Romário desafia PL e anuncia voto a favor da PEC da escala 6×1
Romário rompe a orientação do PL e confirma que vota a favor da PEC da escala 6×1 em sessão prevista para 3 de junho de 2026. O senador também pede a retirada de sua assinatura de outra proposta trabalhista, que trata da remuneração por horas trabalhadas.
Romário se afasta da linha do partido em disputa sobre jornada
O anúncio de Romário expõe o racha interno no Partido Liberal às vésperas de uma das votações mais sensíveis da agenda trabalhista recente. O ex-jogador, hoje senador e filiado ao PL, decide apoiar a Proposta de Emenda Constitucional que fixa a escala 6×1, modelo em que o trabalhador atua seis dias seguidos e folga um, regra que na prática reorganiza jornadas e descansos semanais no país.
O movimento ocorre em meio à pressão da cúpula do PL para que a bancada feche questão contra a PEC. A direção avalia que a proposta pode ampliar custos para empresas e gerar insegurança jurídica em contratos firmados sob outros regimes. Romário escolhe o caminho oposto e associa seu voto ao discurso de defesa do trabalhador, em um momento em que o Congresso volta a mexer em pilares da legislação que, desde a reforma de 2017, reduz direitos e flexibiliza rotinas.
Ao declarar publicamente o voto, o senador também comunica que quer ver seu nome fora de outra proposta, que atrela de forma mais rígida o pagamento à quantidade exata de horas trabalhadas. A desistência sinaliza uma revisão de posição em bloco: ele opta por se vincular à PEC da escala 6×1 e se descola de iniciativas que, segundo aliados, poderiam legitimar jornadas fragmentadas, com salários instáveis e maior margem para cortes de renda.
Romário constrói a narrativa de que a PEC representa um avanço para quem depende do salário no fim do mês. Em conversas com interlocutores, argumenta que a clareza na regra do 6×1 diminui brechas para abusos na distribuição de folgas e na compensação de horas, alvo frequente de reclamações em sindicatos e ações na Justiça do Trabalho. O embate, porém, não é apenas técnico: também envolve a disputa por protagonismo num Congresso em que senadores e deputados tentam marcar posição diante da opinião pública.
O que está em jogo para trabalhadores, empresas e partidos
A PEC da escala 6×1 mexe de forma direta com a rotina de milhões de trabalhadores dos setores de comércio, serviços, indústria e transporte. Supermercados, redes de varejo, call centers, hospitais e indústrias operam, em grande parte, com escalas que combinam finais de semana, noites e feriados. Ao constitucionalizar a lógica do seis dias de trabalho para um de descanso, o Congresso tenta dar uma moldura definitiva para conflitos que hoje se espalham em acordos coletivos, portarias e decisões judiciais.
A mudança tem efeito concreto na organização da vida fora do trabalho. Um balconista de farmácia que atua 48 horas semanais, por exemplo, pode passar a ter o descanso concentrado em um único dia, com menor flexibilidade para ajustes de folgas trocadas ao longo do mês. Sindicatos temem que a nova regra seja usada para consolidar jornadas já extenuantes, enquanto grupos ligados ao empresariado defendem que um texto claro e único reduz disputas e facilita o cálculo de horas extras, adicionais e escalas de fim de semana.
No núcleo do PL, a posição de Romário provoca desconforto. A sigla, que hoje controla uma das maiores bancadas do Congresso, tenta construir imagem de unidade em temas econômicos e trabalhistas. A dissidência do senador reabre a discussão sobre o grau de liberdade de parlamentares em votações estruturais. Dirigentes avaliam reservadamente se vão reagir com punições internas, como advertência ou corte de espaços em comissões, ou se preferem absorver o gesto para evitar a imagem de partido que sufoca votos divergentes.
As centrais sindicais acompanham o caso como termômetro da independência parlamentar. A decisão de retirar a assinatura da proposta de remuneração por horas trabalhadas é lida por dirigentes como recuo diante do risco de ver consolidado um modelo em que o trabalhador recebe estritamente pelo tempo registrado, sem garantias mínimas mensais. Esse tipo de fórmula aproxima o vínculo formal de lógicas típicas de aplicativos, com ganho variável e imprevisível, o que pressiona orçamentos familiares e dificulta o planejamento de gastos fixos.
As discussões ocorrem em um cenário de inflação acumulada em torno de 4% ao ano e taxa de desemprego que, mesmo em queda, ainda deixa milhões fora do mercado. A combinação de salário achatado, alta no custo de vida e jornadas cada vez mais intensas amplia o peso político de qualquer norma que mexa na carga horária ou no descanso semanal. A votação marcada para o início de junho ganha, assim, contorno de teste sobre o equilíbrio entre produtividade e proteção social.
Próximos passos e o teste da independência no Congresso
A sessão prevista para 3 de junho de 2026 na Câmara dos Deputados deve servir de palco para a consolidação das trincheiras em torno da PEC da escala 6×1. A aprovação em dois turnos, com apoio de pelo menos três quintos dos deputados, abre caminho para o envio do texto ao Senado, onde a posição de Romário já se apresenta como peça-chave na construção de maioria. O senador tende a usar o protagonismo recém-assumido para pressionar colegas e tentar moldar eventuais ajustes no conteúdo da proposta.
No PL, lideranças calculam o risco de uma onda de votos independentes. Se outros parlamentares seguirem o gesto de Romário, a ideia de disciplina partidária em pautas econômicas perde peso e força rearranjos na relação com o governo federal e com o empresariado. A votação da PEC também deve mobilizar sindicatos, associações patronais e movimentos sociais, com possibilidade de atos de rua e campanhas nas redes sociais nos dias que antecedem a deliberação.
A retirada da assinatura de Romário da proposta paralela sobre remuneração por horas trabalhadas indica que o debate trabalhista não se encerra na escala 6×1. Novos projetos, ajustes em leis já aprovadas e revisões pontuais tendem a voltar à pauta ao longo do segundo semestre, à medida que categorias pressionem por garantias mínimas de renda e previsibilidade. Essa disputa legislativa, somada às decisões dos tribunais, deve definir, nos próximos anos, o desenho efetivo da jornada e do salário no Brasil.
O gesto do senador, ao desafiar a orientação do próprio partido e escolher um lado em uma matéria que mexe com o cotidiano de quem trabalha, recoloca no centro do debate o peso do mandato individual frente às engrenagens partidárias. A votação da PEC da escala 6×1 ajuda a responder se o Congresso caminha para um modelo em que a disciplina vale mais do que a convicção, ou se ainda há espaço para que parlamentares construam trajetórias próprias a partir das demandas que escutam fora de Brasília.
