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EUA impõem tarifa de 25% e Flávio diz que alvo é Lula, não empresas

Os Estados Unidos anunciam, em junho de 2026, tarifas de 25% sobre uma lista de produtos brasileiros. O senador Flávio Bolsonaro responsabiliza diretamente o presidente Lula e fala em punição ao que chama de “sentimento anti-americano” do governo. A decisão se apoia em relatório do representante comercial dos EUA que cita ordens judiciais secretas contra Big Techs e o papel do Banco Central no PIX.

Tarifaço expõe choque político entre Lula e Washington

A nova taxação, confirmada por Washington após uma investigação aberta em 2025, atinge em cheio a relação bilateral entre Brasil e Estados Unidos. A alíquota adicional de 25% recai sobre exportações brasileiras específicas, ainda em detalhamento técnico, e acende sinal de alerta em setores que dependem do mercado americano para manter empregos e investimentos.

Flávio Bolsonaro transforma o anúncio em munição política contra o Palácio do Planalto. Em entrevista, o senador afirma que a medida mira o presidente, não as empresas brasileiras. “Então, não são as empresas brasileiras que estão sendo tarifadas. Quem está sendo tarifado é o presidente Lula: é ele e o seu comportamento, são as suas ameaças aos Estados Unidos e o seu sentimento anti-americano”, disse. Para o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, a ideologia do petista “coloca a própria população em risco de ver suas exportações encarecidas de novo”.

O relatório do escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) apresenta outro enredo. O documento, concluído após mais de um ano de apurações, aponta “ordens judiciais secretas” contra grandes plataformas digitais, referência direta ao banimento da rede X, em 2024. Menciona ainda o modelo do Banco Central do Brasil, que acumula as funções de regulador e operador do sistema de pagamentos instantâneos PIX, classificado como “conflito de interesse regulatório” por Washington.

Pressão sobre o Planalto, PIX na mira e desgaste com Big Techs

Nos bastidores, auxiliares de Lula tentam se desvincular da leitura de que se trata de uma punição pessoal. O Planalto vinha atuando, desde o fim de 2025, para frear ou esvaziar a investigação americana. Interlocutores do governo admitem que houve tentativas de persuasão diplomática para evitar um desfecho mais duro, mas a ofensiva não impediu o tarifaço anunciado agora.

O USTR sustenta que o Brasil viola compromissos de tratamento isonômico a empresas estrangeiras, sobretudo do setor de tecnologia. A menção às decisões judiciais tomadas sob sigilo, que atingem Big Techs, inclui o episódio de 2024 em que a plataforma X fica fora do ar no país após ordem de um ministro do Supremo Tribunal Federal. O relatório também se detém no PIX, sistema usado por mais de 150 milhões de brasileiros, que hoje concentra no Banco Central tanto o poder de regular quanto a operação da infraestrutura de pagamentos. Para Washington, essa sobreposição desequilibra a concorrência com arranjos privados e bancos estrangeiros.

Flávio Bolsonaro procura se antecipar ao desgaste doméstico. Em fala recente, o senador insiste que a decisão dos EUA não guarda relação com a viagem que faz há cerca de uma semana para se encontrar com o presidente Donald Trump. “Não foi na semana passada quando eu estive lá pra defender o Brasil, pra ajudar o Brasil a ter mais segurança pública. Essa tarifa, que pode ser anunciada em breve, é a tarifa do Lula, gente”, afirma.

Aliados do próprio senador, porém, recomendam cautela. Fontes ouvidas relatam que líderes do campo bolsonarista alertam Flávio sobre o risco de parecer favorável à nova taxação. A avaliação é que o desgaste econômico atinge empresas, empregos e exportadores, inclusive em redutos eleitorais da direita. Em movimento calculado, o senador envia uma carta ao secretário de Estado americano, Marco Rubio, pedindo que o governo dos EUA “poupe o Brasil” da medida e reveja a abrangência do tarifaço.

No Congresso Nacional, a oposição tenta colar a imagem do “Tariflávío” na família Bolsonaro, enquanto o governo trabalha para apresentar o tarifaço como reação exagerada de Washington às políticas de regulação digital e financeira do país. A disputa semântica corre em paralelo ao impacto concreto sobre contratos e balança comercial.

Exportações sob risco e negociação em relógio político

Empresários do agronegócio, da indústria de transformação e de serviços digitais monitoram a lista de produtos afetados. Uma sobretaxa de 25% pode tornar itens brasileiros menos competitivos em relação a concorrentes da América Latina e da Ásia. Dependendo da amplitude da medida, exportadores calculam perdas em centenas de milhões de dólares ao ano, com potencial de afetar margens de lucro e planos de investimento no Brasil já em 2027.

Flávio insiste que as empresas não são o “alvo principal” da Casa Branca, mas reconhece que podem acabar punidas. “É a sua ideologia sendo colocada na frente do interesse do povo brasileiro que pode fazer com que as empresas brasileiras sejam mais uma vez tarifadas”, afirma, numa referência a decisões anteriores de Washington contra produtos nacionais. A reação do mercado, porém, olha menos para a retórica e mais para prazos e brechas de negociação.

No Itamaraty, diplomatas veteranos defendem uma estratégia dupla. Publicamente, o governo deve sustentar que cumpre a Constituição e preserva a independência do Banco Central e do Judiciário. Nas conversas reservadas, a ordem é testar caminhos técnicos para acomodar partes das queixas americanas, sem abrir mão do controle sobre o PIX e da regulação de plataformas digitais. Uma missão a Washington, com ministros da área econômica e de Relações Exteriores, entra no radar como opção para os próximos 30 dias.

Lula tenta manter a narrativa de que o diálogo com Trump ainda vale. Nesta terça-feira, o presidente afirma que está “esperando um telefonema de Trump” para discutir o tema. “Esse acordo não pode ter sua anuência, porque nós dois combinamos 30 dias para poder ter uma resposta sobre o que nós propusemos”, diz. “Você me deve uma reunião e eu devo uma pra você. Porque demos 30 dias para nossos ministros negociarem. Então, eu tô esperando um telefonema seu para me explicar o que aconteceu na sua ausência e na minha ausência.”

Diplomacia em prova e disputa eleitoral no horizonte

O relógio agora corre em duas frentes. Na diplomacia, a equipe de Lula mede quanto espaço ainda existe para adiar, modular ou até suspender parte das tarifas, antes que empresas americanas e brasileiras ajustem contratos e rotas de comércio. Na política interna, governo e oposição disputam a narrativa sobre quem carrega a responsabilidade pela piora no clima com Washington.

O episódio se torna mais um capítulo da longa oscilação entre alinhamento e atrito na relação Brasil-EUA, que alterna momentos de aproximação comercial com embates em áreas como meio ambiente, tecnologia e defesa. A diferença, agora, é o peso do PIX na vida cotidiana de milhões de brasileiros e o alcance das plataformas digitais na arena política. A combinação desses fatores torna o tarifaço um teste mais amplo: não apenas sobre o custo das exportações, mas sobre o grau de autonomia que o Brasil está disposto a manter em sua regulação, diante da pressão da maior economia do mundo.

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