Ciencia e Tecnologia

DNA revela por que leão-das-cavernas não era só um leão gigante

Um mapeamento genômico inédito detalha, nesta quinta-feira (4), o que torna o leão-das-cavernas diferente do leão moderno. O estudo, assinado por equipes da Suécia e do Reino Unido, mostra que o felino extinto forma uma linhagem própria, adaptada ao frio extremo da Era do Gelo.

O que o genoma conta sobre um predador perdido

A pesquisa, publicada na revista científica Cell, é liderada pelo Centro de Paleogenética da Universidade de Estocolmo e pelo Museu Sueco de História Natural, em parceria com a Universidade de Cardiff. Os cientistas comparam o DNA de 12 leões-das-cavernas, que viveram entre 17 mil e 148 mil anos atrás, com o de 20 leões modernos. A amostra cobre áreas hoje na Rússia, Áustria e território de Yukon, no Canadá, e reconstrói a história de uma das feras mais difundidas da megafauna do Pleistoceno.

O material genético vem sobretudo de ossos e dentes, mas também de tecidos congelados em permafrost siberiano, o solo permanentemente gelado que preserva corpos por milênios. Entre esses achados está Sparta, uma fêmea de filhote descoberta na Sibéria e descrita pelos autores como um dos melhores espécimes da Era do Gelo já encontrados. A qualidade do DNA permite comparar, gene a gene, como o leão-das-cavernas se afasta do parente que hoje domina savanas africanas.

Os resultados indicam que as duas espécies se separam há cerca de 1,7 milhão de anos, no início do Pleistoceno. A partir daí, cada linhagem acumula variantes genéticas próprias, ligadas a crescimento, visão, função cerebral e sistema circulatório. “Mostramos que os leões das cavernas não eram simplesmente versões da Era do Gelo dos leões modernos, mas sim representavam uma linhagem evolutiva altamente distinta”, afirma o geneticista evolucionista Love Dalén, autor sênior do artigo.

O leão-das-cavernas, Panthera spelaea, desaparece há aproximadamente 14 mil anos. O nome engana: os fósseis aparecem em cavernas, mas o animal prefere planícies abertas, frias e secas do norte da Eurásia e do noroeste da América do Norte. Nessa paisagem, conhecida como estepe mamute, o cenário lembra uma savana, porém sob temperaturas abaixo de zero por longos períodos do ano.

Um superpredador da Era do Gelo sob pressão

As análises confirmam que o leão-das-cavernas é maior e mais robusto que o leão moderno. A estrutura óssea e as variantes genéticas associadas ao tamanho corporal sugerem um predador preparado para enfrentar presas pesadas e longas travessias sob frio intenso. “O leão-das-cavernas era, sem dúvida, um predador de topo e, como tal, desempenhava um papel ecológico incrivelmente importante e impactante”, diz David Stanton, geneticista evolucionista da Universidade de Cardiff e autor principal do estudo. “Eles foram um dos carnívoros mais disseminados que já existiram.”

As presas mais prováveis incluem mamutes-lanosos, em especial jovens e idosos, rinocerontes-lanosos, renas, cavalos, bisontes e antílopes adaptados ao gelo. Outros grandes predadores dividem o território, entre eles lobos, hienas-das-cavernas, ursos-pardos, ursos-das-cavernas e o tigre-dentes-de-sabre Homotherium. Em períodos de aquecimento, o poderoso Smilodon, ícone dos dentes de sabre, pode ter invadido o norte e encontrado os leões-das-cavernas em regiões como Yukon e Alasca.

Os humanos já ocupam essas áreas nas fases finais da Era do Gelo. Registros em paredes de cavernas europeias mostram o animal com traços precisos, quase naturalistas, muitas vezes sem a juba volumosa típica dos machos atuais. “Embora não haja provas claras de que os leões-das-cavernas atacassem humanos, parece muito provável que o fizessem ocasionalmente”, afirma Dalén. As pinturas sugerem, ao mesmo tempo, medo e familiaridade com o grande felino.

O estudo também rastreia cruzamentos esporádicos entre o leão-das-cavernas e o leão moderno. Em momentos em que o clima esfria e as calotas polares avançam, a tundra estende seu domínio para o sul, empurrando o leão-das-cavernas para regiões hoje mais temperadas. O território passa a se sobrepor ao do leão moderno, então presente em partes da Eurásia. “O clima parece ditar o nível de cruzamento que observamos entre essas espécies”, explica Stanton.

Os sinais genéticos indicam que encontros desse tipo podem ter ocorrido em áreas como o atual Irã, que já abriga populações significativas de leões modernos. Hoje, a espécie está quase restrita à África, com um pequeno grupo sobrevivendo na Índia. As trocas de DNA não impedem, porém, que as duas linhagens sigam trajetórias próprias, com adaptações específicas a ambientes quentes ou gelados.

O que a extinção do leão-das-cavernas diz sobre o nosso futuro

O aquecimento acelerado ao fim do Pleistoceno, somado à expansão da caça humana, marca o colapso de boa parte da megafauna. Mamutes, rinocerontes-lanosos e o próprio leão-das-cavernas desaparecem em poucos milhares de anos, uma fração mínima se comparada aos 1,7 milhão de anos desde a separação evolutiva em relação ao leão moderno. “Os leões-das-cavernas, assim como o restante da megafauna no final do Pleistoceno, estavam sob enorme pressão devido às rápidas mudanças climáticas combinadas com o aumento da densidade populacional humana”, diz Stanton. “A extinção dos leões-das-cavernas se encaixa no padrão geral que observamos de extinção em massa da megafauna nessa época, mas por razões que ainda não compreendemos completamente.”

As variações genéticas ligadas à visão, à circulação e ao cérebro ajudam a explicar como o animal caça em noites longas e invernos prolongados. Também funcionam como um alerta atual. Ao mostrar como uma espécie se adapta ao gelo e depois sucumbe a mudanças bruscas de temperatura e pressão humana, o estudo oferece pistas sobre o que pode ocorrer com grandes carnívoros modernos, dos leões africanos aos tigres asiáticos, em um planeta que aquece rapidamente.

A técnica usada pelos pesquisadores, a paleogenômica, hoje consegue recuperar DNA de dezenas de milhares de anos com precisão antes impensável. A comparação entre 12 genomas antigos e 20 modernos, algo improvável há apenas uma década, abre espaço para responder perguntas sobre evolução, migrações e colapsos populacionais. Cada novo fóssil bem preservado, como Sparta, aumenta a chance de reconstituir, com detalhes, como predadores e presas reagem a mudanças ambientais extremas.

As próximas etapas envolvem ampliar o número de amostras e cruzar esses dados com informações climáticas e arqueológicas da mesma época. A expectativa é mapear, ano a ano, como as populações de leões-das-cavernas encolhem, mudam de território e perdem diversidade genética. Esse tipo de reconstrução interessa não só a paleontólogos, mas também a especialistas em conservação de espécies ameaçadas hoje, que buscam evitar repetir, em escala global, a história encerrada há 14 mil anos nas estepes geladas do Pleistoceno.

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