vivo Mobile vira JOVI e turbina fábrica em Manaus para crescer no Brasil
A quinta maior fabricante de smartphones do mundo aposenta a marca vivo Mobile no Brasil e passa a se chamar JOVI após um ano de operação no País. A mudança, concluída em 2026, vem acompanhada de uma aposta pesada em produção local, ajustes nos aparelhos para o consumidor brasileiro e uma estratégia focada no público jovem.
Do nome problemático à marca “nascida” no Brasil
A empresa desembarca por aqui no ano passado praticamente como uma desconhecida. Traz na bagagem o nome vivo Mobile, que funciona bem em mercados como China e Índia, mas esbarra num obstáculo imediato no Brasil: a homonímia com a Vivo, gigante espanhola de telecom que lidera o mercado local de telefonia móvel. O risco de confusão jurídica e comercial força uma decisão rápida.
Ray Yang, CMO global da companhia, transforma o problema em narrativa de oportunidade. “O principal desafio também era a nossa maior oportunidade: construir uma marca nascida no Brasil e para o Brasil, mas carregando toda a força, inovação e credibilidade tecnológica de uma companhia global,” diz ao Brazil Journal. A escolha recai sobre JOVI, nome já usado internamente na plataforma de inteligência artificial da fabricante.
As primeiras pesquisas com consumidores brasileiros surpreendem os executivos. Nos grupos de teste, “JOVI” remete a juventude, simplicidade e tecnologia. O som curto, fácil de pronunciar, ajuda na memorização. Em vez de apenas contornar a confusão com a Telefônica, a empresa enxerga a chance de ocupar um espaço simbólico: ser a marca de smartphones que fala diretamente com o público jovem, urbano e conectado.
Essa virada de marca é acelerada ao longo de 2025 e se consolida em 2026, quando todas as ações de comunicação, produtos e pontos de venda já usam o novo nome. Sem fanfarra publicitária, a companhia insere a transição dentro de um plano mais amplo: fincar raízes produtivas e tecnológicas no País e disputar não só preço, mas também relevância de marca.
Tropicalização em escala e fábrica de Manaus turbinada
A estratégia para sustentar a nova identidade passa por um movimento que outras multinacionais muitas vezes tratam como detalhe: adaptar os aparelhos ao uso real do brasileiro. “A gente já fez mais de quatro mil entrevistas individuais com consumidores brasileiros e, em alguns casos, acompanhamos até a jornada completa do usuário para entender como ele usa o smartphone ao longo do dia,” afirma André Varga, diretor de produtos da JOVI no Brasil.
Essas conversas mapeiam hábitos e frustrações. Jovens que passam horas em redes sociais e streaming reclamam de bateria que não aguenta o dia. Usuários que usam videochamadas e gravam stories exigem câmeras frontais melhores. Consumidores fora dos grandes centros contam com internet instável e buscam aparelhos que lidem bem com armazenamento local e sinal irregular.
Com base nesse diagnóstico, cerca de 40% dos modelos vendidos pela JOVI no Brasil ganham adaptações específicas. Em alguns aparelhos, as baterias recebem mais capacidade para suportar um dia intenso de uso de vídeo e jogos. Em outros, a empresa reforça câmeras frontais, melhora estabilização de imagem e ajusta configurações de luz para selfies em ambientes internos. Há ainda mudanças menos visíveis, como ajustes em memória, conectividade e software embarcado, calibrados a partir das entrevistas.
A engenharia não fica restrita ao papel. Em Manaus, a planta que monta os aparelhos amplia sua capacidade produtiva de 100 mil para 500 mil unidades por ano em doze meses, um aumento de cinco vezes. A empresa não divulga o volume efetivo de vendas desde a chegada ao País, mas Varga admite que a linha de produção é um termômetro. “Pelo aumento da produção, dá para se ter ideia de que estamos crescendo,” diz.
O investimento se espalha pela estrutura nacional. A JOVI monta um time de mais de mil funcionários, abre nove escritórios regionais e chega a mais de 1.800 pontos de venda em todo o Brasil. A presença física em lojas multimarcas, redes de varejo e operadores reforça a percepção de que a marca veio para ficar, não apenas fazer uma aposta tática de curto prazo.
Concorrência mais dura e espaço entre preço e inovação
O portfólio atual da JOVI tem oito modelos, com preços que vão de cerca de R$ 1 mil a R$ 5 mil. A empresa evita disputar o posto de smartphone mais barato do mercado, onde margens são comprimidas e a briga se dá centavo a centavo. A aposta é ocupar o meio do caminho: aparelhos intermediários e avançados, com foco em câmera, bateria e recursos de inteligência artificial discretos, mas perceptíveis no uso diário.
Ao fincar produção em Manaus e adaptar especificações ao gosto local, a JOVI cria uma combinação que pressiona concorrentes estabelecidos. A empresa captura incentivos fiscais da Zona Franca, gera empregos industriais e ainda tenta empurrar a conversa de valor para além do rótulo de “mais um chinês barato”. A narrativa oficial insiste em engenharia, pesquisa com usuários e sofisticação tecnológica, não apenas preço agressivo.
Essa postura tende a esquentar a disputa com marcas que hoje dominam as faixas intermediárias do mercado brasileiro. Fabricantes que operam com pouca engenharia local podem ser forçadas a acelerar a tropicalização de seus produtos ou reforçar parcerias produtivas no País. Grandes redes de varejo, por sua vez, ganham um novo argumento na prateleira: um player global que se apresenta como “brasileiro por concepção”, ainda que controlado da China.
Para o consumidor final, o efeito prático é um cardápio mais variado de aparelhos com cara de Brasil, em um momento em que o smartphone concentra trabalho, lazer, banco e identidade digital. A ênfase nas demandas do público jovem indica que a disputa pelo primeiro ou segundo smartphone de milhões de brasileiros deve se intensificar, com impacto direto sobre fidelidade de marca nos próximos anos.
Próximos passos da JOVI e o recado ao mercado
Yang insiste que a operação brasileira não é apenas um ponto de montagem. “Nossa chegada ao País foi estabelecida com raízes profundas,” afirma. “Não se trata apenas de montagem. Trata-se de replicar no Brasil a mesma engenharia de ponta e eficiência que temos em nossas operações globais.” Na prática, isso significa trazer parte do desenvolvimento de produto para mais perto do consumidor local, encurtando o ciclo entre feedback e nova geração de aparelhos.
Com a transição definitiva para a marca JOVI e a fábrica de Manaus operando em nova escala, a companhia se move para consolidar participação de mercado nos próximos dois anos. A meta implícita é deixar de ser uma “desconhecida” e entrar de vez no radar do consumidor médio, que hoje associa o setor a um punhado de grandes marcas. Se a combinação de nome novo, produtos tropicalizados e presença física em 1.800 pontos de venda será suficiente para isso, o mercado brasileiro de smartphones deve responder com clareza nas próximas safras de lançamento.
