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Everest tem dia recorde de cume e congestionamento extremo na Zona da Morte

O Monte Everest registra em 2 de junho de 2026 um congestionamento humano inédito na chamada Zona da Morte, com filas de até três horas no Degrau de Hillary. Pelo menos 274 alpinistas alcançam o cume pelo lado nepalês em um único dia, superlotam a rota final e reacendem críticas à política de permissões do Nepal.

Fila a 8.800 metros expõe limite da montanha

As imagens circulam nas redes sociais e mostram uma fila compacta de escaladores presos a uma mesma corda fixa, avançando lentamente rumo ao topo do Everest. A cena se repete a cerca de 8.790 metros de altitude, em um degrau rochoso de pouco mais de 12 metros de altura, conhecido como Degrau de Hillary, um dos pontos mais delicados da escalada.

No trecho, o ar rarefeito reduz drasticamente o oxigênio disponível e obriga os alpinistas a usar cilindros suplementares. Cada minuto parado consome gás, energia e margem de segurança. Relatos ouvidos pela imprensa internacional descrevem grupos inteiros imobilizados por até três horas, esperando a vez para cruzar o gargalo da rota.

O local fica na chamada Zona da Morte, faixa acima de 8 mil metros em que o corpo humano não se adapta e começa a se deteriorar. Nessa altitude, qualquer atraso prolongado pode significar o limite entre um retorno seguro e um drama a céu aberto. A combinação de frio extremo, vento imprevisível e cansaço acumulado aumenta o risco de edema pulmonar, confusão mental e quedas.

Apesar disso, a fila avança. Guias sherpas, alpinistas amadores e montanhistas experientes compartilham o mesmo estreito corredor de gelo e rocha. Em algumas imagens, é possível ver pessoas sentadas à beira do abismo, tentando poupar forças enquanto aguardam a vez de subir o degrau final antes do cume.

Permissões em alta, riscos em cadeia

O recorde de 274 cumes em um único dia, todos pelo lado sul, coloca 2026 entre as temporadas mais intensas já registradas no Everest. A marca supera o pico anterior, de 223 cumeadas em um dia de maio de 2019, e ocorre em meio a uma política mais permissiva do governo do Nepal. Quase 500 alpinistas recebem autorização oficial para tentar o topo neste ano.

Desde setembro de 2025, a licença individual para escalar a montanha passa de US$ 11 mil para US$ 15 mil, algo em torno de R$ 75 mil. O reajuste, o primeiro em quase uma década, não reduz a demanda. Pelo contrário, as empresas comerciais seguem lotando expedições com clientes dispostos a pagar por uma chance de pisar a 8.848 metros de altitude.

Especialistas ouvidos pelo jornal britânico Daily Mail alertam que a presença de tantos alpinistas concentrados no cume em poucas horas amplia os riscos coletivos. “A área é estreita, exposta ao vento e com pouquíssimo oxigênio. Qualquer engarrafamento prolongado aumenta o perigo para todos”, afirma um dos guias citados pelo veículo.

Operadores comerciais defendem que é possível mitigar parte do problema. O austríaco Lukas Furtenbach, da empresa Furtenbach Adventures, diz à agência Reuters que o planejamento ajuda a compensar as filas. “Equipes bem preparadas, com logística sólida e oxigênio suficiente, conseguem lidar com os atrasos”, declara. A visão, porém, não encerra o debate sobre o limite aceitável de pessoas em uma montanha que se tornou sinônimo de turismo de alto risco.

As cenas de 2026 lembram o congestionamento histórico de 2019, quando imagens de uma fila de dezenas de pessoas logo abaixo do cume correram o mundo. Naquele ano, uma série de mortes foi associada a atrasos, exaustão e falta de oxigênio. Desde então, especialistas pedem regras mais rígidas para a concessão de permissões, seleção de candidatos e controle de fluxo em janelas de bom tempo.

Lixo no acampamento mais alto do mundo

O impacto da superlotação não se limita à segurança imediata dos alpinistas. A pressão sobre o Everest se traduz em toneladas de lixo acumulado nas encostas e nos acampamentos de altitude. Imagens recentes mostram o Acampamento 4, a quase 8 mil metros, coberto por barracas danificadas, cilindros de oxigênio vazios, embalagens de comida e peças de equipamento abandonadas.

O Colo Sul, onde fica o acampamento, é o último ponto de parada antes do ataque ao cume. A paisagem, que deveria ser de gelo e silêncio, ganha cores artificiais de tecidos rasgados e plásticos espalhados. Perfis especializados em montanhismo nas redes sociais descrevem o cenário como um símbolo da exploração comercial descontrolada. “Estamos transformando um dos lugares mais extraordinários do planeta em um depósito de lixo de luxo”, critica um desses perfis.

O governo do Nepal organiza campanhas periódicas de limpeza, com o apoio de soldados e sherpas. Em 2024, uma dessas operações retira 11 toneladas de resíduos e recupera quatro corpos de alpinistas. Mesmo assim, o problema persiste. A altitude extrema dificulta o trabalho de recolher e descer o material, e muitas expedições ainda tratam o descarte como um custo inevitável da aventura.

Organizações ambientais cobram metas claras de redução de impacto, fiscalização mais rígida e exigência de planos de manejo de lixo pelas empresas. A alta temporada segue, porém, com novas barracas sendo montadas e cilindros sendo deixados pelo caminho a cada janela de bom tempo.

Pressão por limites e turismo mais responsável

O congestionamento recorde no Degrau de Hillary reaquece um debate que se arrasta há anos: até onde o Everest aguenta o avanço do turismo de massa em alta altitude. Analistas e guias defendem que o Nepal estabeleça tetos mais claros para o número de permissões por temporada e distribua melhor as tentativas de cume ao longo das janelas climáticas.

Algumas propostas incluem requisitos mínimos de experiência para quem pede autorização, checagem rigorosa das empresas que organizam expedições e maior presença de fiscais nas trilhas. Também há pressão para que parte da receita das permissões seja obrigatoriamente destinada a programas de limpeza, resgate e monitoramento ambiental.

Operadores comerciais temem perder clientes, mas admitem que o modelo atual encosta no limite. A fila na Zona da Morte funciona como um lembrete visual dessa fronteira. Toda nova temporada repete a mesma pergunta: quantas pessoas podem dividir o topo do mundo ao mesmo tempo sem transformar a montanha em um risco coletivo permanente?

Enquanto o recorde de 274 cumes em um dia entra para as estatísticas, a disputa entre prestígio, lucro e preservação segue em aberto. O próximo passo depende das decisões que o Nepal e a indústria de expedições tomam agora, antes que mais uma foto de congestionamento a 8.800 metros se transforme em prenúncio de uma tragédia anunciada.

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