Mulher de 37 anos é presa após viver 14 meses como falsa adolescente em SC
Amanda Maria Souza de Oliveira, 37, é presa em Joinville (SC) em 3 de junho de 2026, após viver por cerca de 14 meses como filha adotiva apresentada como adolescente de 12 anos. A Polícia Civil identifica que a mulher já havia enganado órgãos de proteção em outros estados, inclusive em Campo Grande (MS), onde se passou por uma jovem de 13 anos em 2023.
Da igreja ao acolhimento: como a farsa ganha corpo
O caso vem à tona depois que a família catarinense que acolhe Amanda descobre, com ajuda de uma parente, reportagens antigas sobre uma mulher com o mesmo perfil. A suposta adolescente chega a Joinville dizendo ter fugido do Pará por sofrer maus-tratos, segundo relato feito a membros de uma igreja local e divulgado pela Folha de S.Paulo. A narrativa comove fiéis, que intermedeiam o contato com um casal disposto a recebê-la em casa.
Durante pouco mais de um ano, Amanda ocupa o lugar de filha. Ganha quarto, rotina doméstica e até festa de aniversário de 12 anos, com bolo, decoração infantil e presentes. Para explicar a aparência incompatível com a idade que afirma ter, diz sofrer de autismo e de outras condições clínicas, além de repetir que, na infância, o pai teria aplicado hormônios para que parecesse mais velha. No dia a dia, segundo a investigação, fala com voz mais aguda, usa objetos associados à infância e adota comportamentos infantilizados para reforçar o papel de menina vulnerável.
A trama começa a ruir quando uma parente da família estranha contradições na história e decide pesquisar o caso na internet. Ela encontra registros de uma mulher que circula por diferentes estados se apresentando como adolescente vítima de violência, sempre com detalhes muito parecidos. A família procura a polícia, que cruza informações com delegacias de outras regiões e confirma que a suposta menina tem, na verdade, 37 anos.
Histórico de golpes em ao menos três estados
O inquérito em Santa Catarina se apoia em um histórico que já preocupa autoridades de outros estados desde pelo menos 2023. Em 3 de novembro daquele ano, em Campo Grande (MS), Amanda procura atendimento social na Casa da Mulher Brasileira afirmando ter 13 anos e ter nascido em Feira de Santana (BA). Diz não ter documentos, o que mobiliza a rede de proteção infantil da Capital sul-mato-grossense.
A suposta adolescente é então encaminhada para uma unidade de acolhimento institucional na região do Vilas Boas, voltada a crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. Servidores do serviço de proteção e policiais militares passam a estranhar trechos da narrativa e resolvem checar informações na internet. Encontram reportagens sobre uma mulher que usa, em diferentes cidades, a mesma combinação de histórias de maus-tratos, fuga e falta de documentos.
Diante da suspeita, Amanda é levada à Depac Cepol (Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário e Centro Especializado de Polícia Integrada). Na unidade, revela a verdadeira identidade, admite ter 37 anos e declara ser andarilha. Afirma também sofrer de transtornos mentais. O delegado Daniel Luz da Silva registra o caso como falsa identidade. “Ela não preencheu nada, ou apresentou documentos falsos, só disse ser quem não é”, afirma à época. Como não há indícios de prejuízo financeiro, Amanda é liberada poucas horas depois.
O comportamento já é conhecido também no Rio de Janeiro. Em julho de 2023, ela procura um projeto social na capital fluminense dizendo ter sido vítima de prostituição infantil, cárcere privado, maus-tratos e rituais de bruxaria. Repete a versão de que o próprio pai teria aplicado hormônios durante a infância para alterar o corpo. A história leva voluntários e autoridades a mobilizarem estrutura de atendimento, até que sua identidade verdadeira volta a ser descoberta.
Relatos semelhantes surgem em São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Rio Grande do Sul, sempre em projetos de acolhimento, igrejas ou instituições voltadas a pessoas em situação de vulnerabilidade. Segundo reportagens da época, ela se vale de detalhes dramáticos para despertar compaixão e contornar desconfianças de funcionários e líderes religiosos.
Fragilidades no sistema de proteção expostas pelo caso
A nova prisão em Joinville muda a leitura jurídica sobre a atuação de Amanda. Em vez de simples falsa identidade, a Polícia Civil de Santa Catarina investiga estelionato, já que ela teria obtido, de forma fraudulenta, moradia, sustento e ajuda financeira ao se passar por criança em situação de risco. A Justiça decreta a prisão preventiva e determina exame de sanidade mental para avaliar se transtornos psiquiátricos influenciam seu comportamento e sua capacidade de responder pelos atos.
O caso acende alerta em redes de proteção à infância. Em diferentes episódios, conselhos tutelares, abrigos e projetos sociais aceitam a versão da falsa adolescente sem conseguir checar dados básicos, como origem, idade e histórico familiar. A dificuldade para acesso a documentos oficiais e a sobrecarga de equipes ajudam a explicar por que histórias tão improváveis atravessam fronteiras sem serem barradas, avaliam especialistas ouvidos em outras ocasiões sobre fraudes semelhantes.
Organizações de defesa de crianças e adolescentes passam a discutir revisão de protocolos. Entre as medidas em debate estão cruzamento mais ágil de informações entre estados, uso de bancos de dados nacionais e maior rigor na documentação exigida para acolhimento prolongado. Representantes dessas entidades argumentam que o desafio é equilibrar segurança e proteção, sem criar barreiras que afastem vítimas reais de violência doméstica.
Nas redes sociais, a prisão de Amanda alimenta discussões sobre confiança em relatos de violência. Usuários apontam o risco de que episódios como esse sejam usados para desacreditar meninas e meninos que denunciam abusos. Especialistas em direitos humanos reforçam que fraudes precisam ser investigadas e punidas, mas não podem servir de pretexto para deslegitimar a palavra de crianças e adolescentes.
Investigação continua e defesa aguarda laudo
A investigação em Santa Catarina agora se concentra em mapear quanto Amanda recebeu em benefícios materiais e financeiros durante os 14 meses em que viveu com a família de Joinville. Os policiais também cruzam informações com outros estados para identificar possíveis vítimas e dimensionar a extensão da atuação. Relatos de pelo menos cinco unidades da federação já constam em apurações jornalísticas sobre a trajetória da suspeita.
A defesa de Amanda informa à Folha de S.Paulo que aguarda a conclusão da perícia psiquiátrica para se manifestar sobre o caso. O resultado do exame deve orientar a próxima etapa do processo criminal, indicando se ela seguirá para julgamento comum, se há possibilidade de medida de segurança ou se o caso exigirá combinação de tratamento e responsabilização penal. Enquanto isso, o episódio mantém em aberto uma pergunta sensível: até que ponto um sistema criado para proteger crianças em risco consegue se blindar de fraudes sem fechar as portas para quem mais precisa de ajuda.
