Mulher de Jairinho fala em infidelidade e contesta violência no caso Henry
Fernanda Abidur, atual mulher do ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho, afirma em depoimento no Rio, em 2026, que o ex-parlamentar foi infiel, mas nega ter sofrido agressões físicas. O relato, prestado durante o julgamento da morte do menino Henry Borel, confronta versões anteriores sobre o comportamento violento atribuído ao réu e reacende o debate público em torno do caso.
Depoimento expõe vida íntima e desafia versão de violência
O depoimento de Fernanda ocorre em um dos momentos mais aguardados do julgamento, que chega ao sexto ano após a morte de Henry, em 8 de março de 2021. Na sala de audiências, diante de juiz, promotores, defesa e familiares do menino, ela afirma que o relacionamento com Jairinho é marcado por conflitos conjugais, mas não por agressões físicas. Ao mesmo tempo, traz à tona episódios de infidelidade do ex-vereador, tema até então mantido à margem da discussão jurídica.
Fernanda declara que discute com o marido, que enfrenta ciúmes e tensão, mas insiste em dizer que nunca foi agredida. Segundo ela, mesmo em situações de confronto verbal mais intenso, o ex-vereador não reage com violência física. A fala contrasta com relatos de ex-companheiras, que ao longo do inquérito e da fase de instrução relataram empurrões, socos e episódios de intimidação. Ao mencionar a infidelidade, Fernanda descreve traições e afastamentos temporários, sem detalhar datas, mas reforça que a dor central de sua relação está na quebra de confiança, não em agressões.
Julgamento do caso Henry ganha nova camada de disputa narrativa
O caso Henry, que choca o país desde 2021, volta ao centro do noticiário com a fase de julgamento em 2026. O menino, então com 4 anos, morre em um apartamento na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio, em circunstâncias que a acusação descreve como resultado de agressões praticadas por Jairinho, com anuência ou omissão da mãe, Monique Medeiros. O ex-vereador responde por homicídio triplamente qualificado, tortura e outros crimes, em um processo que já soma milhares de páginas e dezenas de testemunhas.
No plenário, a defesa tenta desmontar a imagem de um homem violento e recorrente em agressões domésticas. Ao convocar Fernanda, com quem Jairinho se relaciona há alguns anos, os advogados buscam mostrar um cotidiano diferente daquele descrito em outros depoimentos. Ela afirma que o ex-vereador “nunca levantou a mão” contra ela e sustenta que, diante de provocações ou discussões mais acaloradas, ele prefere se afastar. A estratégia mira diretamente o pilar subjetivo da acusação: o histórico de conduta que ajudaria a explicar o que o Ministério Público chama de escalada de violência contra Henry.
A infidelidade, mencionada por Fernanda com franqueza, abre outra frente. Ao admitir traições, ela reforça uma imagem de deslealdade afetiva, mas tenta separar esse comportamento da ideia de agressividade física. Especialistas em direito penal ouvidos após a audiência apontam que o relato pode ter efeito ambíguo: fortalece a tese de que o réu não é violento com todas as parceiras, mas também confirma um padrão de manipulação emocional e mentira, aspectos que pesam na percepção social do personagem central do processo.
Opinião pública dividida e impacto nas próximas fases do processo
O depoimento de Fernanda repercute imediatamente fora do fórum. Nas redes sociais, comentários se dividem entre quem vê na fala dela uma tentativa de humanizar o réu e quem enxerga um esforço de blindagem, típico de relações em que há dependência emocional ou econômica. Associações de defesa de mulheres lembram que nem toda violência doméstica deixa marcas visíveis e que o fato de uma companheira negar agressões não invalida relatos anteriores. Já criminalistas ressaltam que cada relação tem dinâmica própria e que o tribunal deve se ater às provas materiais do processo.
Na arena jurídica, o efeito do depoimento tende a ser medido ao longo das próximas sessões. A acusação trabalha para reforçar laudos, prontuários médicos e mensagens de celular já juntadas ao processo desde 2021, elementos que, para o Ministério Público, formam um quadro consistente de maus-tratos e agressões reiteradas contra Henry. A defesa explora a fala de Fernanda como contraponto à narrativa de um agressor em série, tentando mostrar que, ao menos em parte de sua vida íntima, Jairinho não corresponde ao perfil descrito pelos autos.
O caso, que já mobiliza audiências de mais de três horas e segurança reforçada no Tribunal de Justiça do Rio, segue como termômetro da relação entre Justiça, imprensa e opinião pública. A presença de câmeras do lado de fora do fórum, de comentaristas fixos em programas de TV e de transmissões ao vivo em portais amplia a pressão sobre todos os atores do processo. É nesse ambiente que cada palavra de Fernanda, cada pausa e cada contradição percebida ganham peso desproporcional, com potencial de influenciar não apenas jurados, mas também a memória coletiva sobre a morte de Henry.
Próximos passos e incertezas no desfecho do caso Henry
O julgamento, iniciado em 2026 após uma longa disputa de recursos e incidentes processuais, ainda não tem data certa para terminar. A previsão inicial aponta para pelo menos mais duas semanas de oitivas e debates orais. Depois dessa fase, os jurados se reúnem em sala secreta para decidir, por maioria simples, se condenam ou absolvem Jairinho e os demais réus, em uma sessão que pode avançar pela madrugada.
Fernanda deixa o fórum sem falar com a imprensa, cercada por advogados e sob escolta discreta. O silêncio fora da sala de audiências contrasta com o peso de suas declarações dentro dela. A partir de agora, a narrativa construída por seu depoimento se soma a outras vozes, laudos e registros que compõem o processo. O caso Henry, que desde 2021 expõe rachaduras na rede de proteção à infância e na resposta do Estado à violência doméstica, entra em uma fase decisiva. A pergunta que permanece, à saída de cada dia de julgamento, é se o tribunal conseguirá separar, na dose certa, a comoção coletiva das provas que efetivamente sustentam uma condenação.
