Perito do IML e defesa travam embate técnico no caso Henry – Tiago
O oitavo dia do julgamento pela morte de Henry Borel expõe um duelo técnico entre perícia oficial e defesa de Jairinho e Monique, no Rio, nesta terça-feira (2). Em sessão tensa, laudos do Instituto Médico Legal são detalhados, enquanto a equipe dos acusados tenta abrir brechas e levantar dúvidas sobre as conclusões do inquérito.
Embate em torno dos laudos e da dinâmica da morte
A disputa se concentra na explicação das lesões do menino, morto aos 4 anos, e na reconstrução das últimas horas de vida da criança em 8 de março de 2021. O perito do IML reafirma, ponto a ponto, que os ferimentos são compatíveis com agressões sucessivas, e não com uma queda acidental dentro do apartamento na Barra da Tijuca, versão sustentada pela defesa desde o início.
Com gráficos projetados no telão do plenário, o especialista reconstitui o que descreve como um “conjunto de traumas incompatíveis com acidente doméstico isolado”. Destaca a distribuição de marcas pelo corpo, em regiões como cabeça, tórax e abdômen, e a diferença de intensidade entre elas. “Não é uma única queda. Há sinais de múltiplos impactos, em mais de um momento”, afirma, ao ser pressionado pelos advogados dos réus.
A assistência técnica contratada por Jairinho e Monique insiste em brechas metodológicas do laudo, questiona a cronologia da morte e busca relativizar a segurança das conclusões. O grupo tenta explorar margens de erro em estimativas de horário do óbito, que podem variar em algumas horas, e aponta supostas inconsistências na descrição de hematomas e fraturas. A estratégia mira um objetivo central: criar incerteza suficiente para afastar a ideia de agressão intencional e reabrir a possibilidade de um acidente.
O clima de confronto se acentua a cada pergunta cruzada. O perito responde de forma seca, evita especulações e repete que trabalha “com o que o corpo mostra”. A defesa insiste em hipóteses alternativas, como uma queda de maior altura ou uma sequência de acidentes não percebidos pela mãe, Monique. A plateia acompanha em silêncio, marcada pela presença de familiares do menino e de representantes de entidades de defesa da infância.
Impacto do julgamento e pressão por respostas
O caso volta a catalisar um debate que se arrasta há mais de três anos sobre violência doméstica e responsabilização de cuidadores. A morte de Henry, em um condomínio de classe média alta da zona oeste do Rio, ganha desde 2021 contornos de símbolo nacional de falhas na proteção infantil. Em diferentes momentos, o processo reúne milhares de pessoas em transmissões ao vivo nas redes sociais e alimenta discussões sobre como o Estado responde a sinais de risco.
A cada novo depoimento, ganham força perguntas sobre a atuação de escolas, conselhos tutelares e serviços de saúde que tiveram contato com o menino antes da morte. Governos e tribunais usam o caso como referência em debates sobre protocolos de notificação obrigatória de maus-tratos e sobre a necessidade de equipes especializadas para atender denúncias que envolvem crianças. Organizações relatam aumento de até 30% nas queixas de suspeita de agressão infantil em alguns canais oficiais desde 2021, impulsionadas pela repercussão do crime.
No plenário, os advogados dos réus exploram essa onda de comoção para apontar o risco de um julgamento contaminado pela opinião pública. Argumentam que a pressão social e a cobertura intensa podem empurrar o tribunal a uma condenação exemplar, mesmo diante de dúvidas técnicas. Reforçam o direito à ampla defesa e criticam, em apartes, o que chamam de “demonização” de Jairinho e Monique desde a prisão preventiva, decretada ainda em 2021.
Promotores reagem lembrando que o processo se baseia em laudos, prontuários e depoimentos colhidos ao longo de mais de três anos de investigação. Destacam que o Ministério Público reúne dezenas de documentos médicos, relatórios psicológicos e perícias indiretas em aparelhos eletrônicos. A acusação afirma que o material aponta para um padrão de violência anterior à noite da morte e sustenta que a responsabilidade do ex-vereador e da mãe está bem delimitada no conjunto de provas.
Próximos passos e possíveis desdobramentos
O julgamento segue com previsão de se estender por mais alguns dias, com novas oitivas técnicas e eventuais complementações de perícia. A defesa tenta emplacar a necessidade de novos exames e reconstituições, o que, se aceito, pode alongar o rito e empurrar a decisão final para além da próxima semana. A acusação, por sua vez, pressiona pelo encerramento da fase de provas, alegando que o processo já acumula milhares de páginas e sucessivas rodadas de análise pericial desde 2021.
O desfecho do caso tende a ultrapassar os limites do tribunal do júri. Especialistas em direito da infância apontam que a forma como o Judiciário lida com a morte de Henry deve influenciar futuras políticas públicas, de treinamentos obrigatórios em escolas privadas a protocolos mais rígidos de atendimento em emergências pediátricas. No Congresso, parlamentares retomam projetos que tratam de violência contra crianças, em especial propostas que agravam penas quando o agressor é responsável direto pelo cuidado diário.
A cada sessão, cresce a cobrança por transparência de atos processuais e divulgação clara dos fundamentos de cada decisão, para além das manchetes. Organizações de direitos humanos defendem que, qualquer que seja o veredito, o caso não termine na sentença, mas sirva de gatilho para redesenhar fluxos de proteção. O tribunal, diante da comoção e da disputa técnica, se vê diante de uma tarefa dupla: responder à família do menino e sinalizar ao país qual é o limite tolerado de omissão e violência dentro de casa.
