EUA tratam PCC e CV como terroristas e acendem alerta econômico
Os Estados Unidos passam a tratar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas a partir desta sexta-feira (5/6). A decisão insere as principais facções brasileiras no centro de uma campanha regional contra o chamado narcoterrorismo, que desde 2025 remodela a relação de Washington com México, Colômbia e Venezuela.
Da ordem de Trump à mira sobre as facções brasileiras
No primeiro dia de seu segundo mandato, em 2025, Donald Trump assina a ordem executiva que pede ao Departamento de Estado a classificação de cartéis latino-americanos como organizações terroristas estrangeiras. Um mês depois, o então secretário de Estado, Marco Rubio, confirma a lista, que inclui os cartéis de Sinaloa e Jalisco Nova Geração, no México, o Trem de Arágua, na Venezuela, e o Clã do Golfo, na Colômbia. Ao longo de 2025 e início de 2026, o cerco se amplia e alcança grupos do Equador e da América Central.
Neste ano, o alvo passa a ser o Brasil. PCC e Comando Vermelho recebem o mesmo selo jurídico de grupos historicamente associados ao terrorismo. A designação leva os nomes das facções para a lista do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (Ofac), órgão do Tesouro americano responsável por sanções econômicas. Na prática, todos os bens que esses grupos ou seus operadores mantêm sob jurisdição dos EUA são congelados imediatamente.
A decisão marca um novo capítulo da política de segurança de Washington na região. “A designação muda definitivamente o tom em relação a esses grupos e como qualificam a ameaça que eles representam”, afirma Cecilia Farfán-Méndez, chefe do Observatório Norte-Americano da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC). A palavra “terrorismo” abre espaço para investigações mais amplas, penas mais duras e pressão adicional sobre governos considerados lenientes.
Sanções, custos mais altos e tensão política
O efeito imediato da classificação é econômico. Desde fevereiro de 2025, quando seis facções mexicanas entram na lista, o sistema financeiro americano passa a monitorar com lupa qualquer operação ligada a regiões dominadas por cartéis. No México, pelo menos 40 pessoas associadas a organizações designadas como terroristas são incluídas nominalmente na base da Ofac, 23 delas ligadas ao Cartel de Sinaloa. Mais de 50 empresas conectadas ao grupo são sancionadas, além de 31 negócios atrelados ao Jalisco Nova Geração.
No caso venezuelano, a ofensiva de Washington culmina em um desfecho sem precedentes: em janeiro de 2026, uma operação armada leva à captura de Nicolás Maduro. O governo americano passa a exercer controle direto sobre decisões centrais em Caracas, o que enfraquece o Trem de Arágua e aprofunda a percepção de intervenção externa na política local. Na Colômbia, o impacto chega ao topo do poder. O presidente Gustavo Petro, a primeira-dama Verónica Alcocer e seu filho Nicolás entram na lista de indivíduos associados ao narcotráfico. Contas são bloqueadas, transações com o círculo próximo do governo viram risco jurídico, e empresários correm para rever contratos.
No México, a pressão se mistura à suspeita de uso político da campanha. Em junho de 2025, dez autoridades do Estado de Sinaloa, incluindo o governador Rubén Rocha Moya, são denunciadas pelo Departamento de Justiça americano por supostos vínculos com o cartel homônimo. A Casa Branca também intensifica a cooperação em segurança, enquanto surgem relatos de ações clandestinas da CIA em território mexicano. O governo de Claudia Sheinbaum denuncia uma “operação não autorizada” após a morte de dois oficiais americanos em um acidente de carro no norte do país e exige respeito à soberania nacional.
Os custos corporativos sobem. Um relatório citado pela consultoria Control Risks indica aumento de 8% a 12% nas despesas logísticas no México, um ano depois da designação dos cartéis como terroristas. Seguros de caminhões nas áreas afetadas ficam até 30% mais caros. Em paralelo, o Tesouro americano determina que bancos em cidades fronteiriças nos Estados da Califórnia e do Texas exijam identificação para transações em dinheiro acima de US$ 200 e reportem automaticamente essas operações.
No Brasil, a entrada do PCC e do Comando Vermelho nesse tabuleiro projeta um efeito semelhante. Bancos, tradings, fundos de investimento e multinacionais que operam em regiões onde as facções atuam reforçam seus departamentos de compliance. “Um banco nos EUA que tenha contas de pessoas envolvidas com uma das organizações pode ser sancionado criminalmente e civilmente se não demonstrar diligência devida”, explica o economista Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior e sócio da consultoria BMJ. O temor é que investidores estrangeiros ampliem a cautela com o país, encarecendo crédito e travando projetos em setores mais expostos ao crime organizado.
Entre o combate ao narcoterrorismo e o risco de efeito reverso
A aposta dos EUA é que a combinação de sanções, bloqueio de bens e processos criminais em série asfixie o financiamento das facções. Na prática, o resultado ainda é incerto. A GI-TOC relata que, no México e na América Central, não há sinais claros de redução da violência desde 2025. Os cartéis seguem ativos, adaptam rotas, diversificam negócios ilegais e ampliam o uso de intermediários financeiros fora do alcance direto de Washington.
A grande exceção é a Venezuela. O Trem de Arágua parece entrar em fase de fragmentação, pressionado por operações conjuntas de Chile, Colômbia e EUA contra suas células regionais. Em outubro de 2025, um dos fundadores, Larry Álvarez, o Larry Changa, preso na Colômbia desde 2024, envia carta ao governo de Gustavo Petro pedindo apoio para uma “rota viável de desmobilização”. O gesto é lido como sinal de fraqueza, mas também como indício de que parte da facção busca uma saída negociada para sobreviver.
Os desdobramentos políticos se acumulam. Na Colômbia, a inclusão de Petro na lista de sancionados alimenta uma disputa interna sobre o rumo da política de drogas e entra com força na campanha das eleições locais, cuja segunda fase está marcada para 21 de junho. No México, a narrativa de que setores da extrema direita americana tentam “sabotar” a relação bilateral ganha espaço, enquanto a presidente Sheinbaum afirma publicamente que “poucos mexicanos concordam com uma intervenção”.
Especialistas também enxergam um risco estrutural. Ao empurrar facções para fora do sistema financeiro formal, as sanções podem acelerar a busca por alternativas ao dólar em transações ilícitas. “Essa estratégia fornece incentivos adicionais para a desdolarização, visando evitar a jurisdição americana”, alerta Nikos Passas, professor da Universidade Northeastern. Na avaliação dele, o endurecimento pode produzir grupos mais organizados, sofisticados e resilientes, e ao mesmo tempo reduzir a capacidade de monitoramento das autoridades.
Brasil entra em zona de atrito prolongado
A designação de PCC e Comando Vermelho como terroristas coloca o Brasil em uma zona de atrito prolongado com Washington e com o próprio mercado financeiro global. Bancos terão de ampliar filtros, empresas precisarão mapear cadeias de fornecedores com mais rigor e profissionais de alto patrimônio vão rever estruturas de investimento para evitar qualquer risco de associação indireta às facções. Do outro lado, o governo brasileiro tende a ser pressionado a aprofundar cooperação policial, acelerar extradições e aceitar monitoramento mais intenso de fluxos financeiros suspeitos.
Os próximos meses devem mostrar se a estratégia americana seguirá o padrão visto no México e na Colômbia, com investigações que alcançam políticos, governadores e pessoas próximas ao poder, ou se o Brasil conseguirá conter o impacto dentro da esfera estritamente criminal. Enquanto a violência nas periferias e fronteiras segue alta e os grandes grupos se adaptam às novas barreiras financeiras, a pergunta que se impõe é se o rótulo de terrorismo basta para enfraquecer facções que há décadas aprendem a lucrar justamente com a pressão do Estado.
