investigação fecha cerco após 16 anos de golpes

A captura ocorre depois de uma investigação longa, que cruza dados de delegacias de Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Ceará, Rio Grande do Norte, São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina. Os primeiros registros formais de golpes atribuídos a Amanda aparecem em 2010, mas policiais admitem, em reserva, que a atuação pode ser ainda mais antiga. O padrão se repete: documentos forjados, perfis falsos, histórias convincentes e vítimas que acreditam estar diante de uma jovem vulnerável, não de uma mulher adulta com histórico de crimes.

O inquérito que leva à prisão reúne depoimentos de dezenas de pessoas enganadas, extratos bancários, laudos de perícia em celulares e computadores e quebras de sigilo autorizadas pela Justiça. Delegados ouvidos pela reportagem descrevem uma criminosa cuidadosa, que muda de cidade com frequência, usa nomes distintos em cada estado e adota sotaques diferentes para dificultar o reconhecimento. “Ela explora a confiança, a empatia e a pressa das pessoas, sempre com narrativas bem construídas”, afirma um investigador que acompanha o caso desde 2018.

As estimativas preliminares apontam prejuízo financeiro de centenas de milhares de reais, com operações pulverizadas em pequenas transferências, compras online e contratos de serviços jamais entregues. Em muitos episódios, Amanda se apresenta como adolescente em situação de risco, vítima de violência doméstica ou em fuga de uma família agressora, o que sensibiliza interlocutores e reduz o grau de desconfiança. As narrativas variam, mas o desfecho se repete: pedidos de ajuda financeira imediata, empréstimos informais e adiantamentos para negócios que jamais se concretizam.

Rede de vítimas espalhada pelo país e falhas de controle

O impacto da prisão se mede não apenas pelo valor dos golpes, mas pela extensão geográfica e emocional do dano. Vítimas de pelo menos sete estados relatam sensação de humilhação, vergonha e perda de confiança em relações digitais e presenciais. Algumas famílias relatam ter perdido economias de anos; outras, terem contraído dívidas após avalizar empréstimos ou emprestar cartões de crédito. Em um dos casos sob apuração, uma vítima transfere mais de R$ 30 mil ao longo de seis meses, sempre acreditando ajudar uma suposta adolescente em perigo.

A atuação de Amanda expõe fragilidades na checagem de identidade em serviços bancários, plataformas digitais e até cadastros públicos. Em diferentes momentos, ela usa documentos com numeração real, mas dados adulterados, o que dificulta a detecção imediata das fraudes. Especialistas em segurança ouvidos pela reportagem defendem o reforço de camadas de verificação, como reconhecimento facial cruzado com bases estatais, além de alertas automáticos em casos de abertura sucessiva de contas vinculadas a um mesmo aparelho ou endereço.

O caso também reacende o debate sobre a punição ao estelionato no Brasil. O Código Penal prevê pena de 1 a 5 anos de reclusão para o crime, aumentada em situações específicas, mas a sensação de impunidade ainda persiste entre vítimas. “Quando alguém passa mais de dez anos enganando pessoas em vários estados, fica claro que os mecanismos de prevenção e repressão não funcionam como deveriam”, avalia um promotor ouvido pela reportagem. Entidades de defesa do consumidor veem na prisão uma oportunidade de pressionar por mudanças legais e por políticas de educação financeira e digital.

A cooperação entre estados, apontada pela polícia como decisiva, ainda é tratada como exceção, não como regra. Delegacias de diferentes regiões trocam informações pontuais, mas nem sempre utilizam sistemas integrados. No caso de Amanda, a conexão entre um boletim de ocorrência registrado em 2012 em Minas e outro, de 2016, no Ceará, só se concretiza anos depois, quando investigadores catarinenses revisam casos arquivados e identificam semelhanças nos modos de atuação. A partir daí, o quadro se redesenha como um grande mosaico nacional de golpes.

Pressão por mudanças, novas denúncias e reforço na prevenção

Com a prisão de Amanda, delegacias de diferentes estados iniciam um esforço para localizar novas vítimas e reabrir inquéritos antigos. Policiais orientam que pessoas que tenham sofrido golpes semelhantes procurem as autoridades, mesmo que o episódio tenha ocorrido há mais de dez anos. A expectativa é ampliar o número de casos formalmente atribuídos à suspeita, o que pode influenciar tanto a dosimetria da pena quanto eventuais acordos de reparação de danos.

Órgãos de defesa do consumidor e especialistas em segurança digital reforçam recomendações básicas, como desconfiar de pedidos urgentes de dinheiro, checar identidades por mais de um canal e evitar transferências a desconhecidos. Instituições financeiras estudam ampliar sistemas de alerta para movimentações consideradas atípicas, com foco em transferências sucessivas para contas recém-abertas. Governos estaduais discutem a criação de protocolos padronizados para o compartilhamento ágil de informações sobre golpistas reincidentes.

O caso de Amanda pressiona o poder público a rever procedimentos de emissão de documentos, fortalecer bases biométricas e acelerar a integração de cadastros entre estados. Parlamentares já indicam que devem pautar projetos sobre estelionato e uso de identidade falsa ainda neste ano legislativo, com possibilidade de endurecimento de penas e ampliação de medidas cautelares. Para as vítimas, porém, a discussão central não é apenas quanto tempo a golpista ficará presa, mas se as brechas que permitiram sua atuação por mais de uma década serão, de fato, fechadas. A resposta a essa pergunta deve definir se a prisão de hoje representa apenas um caso isolado ou um ponto de virada no combate a fraudes que ignoram fronteiras.

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