Ucrânia ataca refinaria e depósitos de combustível a 700 km da frente na Rússia
Ataques com drones e mísseis ucranianos atingem, na noite de 31 de maio de 2026, uma refinaria em Saratov e instalações de combustível em duas regiões russas, causando grandes incêndios e feridos civis. A operação aprofunda a guerra à infraestrutura energética da Rússia e amplia o alcance do conflito para centenas de quilômetros além da linha de frente.
Refinaria em chamas no Volga e oleoduto estratégico sob pressão
A ofensiva começa pouco depois do anoitecer e se estende pela madrugada em diferentes pontos do território russo. Segundo o Estado-Maior das Forças Armadas da Ucrânia, uma das principais metas é a refinaria de petróleo de Saratov, às margens do rio Volga, a cerca de 700 quilômetros da frente de combate na Ucrânia. Imagens divulgadas em redes sociais mostram labaredas altas e uma coluna de fumaça densa sobre o complexo industrial.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskiy, assume publicamente a autoria. “Durante a noite, nossos soldados aplicam as sanções de longo alcance da Ucrânia contra uma refinaria de petróleo em Saratov, na Rússia. Isso fica a cerca de 700 km da linha de frente”, afirma. O governador regional, Roman Busargin, confirma danos à “infraestrutura civil”, mas evita detalhar o impacto sobre a refinaria ou sobre o abastecimento local.
A operação não se limita ao Volga. Militares ucranianos afirmam também ter atingido a estação de bombeamento de Lazarevo, na região de Kirov, ao nordeste de Moscou. A instalação integra o oleoduto Surgut-Gorky-Polotsk, corredor que leva petróleo da Sibéria para Belarus, peça importante na malha energética que abastece tanto a indústria russa quanto aliados próximos do Kremlin. O governador Alexander Sokolov diz que drones atingem uma “instalação local”, sem esclarecer a extensão dos danos nem se o fluxo do oleoduto é interrompido.
Mais ao sul, na região de Rostov, um depósito de combustível na cidade de Matveyev Kurgan entra em chamas após novo ataque de drones. A localidade, próxima à porção da região de Donetsk ocupada pela Rússia, funciona como elo logístico entre a retaguarda russa e as tropas que operam no leste da Ucrânia. Autoridades locais descrevem um “grande incêndio” no terminal, enquanto a Ucrânia confirma ter escolhido o alvo como parte de sua campanha de desgaste da retaguarda militar russa.
Guerra de drones atinge civis e amplia risco em torno de Zaporizhzhia
O Ministério da Defesa da Rússia reage destacando o volume da ofensiva. Em comunicado, afirma ter abatido 216 drones durante a madrugada, número que ressalta a escala do ataque, mesmo com parte das aeronaves derrubada antes de alcançar os alvos pretendidos. Ainda assim, destroços caem sobre áreas civis nas regiões fronteiriças.
Os governadores de Voronezh e Belgorod relatam danos provocados por drones em seus territórios. Em Belgorod, que se tornou símbolo da vulnerabilidade da retaguarda russa, três civis ficam feridos, de acordo com as autoridades locais. O episódio alimenta o temor de moradores que vivem a poucos quilômetros da fronteira com a Ucrânia e já convivem, há meses, com alertas de ataque quase diários.
Na Crimeia, península anexada pela Rússia em 2014 e alvo recorrente de ataques ucranianos, o governador Sergei Aksyonov anuncia restrições à venda de gasolina. A medida tenta conter riscos de desabastecimento e evitar filas em postos, em meio à percepção de que depósitos e refinarias sob controle russo deixam de ser zonas seguras.
O endurecimento da guerra contra a infraestrutura energética coincide com uma nova rodada de acusações em torno da usina nuclear de Zaporizhzhia, no sul da Ucrânia, sob ocupação russa desde o início do conflito. Moscou acusa Kiev de atacar, com drones, uma garagem dentro do complexo. O Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia nega veementemente, como já havia feito no dia anterior após acusação semelhante.
O órgão de monitoramento nuclear da ONU, que mantém inspetores permanentes na usina, confirma ter observado danos causados por drones em um prédio de turbinas no sábado. O relatório não atribui responsabilidade a nenhuma das partes e ressalta que os níveis de radiação permanecem dentro da normalidade. A combinação de ataques de longo alcance e uma usina nuclear disputada, porém, intensifica o alerta internacional sobre o risco de um acidente num país que já carrega o trauma de Chernobyl desde 1986.
Meses decisivos e corrida por vantagem em eventual negociação
No comando do Terceiro Corpo de Exército ucraniano, o brigadeiro-general Andriy Biletsky lê os ataques como parte de uma fase crítica da guerra, que entra no quinto ano. Em entrevista à Reuters, ele afirma que o desenrolar dos próximos meses pode definir o equilíbrio de forças. “Acredito que os próximos seis a nove meses serão um ponto de virada. Mais precisamente, acho que os próximos seis meses são os mais críticos”, diz.
Para o oficial, a Rússia dá sinais de desgaste em várias frentes após anos de mobilização e perdas acumuladas. A estratégia ucraniana, descreve, é combinar pressão constante na linha de frente, sobretudo na região de Donetsk, com golpes sucessivos na retaguarda energética e logística russa. Ao mirar refinarias, oleodutos e depósitos de combustível a centenas de quilômetros da fronteira, Kiev tenta encarecer a guerra para Moscou e reduzir a margem de manobra do Exército russo.
Biletsky afirma que uma eventual negociação de paz só interessa à Ucrânia se o país chegar à mesa em posição de força. “Precisamos definir as direções em que podemos melhorar nossas posições, tomar alguns pontos estratégicos e, então, conversar com os russos a partir de uma posição de força – não de fraqueza – sobre uma trégua verdadeiramente estável”, declara. Analistas ouvidos pela Reuters veem lógica similar do lado russo, que busca mostrar resiliência e capacidade de absorver perdas sem ceder em objetivos centrais.
O presidente Vladimir Putin insiste que a Rússia alcançará suas metas militares e afirma, em discursos recentes, acreditar que o conflito se aproxima de sua fase final. Apesar da retórica, a frente leste continua marcada por combates intensos, com avanços graduais e altos custos humanos dos dois lados. A Ucrânia enfrenta dificuldades para repor efetivos e depende de apoio financeiro e militar constante de aliados ocidentais, enquanto a Rússia tenta manter a mobilização sem provocar ruptura interna.
O aumento no uso de drones e mísseis de longo alcance, por ambos os lados, reforça a percepção de que o campo de batalha deixa de se limitar às trincheiras e se espalha pela infraestrutura de energia, transporte e comunicação. Cada fogo em uma refinaria, cada interrupção em oleodutos como o Surgut-Gorky-Polotsk, afeta não só o esforço de guerra, mas também a vida cotidiana em cidades russas distantes do front. A incógnita, para governos e populações, é se essa escalada no céu empurra as partes para um acordo ou apenas prolonga um conflito que já remodela a segurança europeia.
