El Niño ganha força no Pacífico e acende alerta para o clima no Brasil
O Oceano Pacífico entra em padrão típico de El Niño no começo de junho de 2026, segundo a MetSul Meteorologia. Os dados já mostram aquecimento sustentado na faixa equatorial e sinais claros de resposta da atmosfera. A NOAA ainda não oficializa o fenômeno, mas deve fazê-lo nas próximas semanas.
Aquecimento no Pacífico entra em zona de El Niño
A virada acontece na faixa equatorial do Pacífico, uma das áreas mais monitoradas pelos centros de clima do mundo. É ali, em uma faixa que inclui as regiões conhecidas como Niño 3.4 e Niño 1+2, que se decide se o planeta entra ou não em um episódio de El Niño. Nesta primeira semana de junho, os termômetros do mar indicam que o fenômeno já está em curso em seus estágios iniciais.
A análise mais recente da MetSul aponta que vários indicadores oceânicos e atmosféricos convergem para o mesmo sinal. A Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera dos Estados Unidos (NOAA), referência global no tema, ainda não declara oficialmente o início do episódio, mas os dados que a própria agência divulga caminham nessa direção. “O Pacífico equatorial já está em condições típicas de El Niño”, avalia a MetSul em sua leitura mais recente.
O centro das atenções está na chamada Região Niño 3.4, no Pacífico Equatorial Centro-Leste. É esse recorte que serve de base para dizer, de forma padronizada, se o mundo vive El Niño, La Niña ou neutralidade. A última leitura da NOAA mostra que a anomalia da temperatura da superfície do mar nessa faixa atinge +0,5°C pelo novo critério adotado neste ano, o Índice Niño Oceânico Relativo (RONI). Esse é precisamente o piso usado para caracterizar um El Niño fraco.
Os números, porém, contam uma história ainda mais avançada quando vistos pelo método tradicional, o Índice Niño Oceânico (ONI). Nessa métrica, que compara o aquecimento a uma média fixa de 30 anos, a anomalia chega hoje a +1,0°C. O valor coloca o Pacífico Equatorial Centro-Leste em faixa de El Niño moderado e mostra uma escalada rápida desde meados de abril.
Os dados semanais revelam a sequência desse aquecimento. Pelo critério antigo, as anomalias foram de 0,5°C em 15 de abril, 0,8°C em 22 de abril, 0,9°C em 29 de abril, 0,8°C em 6 de maio, 0,9°C em 13 de maio, 1,0°C em 20 de maio e 1,0°C em 27 de maio. Ou seja, sete semanas seguidas com o Pacífico Centro-Leste em patamar de El Niño. Pelo novo RONI, o patamar mínimo de +0,5°C se mantém há três semanas, atendendo ao critério recente da NOAA para início formal de um episódio.
O aquecimento mais intenso aparece ainda mais a leste, próximo à costa da América do Sul. Na Região Niño 1+2, junto aos litorais de Peru e Equador, área associada ao chamado El Niño Costeiro, as anomalias são as maiores desde o início do aquecimento, em fevereiro. Pelo RONI, chegam a 1,7°C; pelo ONI, a 2,2°C. O quadro confirma que o oceano não está apenas mais quente que a média: ele se aquece de forma persistente e organizada.
Atmosfera já responde e Brasil entra em rota de impacto
Um El Niño não se define apenas pela temperatura do mar. Para os meteorologistas, é essencial que a atmosfera responda ao aquecimento, em um processo conhecido como acoplamento oceano-atmosfera. No começo de junho, esse movimento já aparece com clareza. O Índice de Oscilação Sul (SOI), que mede a diferença de pressão entre o Taiti e Darwin, na Austrália, está com média de -14 nos últimos 30 dias, em território típico de El Niño. Quanto mais negativo o índice, mais forte o sinal de que a atmosfera entrou no mesmo modo do oceano.
Os números mostram uma virada rápida. Em abril, a média do SOI foi de -9,8. Em maio, desceu ainda mais, consolidando a transição do Pacífico de um padrão neutro para um padrão de El Niño. A MetSul avalia que os critérios oceânicos pelo índice antigo já estão consolidados e que, pelo novo sistema, o episódio entra agora na janela em que a NOAA costuma anunciar oficialmente o início do fenômeno. A expectativa é de declaração formal ainda em junho.
As projeções indicam que o aquecimento deve se intensificar nas próximas semanas. Águas mais quentes, hoje em profundidades intermediárias, tendem a emergir na superfície ao longo de junho, reforçando o El Niño. Pelo ONI, a tendência é encerrar o mês em patamar de El Niño moderado a forte. Pelo RONI, o episódio deve ser classificado entre fraco e moderado. Na prática, isso significa um Pacífico bem mais quente do que o normal e um empurrão poderoso sobre os padrões de chuva e temperatura em várias partes do planeta.
No Brasil, os efeitos aparecem com força a partir do segundo semestre, principalmente no final do inverno e na primavera. Nenhum El Niño é idêntico ao anterior, lembram os meteorologistas, porque a atmosfera responde também a outros fatores em paralelo, como a temperatura de outros oceanos e oscilações naturais de escala global. O histórico de episódios passados, porém, ajuda a delinear o que está em jogo para cada região do país.
O Norte costuma sentir o fenômeno com menos chuva, sobretudo no Norte e no Leste da Amazônia. O resultado é uma estação mais seca e mais quente, com aumento de queimadas e incêndios florestais. No episódio de 2015-2016, por exemplo, o El Niño contribuiu para um dos períodos de fogo mais intensos da década na floresta.
No Nordeste, o quadro tende a ser ainda mais delicado. El Niño costuma reduzir de forma acentuada as precipitações, favorecendo episódios de seca que pressionam reservatórios de água e a agricultura de sequeiro. Pequenos produtores, que dependem da chuva regular, entram em zona de risco maior. Municípios com histórico de colapso hídrico precisam se preparar com antecedência.
No Centro-Oeste, os impactos tendem a ser mais irregulares, com uma leve tendência a chuvas acima da média em algumas áreas e temperaturas mais altas de forma generalizada. A combinação de calor intenso, sobretudo no fim do inverno e na primavera, com vegetação ressecada amplia o risco de queimadas, inclusive no Pantanal. A região, que ainda se recupera de grandes incêndios recentes, volta ao radar das autoridades ambientais.
No Sudeste, o sinal mais consistente é o aumento das temperaturas médias. Períodos prolongados de calor, ondas de calor intensas e noites mais quentes se tornam mais prováveis. O padrão de chuva não apresenta uma resposta tão clara: há anos de El Niño com primavera chuvosa e outros com precipitação abaixo da média. Mesmo assim, a combinação de calor e tempo abafado pesa sobre o sistema de saúde e sobre o consumo de energia elétrica, elevando a demanda por refrigeração.
O Sul costuma ser a região mais diretamente impactada. El Niño está historicamente associado a aumento das chuvas e maior frequência de eventos extremos. Episódios de precipitação volumosa, com acumulados em poucos dias, elevam o risco de cheias de rios e enchentes, principalmente no inverno e na primavera do primeiro ano do fenômeno e no outono seguinte. Temporais mais frequentes, acompanhados de vento forte, granizo e formação de ciclones, entram no horizonte de risco. As temperaturas, em média, ficam acima do normal, embora ondas de frio continuem ocorrendo.
Fenômeno deve se intensificar e exige monitoramento constante
Os próximos meses serão decisivos para medir a força deste novo El Niño. Se o aquecimento seguir o ritmo observado desde abril, o Pacífico pode consolidar um episódio moderado, com potencial para impactos relevantes no Brasil e em outros países da América do Sul. Governos estaduais, prefeituras e órgãos de defesa civil começam a incorporar esse cenário em seus planejamentos para o segundo semestre.
O acompanhamento próximo de centros especializados, como a própria NOAA e a MetSul Meteorologia, será crucial para ajustar previsões e emitir alertas com antecedência. Projeções mais detalhadas por bacia hidrográfica, estado e setor econômico devem orientar decisões sobre reservatórios, lavouras, combate a queimadas e planejamento urbano em áreas sujeitas a enchentes. O Pacífico dá sinais claros de que entrou em modo El Niño; a questão, agora, é como o país vai reagir a um padrão de clima que tende a ficar mais extremo.
