Guia sherpa é encontrado vivo após seis dias desaparecido no Everest
O guia sherpa Dawa Sherpa, 52, é encontrado vivo nesta quinta-feira (4) após seis dias desaparecido no Monte Everest. Ele surge rastejando em direção ao acampamento-base, depois de sobreviver na chamada “zona da morte” da montanha mais alta do mundo.
Seis dias sozinho na montanha mais perigosa do planeta
Dawa desaparece em 29 de maio, em meio ao fim da temporada principal de escalada no Himalaia. A última vez em que é visto, está acima dos 8 mil metros, numa faixa em que o ar rarefeito consome rapidamente as forças e o corpo começa a falhar. Entre alpinistas, essa área ganha o apelido de “zona da morte”. Poucos resistem ali por mais de algumas horas.
O caso desperta apreensão imediata entre guias, agências de expedição e familiares no Nepal. A cada dia que passa, a chance de encontrar sobreviventes em altitude extrema cai de forma dramática. Ainda assim, grupos de sherpas seguem vasculhando a montanha, em janelas curtas de tempo, entre ventos fortes e sensação térmica abaixo de 30 graus negativos.
Quando Dawa reaparece, seis dias depois, a cerca de 5,3 mil metros, caminha de joelhos e mãos em direção ao acampamento-base. Imagens divulgadas em redes sociais mostram o alpinista exausto, mas consciente, coberto por roupas rasgadas e com o rosto marcado pelo frio. A informação inicial é de que ele sofre queimaduras causadas por congelamento, mas não apresenta ferimentos graves.
O episódio logo ganha o rótulo de milagre entre colegas de montanha. Em condições normais, expostos a ventos fortes e pouco oxigênio, mesmo atletas experientes podem entrar em colapso em poucas horas. Dawa, segundo relatos de outros guias, sobrevive graças à resistência acumulada em décadas de trabalho em alta altitude e à habilidade em conservar energia, se abrigar do vento e racionar todo recurso disponível.
Everest expõe custo humano das expedições comerciais
A sobrevivência de Dawa reacende um debate antigo sobre os riscos do Everest, que chega a 8.849 metros e atrai centenas de pessoas a cada temporada. Dados de associações de montanhismo apontam para mais de 300 mortes registradas desde as primeiras expedições bem-sucedidas, na década de 1950. O número cresce com o aumento das viagens comerciais.
Guias sherpas como Dawa assumem a parte mais pesada dessas jornadas. Carregam cordas, cilindros de oxigênio, tendas e alimentos. Abrem caminho em trechos instáveis de gelo e pedras. São eles que, na prática, mantêm o fluxo de estrangeiros na montanha, muitas vezes por salários que não refletem o risco real. A história de Dawa escancara essa assimetria e coloca o trabalho dos sherpas no centro da discussão.
Em fóruns de alpinistas, a imagem do guia rastejando ao longo da geleira provoca reação imediata. Relatos defendem mais protocolos de segurança, comunicação por rádio redundante e seguros específicos para trabalhadores de alta altitude. “A indústria precisa proteger melhor quem torna essas ascensões possíveis”, resume um comentário compartilhado amplamente em inglês nas redes.
O episódio também lembra que o Everest, apesar do avanço tecnológico, continua sendo uma fronteira extrema. Equipamentos modernos ajudam, mas não anulam o efeito da falta de oxigênio, das mudanças bruscas de clima e da exaustão que se acumula a cada metro. Dawa sobrevive, segundo colegas, porque conhece a montanha como poucos e sabe quando recuar, mesmo pagando o preço de vagar sozinho por dias.
Pressão por regras mais rígidas e apoio aos guias
A repercussão internacional do resgate empurra governos, agências e federações de montanhismo a rever práticas no Everest. Organizações que atuam no Nepal defendem limites mais claros ao número de licenças por temporada e critérios de experiência mais duros para quem tenta a escalada. A avaliação é que filas em trechos estreitos e equipes mal preparadas aumentam o risco de abandonos em alta altitude.
Entre sherpas, a conversa gira em torno de contratos, seguros e assistência às famílias em caso de acidente. Dawa se recupera, mas muitos colegas não voltam. Em anos recentes, avalanches e quedas de seracs — blocos instáveis de gelo — matam dezenas de trabalhadores locais. A cada nova temporada, histórias como a dele se transformam em argumento por melhores condições de trabalho e redes de apoio.
Especialistas em sobrevivência em ambientes extremos veem no caso um exemplo raro de resistência física e preparo mental. Passar seis dias sob frio intenso, com pouco oxigênio e praticamente isolado, exige decisões rápidas e disciplina rígida de movimento, hidratação e abrigo. A recuperação de Dawa, ainda que lenta, reforça a imagem de que o corpo humano suporta mais do que o imaginado, desde que treinado e acostumado à altitude.
Enquanto ele se afasta do Everest para tratar as lesões por congelamento, produtores de documentários, jornalistas e pesquisadores já disputam espaço para contar a história. A montanha que cobra caro por cada passo agora revela um sobrevivente improvável, capaz de atravessar seis dias na “zona da morte” e voltar para contar. A pergunta que fica, para quem continua subindo, é simples e incômoda: até onde vale empurrar o limite humano em nome de um cume?
